O fascinante “The Clock”, de Christian Marclay, está em São Paulo

Um filme com 24 horas de duração, que se repete. Uma réplica cinematográfica do dia. Cada minuto aparece marcado em um relógio em cena, às vezes sutil, às vezes central. Cada minuto é uma cena retirada de um outro filme. O tempo do filme...

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Um filme com 24 horas de duração, que se repete. Uma réplica cinematográfica do dia. Cada minuto aparece marcado em um relógio em cena, às vezes sutil, às vezes central. Cada minuto é uma cena retirada de um outro filme. O tempo do filme está sincronizado com o horário oficial do lugar de exibição. 1440 minutos retirados de centenas de filmes montados em uma mega videoinstalação. Isso é The Clock (O relógio), obra do suíço-americano Christian Marclay. Leia mais na coluna de Tomaz Amorim

Por Tomaz Amorim Izabel*

Um filme com 24 horas de duração, que se repete. Uma réplica cinematográfica do dia. Cada minuto aparece marcado em um relógio em cena, às vezes sutil, às vezes central. Cada minuto é uma cena retirada de um outro filme. O tempo do filme está sincronizado com o horário oficial do lugar de exibição. 1440 minutos retirados de centenas de filmes montados em uma mega videoinstalação. Isso é The Clock (O relógio), obra do suíço-americano Christian Marclay, que venceu o Leão de Ouro na 54ª Bienal de Veneza em 2011, já foi exibido em museus e galerias de prestígio como o Tate, o Centre Pompidou e o MoMa e agora está em São Paulo.

Os fluxos do dia variam de acordo com a hora em que o espectador entra na sala. Os minutos matinais, passados clandestinamente na cama, são muito diferentes daqueles dos almoços aborrecidos e das festas noturnas. Assim como a numerologia preenchia cada número com uma micronarrativa, em The Clock cada momento é alegorizado pela obra, cada cena relembra ao espectador algo de parecido vivido em uma hora aproximada de algum dia, cada cena abre-se para a possibilidade de uma nova vivência. Mas a obsessão com o relógio também privilegia certos temas que se repetem: embarques em ônibus, aviões e trens (a ferrovia teve papel fundamental na marcação cada vez mais precisa e fragmentada do tempo), consultas e encontros com hora marcada, aulas começando e terminando, entrada e saída nos turnos das fábricas etc. São, não por acaso, cenas características da vida moderna, fruto da disciplina temporal das instituições regidas pelo seu principal aparelho de controle: o relógio.

The Clock encena a tensão entre o tempo objetivo do relógio e o tempo subjetivo da vida. O cinema é a arte que melhor pôde encenar esta tensão porque nasceu e se desenvolveu justamente no período em que o tempo da vida foi gradualmente sendo reduzido ao tempo do relógio. O tempo do relógio venceu, mas viu surgir como seu negativo, como forma de resistência, técnicas e gêneros de vanguarda que tentaram interromper a artificialidade do tempo como quantidade, como mera acumulação de fragmentos sempre iguais e concatenados. Contra isso, talvez, é que a literatura moderna se utilizou das parataxes e dos fluxos de consciência. Contra isso, talvez, é que o cinema de vanguarda levou ao extremo a técnica da montagem. Em poucas obras como The Clock esta técnica mostrou toda sua ambiguidade: a montagem explode o contínuo para em seguida reorganizá-lo em uma nova continuidade.

O crítico de cinema Peter Bradshaw descreveu  da seguinte maneira sua  experiência com a obra: “Para mim, o efeito mais estranho de The Clock é que as referências temporais se tornaram ficcionais. Eu parei de notar que elas estavam me dizendo exatamente que horas realmente eram. Elas se tornaram uma série de números que ordenava o mosaico de humores e momentos. E então, lentamente, mas com certeza, eu parei completamente de notar o tempo. Eu apenas me embebedei dele, apenas aceitei as justaposições”. É a montagem que estabelece uma continuidade entre partes diferentes, o filme é uma grande constelação. O crítico Liam Lacey também descreve sua experiência de vinte e quatro horas ininterruptas assistindo o filme: “E por que Matthew Broderick está espionando Tom Cruise? Não, a espionagem é um truque de edição que se tornará familiar aos poucos. Um personagem olha para fora da cena e nós cortamos para alguém em um outro filme. Ou alguém abre uma porta e nós estamos em outro filme”.

Os minutos são descaracterizados pela pluralidade fascinante dos filmes de que foram tirados. Cada um se torna um pequeno filme, autônomo, liberado do seu próprio contexto original. Por outro lado, sua relação de vizinhança reconstitui uma sequência nova em que o tempo vazio do relógio reencontra o tempo de vida representado nos filmes. Se Walter Benjamin exigiu que o historiador desse “fisionomia às datas”, Marclay parece dar fisionomia aos minutos. A matéria dá contorno ao espaço-tempo através de sua força gravitacional, como os recortes dos filmes moldam com diferentes intensidades a sequência ordenada dos minutos. Da sucessão estéril, numérica, a um tempo mais próximo da vida humana, tempo preenchido e diverso, sequencial, mas por vezes interrompido, lembrado (proustianamente, até), entrecruzado, adiantado por uma espera ou uma promessa. The Clock ordena e repete, mas com variações e diferenças intensas, sua montagem é fragmentada e contínua, como uma paisagem cheia de morros, declives, fauna e flora, e nesta tensão entre abstrato e sensível mostra-se a ambiguidade do tempo experienciado pelas pessoas na Modernidade. Muito se falou sobre a capacidade do cinema de explodir o tempo através da montagem. Poucas imagens representam com tanta potência a literalidade desta explosão quanto a da bomba-relógio, espalhada pelos minutos organizados por Marclay, até finalmente explodir à meia-noite, levando o Big Bang e suspendendo o Tempo Médio de Greenwich.

Informações: Em exibição até o dia 19 de Novembro no Instituto Moreira Salles de São Paulo, Av. Paulista, 2424. Horário de visitação: de terça a domingo e feriados (exceto segunda), das 11h às 20h. Entrada gratuita. Dica importante: The Clock tem algumas apresentações de 24 horas, sempre de sábado para domingo, permitindo ao público experimentar a obra na íntegra. Nessas ocasiões o centro cultural ficará aberto durante as madrugadas, pois a obra será projetada ininterruptamente, das 10h do sábado às 20h do domingo.

*Tomaz Amorim Izabel, 29, tem graduação e mestrado em Estudos Literários pela Unicamp e é doutorando na mesma área na USP. É militante da UNEAfro Brasil. Além de crítica cultural, também escreve poesia (tomazizabel.blogspot.com) e coedita o blog Ponto Virgulina de traduções literárias. Publicou traduções para o português de Franz Kafka e Walt Whitman

Foto: Reprodução de cena de “V de Vingança” (2006), de James McTeigue

 

 



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