Wilson Gomes: O Estado Islâmico já está entre nós

Um dos maiores especialistas em esfera pública no Brasil, o professor Wilson Gomes comenta a grita da direita contra o seminário internacional promovido pelo SESC com filósofa Judith Butler. “Claro, essa gente xucra...

4408 0

Um dos maiores especialistas em esfera pública no Brasil, o professor Wilson Gomes comenta a grita da direita contra o seminário internacional promovido pelo SESC com filósofa Judith Butler. “Claro, essa gente xucra e feroz nunca deve ter ido a um congresso de Filosofia. Não deve ter a mínima noção do que pode tratar um simpósio sobre Os Fins da Democracia”. Leia

Por Wilson Gomes*

“Judith Butler não é bem-vinda ao Brasil”, diz a petição dirigida ao SESC Pompeia, que promove o seminário internacional Os Fins da Democracia, de 7 e 9 de novembro. 108 mil pessoas já assinaram a petição; a meta é 200 mil. Uma manifestação está sendo programada. Pede-se que mulheres vistam rosa. Acreditem.

Mas por que Butler não seria bem-vinda? Intelectual mundialmente reconhecida, Butler afirma coisas como “a justiça social não vai ser construída sem o fim da discriminação de gênero”. Há tamanho consenso sobre a premissa de que democracia e justiça não combinam com discriminação, de qualquer tipo, que é de se surpreender que alguma pessoa saudável e apta à convivência civilizada no século XXI possa disso discordar. Mas, não, a reaçada decidiu que Butler é persona non grata e ameaçadora à sociedade brasileira – e a tal ponto que nem sequer deve-se permitir que a ouçam os que forem ao seminário – pela monstruosa razão de que “seus livros querem nos fazer crer que a identidade é variável e fruto da cultura”.

E para completar o samba do reaça doido, rematam: “Não queremos uma ideologia que mascara um objetivo político marxista”. E ainda chamam o congresso de “simpósio comunista”. Rá. E eu que pensava que um marxista jamais compraria a tese de que as identidades são dadas pela cultura (e não pela luta de classes), descubro que, afinal de contas, sempre me enganaram. Toda a Antropologia Cultural resulta ser, então, uma dessas artes de Lúcifer, tendo Marx como coautor.

E para completar a colagem, faltava só colocar pedofilia no meio. Não conseguiram, mas tascaram um “Zelamos pelas nossas crianças e pelo futuro do nosso Brasil”. Ensinar que identidades de gênero são definições culturais deve ser ainda pior que pedofilia. No card que convocava para manifestações o fecho era justamente este: “deixem as nossas crianças em paz”. Judith vem aí ensinar que identidade são construtos culturais, quando, na verdade, Deus faz cada uma e as distribui por cegonhas invisíveis, já completinhas. Fujam!

Claro, essa gente xucra e feroz nunca deve ter ido a um congresso de Filosofia. Não deve ter a mínima noção do que pode tratar um simpósio sobre Os Fins da Democracia. Mas tem certeza de que alguma coisa extremamente maligna ali se faz de que o mal que soltarem lá dentro há de produzir estragos irremediáveis na sociedade brasileira e, sobretudo, nas criancinhas, sempre elas. Os novos conservadores tampouco frequentam, conhecem ou reconhecem arte, principalmente arte contemporânea, mas têm certeza de que quando artistas e intelectuais se reúnem nesses ambientes fora do alcance do olhar do olhar deles, cultos satânico-comunistas são realizados e são consumadas depravadas orgias bolivariano-feministas-lulistas em que virgens são sacrificadas, criancinhas são violadas, enquanto ouve-se, ao fundo, Chico Buarque e Caetano Veloso declamando, em êxtase, versículos marxistas. Em alemão.

Depois vocês ficam compadecidos da Síria e do Iraque, que tiveram fabulosos monumentos destruídos pelo ISIS, em sua “limpeza cultural” motivada por razões religiosas e morais. Compadeçam-se também deste pobre país; o Estado Islâmico definitivamente já está entre nós.

*Wilson Gomes é professor de Teoria da Comunicação na Universidade Federal da Bahia



No artigo

x