Exclusivo: “Apesar do medo, vou continuar denunciando o arbítrio”, diz ativista que teve o filho espancado por policiais em Minas

Mônica Aguiar desabafa: “Nada justifica essa violência. Minha irmã Maria Lina Aguiar foi agredida e levou choque, minha filha de 17 anos também apanhou e meu filho está cheio de hematomas, com o dedo e o nariz quebrados”.

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Mônica Aguiar desabafa: “Nada justifica essa violência. Minha irmã Maria Lina Aguiar foi agredida e levou choque, minha filha de 17 anos também apanhou e meu filho está cheio de hematomas, com o dedo e o nariz quebrados”.

Por Lucas Vasques

A família da militante social e feminista Mônica Aguiar, muito conhecida em Belo Horizonte, Minas Gerais, foi vítima de ações de violência, abuso de autoridade, arbitrariedades e tortura por parte de integrantes da Polícia Militar de Minas Gerais. Na tarde desta quarta-feira (25), policiais, sem identificação e fortemente armados, invadiram, sem mandato ou ordem judicial, a casa da ativista, no bairro Candelária, na capital mineira.

Quebraram utensílios e móveis da casa e agrediram muito o filho dela, Lucas Emanuel Souza de Aguiar, de 22 anos. Eles alegavam que estavam atrás de drogas e armas, embora Mônica e seus familiares neguem veementemente. A irmã de Mônica, Maria Lina Aguiar, que mora próximo, foi até o local e também foi vítima de violência, inclusive levando choques.

A família procurou, além da advogada Ana Cristina de Lana Pinto, a representante da Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, Cristina Paiva. Ambas estão dando suporte jurídico. “Estamos todos convictos da inocência do Lucas no caso. Apesar da acusação de porte de arma e drogas, na audiência de custódia, realizada nesta sexta-feira (27), ele foi liberado para voltar para casa, com uso de tornozeleira eletrônica e em regime de prisão domiciliar por um período de seis meses”, relata a representante da Comissão dos Direitos Humanos da OAB.

Ana Cristina, por sua vez, demonstra revolta: “Os fatos ocorridos causam indignação aos familiares da vítima. A perseguição por alguns policiais ao Lucas Emanuel é evidente. Prova disso foi a abordagem indevida realizada por esses poucos membros que destoam da corporação existente para proteger os cidadãos de bem, como o caso dos familiares do Lucas. O resultado da audiência de custódia comprova a idoneidade da pessoa Lucas, vítima do sistema”, relata.

A advogada do rapaz ressalta que, “liberado com aplicação da medida cautelar, será impetrado recurso cabível, tendo em vista que a referida cautelar poderá por um risco a integridade física e psíquica do Lucas. Os demais atos para apuração dos fatos já estão sendo providenciados”, revela.

Mônica, que é ativista, acredita que a ação da PM possa ter sido motivada justamente por sua militância. Ela conta à Fórum que providências tomou e o que ainda pretende fazer diante desse cenário de violência a que viu sua família ser submetida.

Fórum – Em sua opinião, o que motivou a ação violenta de integrantes da Polícia Militar de Minas Gerais? Teria relação com o fato de você ser uma militante social, ativista da causa dos negros e dos direitos humanos?

Mônica Aguar – Embora não possa ter certeza, a motivação para esse verdadeiro ataque pode ter sido pelo fato de eu ser militante social. Tenho 51 anos e sou uma mãe negra que criou sozinha os seis filhos. Faço ativismo 24 horas por dia, defendendo a mulher negra, os direitos humanos, combatendo o racismo e qualquer forma de preconceito. Acho que o Estado tem de dar conta do que provoca e os jovens precisam de trabalho e não de tortura, como fizeram contra o Lucas (Emanuel Souza de Aguiar). Tenho um blog, que se chama “Mulher Negra” (monicaaguiarsouza.blogspot.com.br), onde divulgo notícias e procuro denunciar violações de direitos humanos, além de escrever artigos para alguns jornais do movimento negro.

Fórum – Já houve algum fato semelhante a esse por parte da Polícia Militar de Minas Gerais?

Mônica Aguiar – Sim. Existe uma perseguição, principalmente em relação ao meu filho Lucas. É importante esclarecer que ele ficou preso por três anos, por envolvimento com o tráfico de drogas. Mas já cumpriu o que devia com a sociedade. Felizmente, consegui resgatar meu filho e hoje ele está totalmente recuperado e buscando se recolocar na sociedade. No caso específico, os policiais foram até minha casa em um carro civil, sem identificação, invadiram minha casa e alegaram que havia armas e drogas, o que é uma completa mentira. Nunca entrou nenhuma arma na minha casa, mas eles colocaram isso no boletim de ocorrência e mantiveram o Lucas detido. A novidade boa é que já foi realizada sua audiência de custódia e ele foi liberado para voltar para casa.

Fórum – Como está a família depois de tudo isso que ocorreu?

Mônica Aguiar – Gostaria de deixar claro que, de qualquer forma, nada justifica essa violência. Minha irmã Maria Lina Aguiar foi agredida e levou choque, minha filha de 17 anos também apanhou (ambas fizeram exame de corpo de delito) e meu filho está cheio de hematomas, com o dedo e o nariz quebrados. Na próxima segunda-feira, será submetido a uma cirurgia no nariz. Isso é muita violência.

Fórum – Que providências você tomou depois do fato e o que ainda pretende fazer?

Mônica Aguiar – Apesar do medo de represálias, vou continuar denunciando o arbítrio por parte desses policiais. Além de usarem um veículo civil, sem identificação, invadiram minha casa, agrediram meus familiares, levaram meu filho e não deixaram, sequer, eu ter acesso ao boletim de ocorrência. Procuramos uma advogada e também a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por meio da dra. Cristina Paiva. Eles estão acompanhando o caso e dando grande suporte. Além disso, estamos recebendo apoio da militância das mulheres negras, o que nos ajuda a suportar o que ocorreu.

Foto: Arquivo Pessoal



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