Coalizão de esquerda Frente Ampla surpreende e se consolida como terceira força política do Chile

Beatriz Sánchez superou expectativas e ficou a poucos votos de ir para o segundo turno, que terá a disputa entre o ex-presidente Sebastián Piñera, de centro-direita, e o jornalista Alejandro Guillier, de centro-esquerda.

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Beatriz Sánchez superou expectativas e ficou a poucos votos de ir para o segundo turno, que terá a disputa entre o ex-presidente Sebastián Piñera, de centro-direita, e o jornalista Alejandro Guillier, de centro-esquerda.

Da Redação*

A coalizão de esquerda Frente Ampla (FA) obteve neste domingo (19) um resultado muito superior ao esperado por analistas e previsto pelas pesquisas, ficando a poucos votos de passar para o segundo turno com o ex-presidente Sebastián Piñera e se consolidando como terceira força política no Chile. Piñera, de centro-direita, conseguiu 36,6% dos votos, seguido pelo candidato de Michelle Bachelet, Alejandro Guillier, com 22,7%, e por Beatriz Sánchez (foto), da Frente Ampla, com 20,3%.

A primeira surpresa foi a votação mais baixa do ex-presidente, para quem as pesquisas projetavam 45%. “Isso causa uma frustração importante”, avalia o jornalista brasileiro Victor Farinelli, radicado no Chile. A segunda foi a boa votação conquistada por Beatriz. As pesquisas lhe davam perto de 12%, mas ela acabou tendo 20,3%, quase tirando Guillier do segundo turno.

“Os candidatos-jornalistas Alejandro Guillier (centro-esquerda) e Beatriz Sánchez (esquerda) ficaram praticamente empatados. A votação de Sánchez é surpreendente. Ela é a representante da Frente Ampla, coalizão que reúne pequenos partidos de esquerda, alguns deles ligados a ex-líderes estudantis. Será importante saber se essas duas forças terão a capacidade de se unir ao menos eleitoralmente no segundo turno. Se isso acontecer, poderiam sonhar em virar o jogo e evitar que o Chile se torne mais um governo na linha de Temer no Brasil e Macri na Argentina”, reflete Farinelli.

A origem da Frente Ampla se relaciona com a Nova Maioria, que, por sua vez, é descendente da Concertação, responsável por juntar a Democracia Cristã, o Partido para a Democracia (PPD), o Partido Radical Socialdemocrata (PRSD), o PS (Partido Socialista) e outros menores, na época do plebiscito que decidiu pela saída do ditador Augusto Pinochet.

Em 2013, novos partidos se juntaram à coalizão e formaram a Nova Maioria: Esquerda Cidadã, Partido Comunista e Movimento Amplo Social. Rebatizado, o grupo de partidos levou Bachelet novamente ao governo.

Em janeiro de 2016, a Revolução Democrática (RD), fundada pelo deputado Giorgio Jackson, e a Esquerda Autônoma, do também deputado Gabriel Boric (ambos reeleitos no domingo), entregaram seus cargos no governo Bachelet, anunciaram um distanciamento da Nova Maioria e fundaram a Frente Ampla, que se inspira na sua versão uruguaia e pretende ser uma alternativa de esquerda aos atores tradicionais da política do país.

Um ano depois, a Nova Maioria teve um novo racha: a Democracia Cristã decidiu não participar das primárias da coalizão e lançar candidata própria – a da líder do partido, Carolina Goic, que terminou com 5,88%. Guillier passou a ser apoiado pela coalizão Nova Força da Maioria, da qual fazem parte o Partido Comunista, o PPD, o PRSD e o PS.

Os resultados do domingo mostram que os eleitores penderam mais à esquerda da antiga Nova Maioria, seja votando em Guillier, de centro-esquerda, seja votando em Sánchez, de esquerda. Combinados, os dois obtiveram quase 43% dos votos – o suficiente para superar Piñera, por exemplo.

Além do expressivo resultado na eleição para presidente, a Frente Ampla também conseguiu um bom número de cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado. Segundo o Servel (Serviço Eleitoral do Chile), a FA elegeu um senador e 20 deputados, efetivamente se tornando a terceira força na Câmara Baixa (atrás da Chile Vamos, de Piñera, que terá 73, e da Nova Força da Maioria, que apoia Guillier, com 43).

“O Chile quer mudanças e mais de 1,2 milhão de pessoas votaram pela mudança”, afirmou Beatriz Sánchez em seu discurso após o resultado. Ela disse que enfrentou uma concorrência desigual. “Havia um candidato que gastou seis vezes mais que nós, dez vezes mais que nós. Aqui houve trabalho, seriedade, porque aqui houve coerência, porque houve convicção, porque o fizemos de maneira honesta, não quisemos enganar ninguém”, disse.

Assusta

“A ultradireita assusta, com o pinochetista José Antonio Kast, espécie de Bolsonaro chileno, beirando os 8%. Com os votos dele, Piñera alcançaria 45% de eleitorado possível para o segundo turno – numa matemática simples, mas pode-se dizer que ele larga com esse potencial mínimo. Dois candidatos ficaram entre 5 e 6%: Marco Enríquez-Ominami, social-democrata puro, de esquerda, que deve apoiar Guillier no segundo turno, e Carolina Goic, que faz parte da coalizão centro-esquerdista de Bachelet, mas é da Democracia Cristã, o centrão chileno, que poderia pender para a direita se ameaçado. Os democratas cristãos foram os maiores fracassados da eleição, o partido já fez três presidentes, mas nessa tentativa de candidatura solo conseguiu votação pífia. Goic disse aos eleitores que não devem votar por Piñera, mas outros caciques mais conservadores do partido não escondem seu ódio ao PC, que faz parte da chapa de Guillier – e menos ainda comporiam com a Frente Ampla de Sánchez, que consideram radical”, analisa Victor Farinelli.

 *Com informações do Opera Mundi e UOL

 Foto: Wikimedia Commons

 

 

 

 



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