A velha e boa prepotência de Sérgio Cabral

Vi Cabral destratar uma repórter em 2007. Todos vimos Cabral destratar um juiz na semana passada e ganhar com isso a sua transferência para Campo Grande. O ex-governador vai ter tempo para refletir sobre isso, sem ar-condicionado, no calor do Pantanal

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Vi Cabral destratar uma repórter em 2007. Todos vimos Cabral destratar um juiz na semana passada e ganhar com isso a sua transferência para Campo Grande. O ex-governador vai ter tempo para refletir sobre isso, sem ar-condicionado, no calor do Pantanal

Por Julinho Bittencourt

Era o ano de 2007 e a cidade do Rio de Janeiro iria sediar os Jogos Pan-americanos. Estavam, portanto, às voltas com os preparativos, entre vários outros políticos, Carlos Artur Nuzman e o então governador do Estado, Sérgio Cabral. Deslumbrado, Cabral saltitava entre várias autoridades, entre elas o presidente Lula acompanhado de Dona Marisa, trocando amabilidades, falando com eloquência sobre seu pai, o velho Cabral, autor do clássico “Os Meninos da Mangueira”.

Sérgio Cabral fumava muito, usava ternos caríssimos, distribuía sorrisos e cantava o samba repetidas vezes, entre um cigarro e outro. Dava entrevistas para várias emissoras e jornais, se gabava da segurança que estava preparada para o evento, contava das belezas das obras, do legado e flanava. Para lá e pra cá.

Uma repórter se aproximou timidamente e disse que precisava de uma declaração qualquer dele. O então governador perguntou ríspido qual era o veículo da moça. Ela respondeu que era de uma assessoria do governo federal. Cabral se virou de costas para a profissional, deu de ombros e saiu esbravejando sem olhar: “Ora, faça-me o favor”, deixando-a no vazio.

Um breve corte para 9 anos depois. Cabral é preso, em novembro de 2016, pela Polícia Federal, em seu apartamento na Zona Sul do Rio. Sobre ele, até o momento, quase uma dezena de processos, joias e diamantes e, ao contrário daqueles velhos tempos, uma expressão arrasada, magro, perplexo.

Nada como um grande revés na vida para reconduzir uma pessoa ao patamar dos humanos normais, certo? Qual nada. Ao recuperar das entranhas a sua velha e boa prepotência, Sérgio Cabral resolveu, nada menos do que, durante depoimento, em outubro, bater boca com o juiz Marcelo Bretas. Entre outras coisas estapafúrdias, diante do seu exasperado advogado – que insistia para que a sessão fosse interrompida por alguns momentos para recompor o seu irascível cliente – insinuou inclusive, que a família do juiz teria negócios com bijuterias e, portanto, ele deveria saber muito bem como funcionam as coisas com joias.

Pois é. A prepotência de Cabral, aquela mesma que o fez virar de costas para uma repórter, o levou a ser transferido por Bretas, mordido com a sua empáfia, para um presídio federal em Campo Grande. Com isso, além de ficar bem longe da família, vai ficar sem rádio e televisão, coisas que não são permitidas por lá. Como se não bastasse, sem ar-condicionado, no calor senegalês daquele início de Pantanal.

Não creio que seja o suficiente para aplacar a empáfia do ex-governador. Nada, ao que parece, será. Mas não deixa de ser um alento lembrar da expressão daquela moça humilhada no exercício da sua profissão, enquanto o então governador sacudia suas joias.

Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil



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