“Estão tratando uma tragédia inominável como se fosse uma briga de bar”, disse o pai de uma das vítimas da Boate Kiss

Na última sexta (1), o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu que o os indiciados não irão a júri popular. Paulo Tadeu Nunes de Carvalho, pai de um rapaz que perdeu a vida no local, revela, com exclusividade à Fórum, quais...

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Na última sexta (1), o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu que o os indiciados não irão a júri popular. Paulo Tadeu Nunes de Carvalho, pai de um rapaz que perdeu a vida no local, revela, com exclusividade à Fórum, quais as providências que foram tomadas.

Por Lucas Vasques

“Posso afirmar que vou perseguir a justiça até o fim da minha vida. Meu filho merece. Não vou desistir jamais”. É dessa forma que Paulo Tadeu Nunes de Carvalho conduz sua vida, após a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), que matou 242 pessoas, entre elas seu filho, Rafael Paulo Nunes de Carvalho, que tinha 32 anos à época. Prestes a completar cinco anos, o drama dessas famílias ganhou mais um capítulo na última sexta-feira (1): o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu que o os indiciados não irão a júri popular. Paulo, que é diretor jurídico da Associação de Familiares de Vítima e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), conta os próximos passos que deverão ser tomados. “Ingressamos na Procuradoria-Geral da República (PGR) com uma solicitação de transferência do processo, para que seja retirado do Rio Grande do Sul e passe a ser conduzido por um juiz federal”.

Fórum – Como avalia a condução das investigações durante esse tempo todo?

Paulo Tadeu Nunes de Carvalho – Estamos quase completando cinco anos da tragédia e, durante todo esse tempo, pude observar uma série de coisas. Apesar do trabalho exemplar da polícia, infelizmente também percebi muitos medos por parte de alguns integrantes do Ministério Público. A primeira surpresa negativa foi quando todos os processos envolvendo entes públicos, como servidores, o prefeito da época Cezar Schirmer, secretários, foram arquivados. Houve uma revolta generalizada, principalmente porque o inquérito policial deixava claro que houve omissão e negligência do poder público, pois todos já tinham recebido denúncia de irregularidades na boate.

Fórum – Quais eram essas irregularidades?

Paulo Tadeu Nunes de Carvalho – Eram muitas, mas vou citar somente algumas, as quais entendo as mais graves: havia obstrução na rota de fuga, as portas eram muito estreitas e não tinha saída de emergência. E todos sabiam disso, inclusive o Ministério Público.

Fórum – Os promotores chegaram a processar o senhor por calúnia e difamação e pediram retratação. Como encarou?

Paulo Tadeu Nunes de Carvalho – Por mais absurdo que isso possa parecer, eu e mais alguns pais fomos processados por dois promotores de Justiça, por calúnia e difamação (Paulo foi inocentado em setembro deste ano). O fato gerou uma revolta ainda maior nos familiares das vítimas. Para piorar, a prefeitura anterior, antes do término da gestão, divulgou que os jovens não deixaram a boate quando começou o incêndio porque estavam embriagados. Isso é o mais completo absurdo, além de um incrível desrespeito aos pais que perderam seus filhos na tragédia. Muitos jovens voltaram para tentar salvar outras pessoas, inclusive meu filho. Ele correu para dentro, salvou uma amiga e retornou para salvar outra. Foi quando ele não voltou mais.

Fórum – Quais foram os argumentos utilizados pelos desembargadores para impedir que os acusados fossem levados a júri popular?

Paulo Tadeu Nunes de Carvalho – Quatro desembargadores voltaram dessa forma. Suas justificativas se basearam no argumento de que os pais estavam com raiva, como se a busca pelo júri popular fosse uma espécie de represália ou vingança. Outro absurdo e um desrespeito. São quase 500 pais que são obrigados a conviver com essa dor imensa. E a maioria se fecha e não sai por aí dando demonstrações de raiva. Só queremos justiça. Não desejo que ninguém seja preso indevidamente.

Fórum – O senhor acha que o julgamento foi parcial?

Paulo Tadeu Nunes de Carvalho – Digo que o julgamento não foi parcial e, sim, contra a sociedade. Para se ter uma ideia, um dos desembargadores que votaram contra chegou a dizer, em uma conversa, que se os acusados fossem a júri popular iriam fatalmente apodrecer na cadeia. Eu pergunto: ele não confia na Justiça? Se ele acredita que não houve dolo, então ele acha que o júri não é justo. Gostaria de deixar claro que não estamos contra o Ministério Público, mas, sim, contra a atuação de alguns membros, contra a falta de ação em favor da sociedade. Além disso, existem juízes que agem como se estivessem acima da sociedade. Infelizmente, quem tem poder ainda recebe muitos privilégios no Brasil.

Fórum – Em sua opinião, o que a justiça do RS sinalizou à sociedade com essa decisão e o que é possível tirar dessa “derrota”?

Paulo Tadeu Nunes de Carvalho – Para mim, foi um tiro no pé dos desembargadores. Foi o mesmo tiro no pé que os promotores deram quando processaram os pais. Acabou reacendendo uma revolta que já estava guardada em muitos familiares. Afinal, estão tratando uma tragédia inominável como se fosse uma briga de bar, um crime corriqueiro.

Fórum – Quais os próximos passos que as famílias das vítimas devem tomar?

Paulo Tadeu Nunes de Carvalho – Na verdade, já tomamos algumas providências. Ingressamos na Procuradoria-Geral da República (PGR) com uma solicitação de transferência do processo, para que seja retirado do Rio Grande do Sul e passe a ser conduzido por um juiz federal. Temos várias razões para que a reivindicação seja aceita. Agora, a decisão está nas mãos da procuradora Raquel Dodge. O Ministério Público, inclusive, se mostrou flexível à ideia de federalizar o processo. Além disso, também encaminhamos uma petição à 1ª Corte Interamericana de Direitos Humanos. Vamos aguardar um posicionamento.

Fórum – De tudo que observou durante esse processo, o senhor ainda acredita na Justiça?

Paulo Tadeu Nunes de Carvalho – Vou falar uma coisa do fundo do coração: não sei se, ao final disso tudo, a justiça será feita. Mas posso afirmar que vou perseguir isso até o fim da minha vida. Meu filho merece. Não vou desistir jamais, pois não posso aceitar uma justiça tão falha.

Fotos: Arquivo Pessoal e Agência Brasil



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