Incêndio na Chapada dos Veadeiros: Berço das águas do Brasil vive “ecocídio” e pede ajuda

Maior reserva de Cerrado do mundo e patrimônio da humanidade, há quase 20 dias que a Chapada dos Veadeiros é devastada por um incêndio que começou a ser investigado nesta semana pela Polícia Federal. Ambientalistas e moradores locais, no entanto, não têm dúvidas: incêndio...

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Maior reserva de Cerrado do mundo e patrimônio da humanidade, há quase 20 dias que a Chapada dos Veadeiros é devastada por um incêndio que começou a ser investigado nesta semana pela Polícia Federal. Ambientalistas e moradores locais, no entanto, não têm dúvidas: incêndio é intencional e criminoso

Por Ivan Longo

Não é de hoje que o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, sofre com incêndios nessa época do ano. As condições climáticas favorecem. O que se viu a partir de 10 de outubro deste ano, para moradores locais e ativistas, no entanto, não se trata de um fenômeno natural. Muito pelo contrário.

Nesta sexta-feira (26) o Ministério Público Federal (MPF) abriu um inquérito para apurar as causas do incêndio, que já destruiu cerca de 65 mil hectares do parque que é considerado Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas (ONU). A Polícia Federal (PF) já está no local. Isso por que moradores locais, ativistas e ambientalistas não têm nenhuma dúvida: o incêndio é intencional e criminoso.

“Com certeza os incêndios são criminosos. Você vê vários pontos de incêndio no meio de matas, em beiras de estradas. Ontem mesmo [quinta-feira] tiveram mais de 20 pontos em que foi ateado fogo”, disse Bruno Mello, presidente da Fundação MAIS Cerrado, que atua na região. Mello, que afirmou já ter visto incendiários colocando fogo em matas próximas a estradas, elencou uma série de aspectos que fazem com os que atuam na região não tenham dúvidas.

Avião tenta conter as chamas. (Foto: Bruno Dias)

“Muita gente perdeu terra. Então, você tem ali cerca de duzentas e poucas famílias que perderam terra. Não que perderam suas casa, mas que perderam suas terras, que nem eram titularizadas. Então, as pessoas mais ignorantes, quando iam para as audiências publicas da ampliação do parque, ficavam ameaçando: ‘eu, com um palito e uma caixa de fósforoa, taco fogo nesse parque todo’. Inclusive o, próprio ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade] tem essas audiências gravadas. Já era esperado que teria esse tipo de atitude, mas não dessa forma tão organizada. Pegaram já numa época de umidade baixa, ventos de 40 graus, foram para pontos estratégicos…Além de criminoso, foi bem organizado. Teve alguém ai por trás financiando isso, com certeza. Não foi uma ação isolada”, pontuou.

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi ampliado, em junho, de 65 mil para 240 mil hectares, uma demanda histórica de ambientalistas e sociedade civil como um todo. Para Bruno Mello, a ampliação do parque pode ter interferido em mais de um interesse.

“Pode ser até desde um cabeça do agronegócio, pessoas que antes da ampliação queriam fazer loteamentos com intenção de especulação imobiliária… Pode ser também simples moradores inconformados. Ou uma soma de todas essas partes. Impossível nesse momento ter certeza”, afirmou.

Incendiários já foram vistos em beiras de estradas. (Foto: Flavia Davies)

Thomas Enlazador, que é ambientalista, permacultor e educador social e atua no Instituto Bioregional do Cerrado, concorda. “Existem evidências claras que esse fogo está sendo provocado por pessoas que estão com algum interesse que a gente ainda não descobriu qual. Existem muitos aqui na Chapada”.

A luta dos ambientalistas, voluntários e ativistas locais, diante deste cenário, é para que, além da identificação dos responsáveis, os órgãos públicos se voltem agora a uma atenção maior à região. Mesmo sendo o santuário de mais de mil espécies de animais, o berço das águas no país, com três aquíferos (Guarani, Urucuia e Bambuí) e a maior reserva de cerrado do mundo, a região convive com a negligência dos governantes locais.

Agora, Forças Armadas, Bombeiros e Defesa Civil contribuem com a rede de voluntários no combate ao fogo mas, segundo ambientalistas locais, não há um monitoramento constante dos incêndios.

Para se ter uma ideia, essa leva de incêndios começou em 10 de outubro o governo de Goiás só decretou estado de calamidade, após muita pressão, na última segunda-feira (23).

“Uma vergonha”, criticou Bruno.

Os guardiões do Cerrado

Os impactos de um incêndio dessas proporções são imensuráveis. A Chapada dos Veadeiros é considerado o cerrado mais biodiverso do país, com cerca de 3 mil espécies de animais. De acordo com o ambientalista Thomas Enlazador, menos de 5% dessas espécies podem ser reproduzidas em um viveiro. A destruição do fogo, portanto, em alguns casos, pode causar estragos que vão desde a extinção de espécies, passando pelo comprometimento de nascentes d’água até a morte de árvores centenárias.

“Os impactos são muito grandes para a fauna, para a flora, para a biodiversidade, pra as nascentes. Existem lugares aqui na Chapada dos Veadeiros em que não entrava fogo há mais de 30 anos. Foram destruídas árvores de grande porte, árvores centenárias, buritis da época do descobrimento do Brasil. Muitos deles foram afetados de forma irremediável, alguns realmente não têm mais como voltar a ser o que era antes. Então, foi um verdadeiro ‘ecocídio’. Praticamente 100% da área do parque nacional antigo, que era de 65 mil hectares, foi queimada. Então, a gente tá muito triste, mas ao mesmo tempo muito confiante”, afirmou.

Rede de voluntários se fortalece (Foto: Bruno Dias)

Thomas está confiante pois, se por um lado esse último incêndio vem mostrando a negligência do poder público e escancarando o jogo de interesses, de outro vem fortalecendo uma enorme rede de verdadeiros guardiões do cerrado que, de forma voluntária, vem atuando para combater as chamas, fazer doações, trabalhar na logística de transporte de equipamentos e preservar uma das regiões de maior biodiversidade do país. São moradores locais, ambientalistas, biólogos, ativistas e toda a comunidade local e de outras regiões que se uniram em prol da Chapada e estão apagando as chamas com as próprias mãos.

Uma das principais atuantes nessa frente voluntária, e que organiza o principal crowndfunding de doações para a região, é a Rede Contra Fogo. Ao lado de institutos e fundações que atuam na região, a Rede, há três anos, agrega a sociedade civil para atuar contra os incêndios. Através do crowdfunding, a Rede vem angariando fundos que são aplicadas na logística das brigadas anti-incêndio, em equipamentos e alimentação.

Para Thomas, a força dessa mobilização abriu caminho para que a Rede se fortaleça e, nos próximos anos, atue não só de maneira emergencial, mas de forma constante na preservação do parque nacional.

Voluntários e equipes profissionais se unem para combater as chamas. (Foto: Rede Contra Fogo)

“A primeira etapa, que a intenção era compra de equipamentos, mantimentos, fortalecer a telecomunicação, logística, gasolina, essa primeira etapa foi alcançada. Mas a gente ainda tem mais três etapas. Queremos chegar na casa dos R$950 mil, pois existem várias ações no pós que precisam ser feitas. Inclusive, a ideia é que desse movimento da Rede Contra o Fogo nasça uma rede oficialmente constituída, provavelmente no formato de uma associação ou fundação, que vai estar desenvolvendo ações constantes na Chapada: de recuperação e regeneração de algumas áreas que foram queimadas, de regeneração também de nascentes, recuperação de áreas degradadas, implementação de tecnologias sociais ligadas a água, viveiros, reflorestamento. Fazer sistemas agroflorestais produtivos, capacitação para cursos, formações de brigadas setoriais voluntárias. Muita coisa. A gente está fortalecendo essa campanha para que mais pessoas se tornem guardiões desse bioma. A chapada é patrimônio mundial da humanidade, é um lugar que precisa de muita atenção”.

Para doar no crowdfunding, clique aqui.

Confira, abaixo, alguns vídeos feitos nos últimos dias pela Rede Contra Fogo.

Foto em destaque: Flavia Davies



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