Os 75 anos de Paulinho da Viola

Há uma máxima esbranquiçada repetida alhures de que Paulinho da Viola dá dignidade ao samba. Nem o próprio concordaria com a frase, tampouco por modéstia. Paulinho é o primeiro a reconhecer a dignidade secular que o ritmo carrega, a despeito de, ou até com...

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Há uma máxima esbranquiçada repetida alhures de que Paulinho da Viola dá dignidade ao samba. Nem o próprio concordaria com a frase, tampouco por modéstia. Paulinho é o primeiro a reconhecer a dignidade secular que o ritmo carrega, a despeito de, ou até com ele

Por Julinho Bittencourt

Há uma máxima esbranquiçada repetida alhures de que Paulinho da Viola dá dignidade ao samba. Nem o próprio concordaria com a frase, tampouco por modéstia. Paulinho é o primeiro a reconhecer a dignidade secular que o ritmo carrega, a despeito de, ou até com ele.

O fato mesmo, irrevogável e irrefutável é que o samba seria outro sem ele. E a razão para tal não depende de dignidades ou conceitos, mas sim de puro talento. Um jorro de genialidade construído a partir de tantas outras dignidades (e genialidades) que Paulinho não abre mão, como Elton Medeiros, Candeia, Carlos Cachaça, Cartola, Casquinha e muitos, muitos outros, que ele ouviu cantou, gravou, repartiu.

Os 75 anos de Paulinho da Viola, comemorados neste domingo (12), servem para lembrar que toda a construção que se preze é coletiva. Quando veio ao mundo, muitos já batucavam, inclusive na sala da sua casa. Bambas que cercavam o seu pai, o lendário César Faria, integrante da primeira formação do grupo de choro Época de Ouro.

Foi ali que o menino Paulinho cresceu ouvindo Pixinguinha, Jacob do Bandolim e tudo o mais de bom que o famoso grupo de choro executou, ao longo de sua longeva carreira.

Paixão assim não se desfaz. O próprio pai queria outro futuro para ele. Mas o garoto fez que fez que, aos 15 anos, ganhou seu primeiro violão e tudo o mais é história. O sem fim de canções que ele passou a compor, como “Sei Lá, Mangueira”, “Foi Um Rio que Passou em Minha Vida”, “Sinal Fechado”, “Coisas do Mundo, Minha Nega”, entre diversas outras, acabariam entrando para o cancioneiro popular brasileiro e também para o imaginário de nosso povo de forma definitiva.

Frequentador apaixonado da Portela, escola de Madureira, e dono de uma generosidade sem fim, seus discos sempre foram feitos a várias mãos. Ao mesmo tempo em que manteve uma enorme sofisticação, tanto na elaboração dos sambas quanto nas suas execuções, Paulinho conseguia reproduzir como poucos em suas gravações o clima de roda e congraçamento do samba.

Fez inúmeros discos, um melhor que o outro. Sempre de maneira surpreendente, nunca se curvou ao gosto médio, ousou em todas as formas e quase sempre se manteve popular. Em 1973, depois de conseguir convencer a si próprio que estava pronto para tal, fez “Memórias Chorando”, um disco instrumental, onde aparecia como solista de cavaquinho, instrumento que até então, com raras exceções, usava apenas para “centrar” os seus sambas. Um primor de álbum.

Como se ainda não bastasse, Paulinho da Viola ainda ataca nas horas vagas de marceneiro e luthier. Com o mesmo capricho com que emoldura seus sambas, choras e canções, constrói móveis que já exibiu orgulhoso em revistas especializadas.

Paulino da Viola completa 75 anos e o Brasil agradece. Sem ele – e toda a sua obra – seríamos outros, um tanto menores e, sem sobra de dúvidas, com menos dignidade.

Foto: Roberto Filho



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