Após entrevista sobre gênero, professora da UFBA é ameaçada: “Sabemos onde te pegar”

A entrevista foi para o Fantástico. A procuradoria da Universidade registrou um boletim de ocorrência e acionou a Polícia Federal para identificar os culpados pelos ataques virtuais

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A entrevista foi para o Fantástico. A procuradoria da Universidade registrou um boletim de ocorrência e acionou a Polícia Federal para identificar os culpados pelos ataques virtuais

Da Redação*

No dia 12 de novembro, uma professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) –que preferiu não ser identificada nem falar com a reportagem– deu uma entrevista sobre identidade de gênero ao programa “Fantástico”, da Rede Globo. Ela falou sobre “brinquedos de menino e brinquedos de menina”.

Depois que suas declarações foram ao ar naquele domingo, a pesquisadora começou a receber diversas ameaças pelas redes sociais.

Em apoio a ela, o reitor também publicou uma moção de repúdio na página oficial da faculdade, na qual ele chama de “iniciativas obscurantistas” que estão “repercutindo de forma drástica na liberdade de expressão, no livre exercício profissional e na autonomia universitária”.

A procuradoria da instituição registrou um boletim de ocorrência e acionou a Polícia Federal para identificar os culpados pelos ataques virtuais.

Segundo conta Maria Hilda Paraíso, diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da UFBA, da qual a docente faz parte, eles enviavam a ela mensagens como “eu sei onde você mora, onde trabalha, sabemos onde te pegar”. “Além de diversos xingamentos e palavras de baixo calão”, disse ao UOL.

De acordo com Paraíso, as ofensas duraram toda a semana passada. “Então começou a circular entre os alunos que um grupo tentaria impedir que ela desse aula na faculdade na última segunda-feira [21]”, conta a diretora. “Nós tivemos de acionar a segurança da universidade.”

A instituição aumentou o número de seguranças no prédio e a fiscalização de quem passava. “Eles impediram a entrada de pessoas estranhas à universidade, que não fossem alunos, professores ou pesquisadores”, conta Paraíso.

De acordo com a diretora, três pessoas foram barradas sob o pretexto de serem jornalistas que haviam combinado uma entrevista com a docente.

“Mas ficou aquele clima… Então decidimos fazer uma reunião ontem [dia 22] entre os membros da nossa faculdade para debater como se posicionar contra esta postura impositiva”, afirma Paraíso. Segundo ela, mais uma vez, surgiram rumores de que um grupo de alunos e não alunos tentaria inviabilizar a assembleia. “Mas havia tanta gente e tanto segurança que não houve problemas.”

A professora registrou um boletim de ocorrência contra as pessoas que a ameaçaram junto à procuradoria da universidade. A instituição acionou a PF no início desta semana para auxiliar na identificação dos suspeitos.

No dia 13 de novembro, o reitor da universidade, João Carlos Salles, lançou uma moção de repúdio “a tentativas de cerceamento a pesquisas do NEIM (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher)”, grupo de pesquisa sobre mulheres de que a docente faz parte.

“O clima de intolerância que se estabeleceu neste país vem repercutindo de forma drástica na liberdade de expressão, no livre exercício profissional e na autonomia universitária para tratar de temas relevantes concernentes a determinados segmentos sociais”, diz a nota, que também cita as agressões sofridas pela filósofa Judith Butler na sua mais recente vinda ao Brasil e a episódios de “cancelamento de exposições e censura a peça de teatro”.

“Nós nos posicionamos, portanto, contrários às investidas reacionárias que buscam calar o livre debate de ideias e silenciar todo um campo de estudos legitimamente construído e que é fundamental para que possamos ter uma sociedade menos violenta e desigual”, conclui Salles.

*Com informações do UOL/Futura Press/Estadão Conteúdo

Foto: UFBA

 



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