Luiz Inácio Lula da Silva – A disputa pela memória no Brasil do monopólio da verdade

Entre o final de dezembro de 2015 e Agosto de 2016, o Jornal Nacional d TV Globo levou ao ar 13 horas de notícias negativas sobre o ex-presidente, quatro horas de noticiário considerado neutro e nem um segundo de notícias com viés positivo.

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Entre o final de dezembro de 2015 e Agosto de 2016, o Jornal Nacional d TV Globo levou ao ar 13 horas de notícias negativas sobre o ex-presidente, quatro horas de noticiário considerado neutro e nem um segundo de notícias com viés positivo.

Por Rodrigo Abel*

A presente reflexão se propõe a aventurar-se no vasto campo das abordagens que estão circunscritas aos estudos da memória. Memória, entendendo-se aqui como algo do passado, expressado por cada um no momento presente e indexado a partir da nossa capacidade em armazenar fatos e experiências.

Com objetivo de se fazer uma análise comparativa e que possa trazer esta reflexão ao nosso cotidiano, o ponto de partida apresentado é a recente pesquisa divulgada pelo site Poder360 – agosto de 2017, a qual aponta a manutenção da liderança dos ex-presidente Lula para as eleições presidenciais do próximo ano.

Ao observarmos a sucessão presidencial do ano que vem, a pesquisa do Poder 360 nos revela que tanto o ex-presidente Lula como o deputado Jair Bolsonaro continuam polarizando a disputa nos cenários em que os dois nomes aparecem.

Chama a atenção nesta pesquisa o índice que o ex-presidente alcança entre os jovens – 16 e 24 anos, 40%. O índice é superior aos outros segmentos pesquisados – 32% entre aqueles com 25-44 anos; 38% entre aqueles com 45-60 anos; e 16% entre aqueles com mais de 60 anos.

Importante destacar que o piso da amostra – 16 anos, estava nascendo quando ex-presidente assumiu o poder em 2003, e tinha 9 anos quando o mesmo deixou o governo em 2010. Já o teto – 24 anos, tinha 8 anos em 2003 e 16 anos em 2010. É razoável afirmar que durante os dois mandatos do ex-presidente, este grupo tenha pouca lembrança das suas políticas, em que pese o fato de possivelmente terem sido beneficiados direta ou indiretamente – Bolsa Família, Escolas Técnicas, Minha Casa, Minha Vida, Universidades Federais, Prouni, entre outros.

Os altos índices aferidos nesta pesquisa confrontam contraditoriamente com o levantamento do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que aponta uma alta exposição negativa do ex-presidente no principal telejornal da televisão aberta no país – Jornal Nacional da TV Globo, que detém “apenas” 38,9% do “share” de audiência no horário em que é veiculado.

Entre o final de dezembro de 2015 e agosto de 2016, o Jornal Nacional da TV Globo levou ao ar 13 horas de notícias negativas sobre o ex-presidente, quatro horas de noticiário considerado neutro e nem um segundo de notícias com viés positivo.

Nesta ambiguidade, espaço e tempo são categorias fundamentais da experiência e da percepção humana, mas estão longe de serem imutáveis. A história sempre é o presente, e não raras vezes está em disputa. Então, como explicar o fenômeno da alta popularidade do ex-presidente Lula num ambiente onde a mídia constrói a sua verdade a partir de uma narrativa diversa daquela que outrora era absoluta.

A televisão, para muitos estudiosos, têm contribuído de forma decisiva para a erosão e o declínio dos partidos políticos e de suas lideranças. Em todo mundo, ainda que haja novas perspectivas no campo da comunicação de massas, a televisão ainda aparece como a principal fonte de informação das pessoas sobre o que acontece no cotidiano e, em especial, no universo político. É na comunicação que o significado das coisas – inclusive os fenômenos políticos, é construído e onde o mundo da política adquire um sentido específico. A televisão não só transmite informações sobre o mundo, mas sobretudo interpreta, confere valor e dá significado.

É possível afirmar que desde sempre a TV moldou hábitos, criou linguagens, instigou o consumo, ditou moda e desenvolveu determinadas culturas. Embora possamos ser mais ou menos sofisticados na recepção e no tratamento da imagem como fonte de informação, é certo que todos somos influenciados pela TV, sobretudo, em relação ao que devemos pensar.

A literatura dos estudos sobre memória nos indica que o ex-presidente possui enorme capacidade ativadora do passado presente, a qual lhe possibilita, mesmo em condições adversas, confrontar com o poder da comunicação de massas como nenhum outro ator político em toda história do Brasil.

As imagens que nos são apresentadas, cunhadas como informação, são elementos de uma estrutura que busca consolidar uma determinada abordagem de um fato, de uma pessoa, ou de uma perspectiva sobre o passado. O fato é que não há mais passado, tudo agora é o presente. A exaustão deste mecanismo como disputa de uma visão nos coloca num perspectivismo Nietzchiano – “Não há mais fatos sociais, mas sim interpretações”.

Noutra perspectiva, parece plausível apresentar como elemento para a resistência desta alta popularidade a categoria identitária como indexador da memória individual, ainda que esta somente exista na medida em que esse indivíduo seja produto de um determinado grupo. Neste caso, é irretocável a percepção de que o sujeito político, seja ele qual for, tenha relação identitária correspondente com aqueles que dialogam com seu lugar e origem, como é, neste caso, a relação do ex-presidente Lula com os mais pobres deste país.

Ao certo, reside ainda no fenômeno da contigência, compreendida como expressão da incerteza e da dúvida, a incapacidade de se avançar na desconstrução do ex-presidente Lula. Há um limite estabelecido, captado pelas pesquisas, que impossibilita associar o presente caótico, marcado por desemprego, corrupção e retirada de direitos ao mais popular presidente da história do Brasil. Ao que parece, fica a percepção de que a estratégia de imputar “aquilo tudo de ruim do hoje”, não subestabelece ao “tudo de bom do passado recente”.

O amanhã, mais do que o hoje, foi o ontem. E a história, como sempre, ficará ao lado dos vencedores.

*Rodrigo Abel é mestrando em Sociologia Política no IUPERJ e membro da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia

Foto: Heinrich Aikawa/Instituto Lula/Fotos Públicas

 



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