“Há um espaço que só o PSOL pode ocupar, uma proposta de esquerda radical”, diz Juliano Medeiros, novo presidente nacional do partido

Medeiros: “Muita gente fala `poxa, se vocês se entendessem mais, a direita não estaria tão forte’. Mas considero essa visão um pouco ingênua. A questão é: se entender em torno de qual programa, qual tática?”

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Medeiros: “Muita gente fala ‘poxa, se vocês se entendessem mais, a direita não estaria tão forte’. Mas considero essa visão um pouco ingênua. A questão é: se entender em torno de qual programa, qual tática?”

Por Lucas Vasques

“Eu acredito que a esquerda deva ir pra cima dessa turma que tomou o poder. Nenhuma concessão, nenhum acordo com os golpistas. Renovar a esperança de que a esquerda pode mudar o Brasil”. Esta frase define o espírito de Juliano Medeiros, novo presidente nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), escolhido neste domingo (3), durante o 6º Congresso Nacional, realizado em Luziânia, Goiás.

Juliano, que é colunista da Fórum, confirma que o PSOL terá candidato próprio na eleição presidencial de 2018 e que tem dialogado com Guilherme Boulos, líder do MTST. “Ele é um líder extraordinário. Estamos trabalhando para que cheguemos a um entendimento”, afirma.

Em entrevista exclusiva, Juliano revela seus projetos à frente do partido, fala sobre a relação do PSOL com o PT, avalia os papéis de Ciro Gomes e Manuela D’Ávila no processo sucessório e, também, analisa a possibilidade de se formar uma frente de esquerda para 2018.

Fórum – Quais são seus planos à frente da Executiva Nacional do PSOL diante do atual cenário de incertezas e retrocessos do país?

Juliano Medeiros – O PSOL tem cumprido um papel muito importante na política brasileira. Fomos a única força de esquerda no Congresso Nacional a apontar, ao longo de uma década, os limites do “reformismo fraco” representado pelo lulismo. Mas também soubemos, quando estavam em risco a democracia e as conquistas dos governos petistas, tomar as ruas contra o golpe e os retrocessos que ele traria consigo. Então, uma pessoa de esquerda enxerga o PSOL hoje e pensa: “Poxa, que legal, eles deixaram de lado as diferenças com o PT, com o PCdoB, e lutaram contra a queda da Dilma”. E essa pessoa percebe que fizemos isso sem abrir mão das nossas críticas. Isso deixou evidente nossa coerência e acredito que hoje esse é o maior patrimônio do PSOL. Eu diria que a primeira meta é preservar esse legado que é da nossa bancada federal, mas também da nossa militância, dos nossos dirigentes, dos setoriais, de todos nós. Mas precisamos ir além. Está se encerrando um ciclo na esquerda brasileira. Queremos ser uma esquerda combativa, radical, intransigente com as injustiças e as desigualdades, mas queremos também dialogar com os novos processos de resistência que estão se fortalecendo nesse novo ciclo que está se abrindo. Acredito que podemos dar uma contribuição importante unindo as lutas por salário, terra e soberania às novas formas de resistência dos sem teto, das mulheres, dos jovens, dos negros e negras, da comunidade LGBT. Ser um partido aberto, plural, combativo, que une a tradição de luta do povo brasileiro aos novos enfrentamentos do século XXI. Diria que essa é minha maior ambição em relação ao PSOL: projetar uma nova esquerda a partir das nossas lutas por justiça e igualdade.

Fórum – O que o PSOL pode fazer no sentido de evitar mais perdas de direitos, como em relação à reforma da Previdência, que, por sinal, o governo ainda tenta votar e aprovar este ano?

Juliano Medeiros – Nós sabemos que nenhum partido sozinho tem força para se contrapor às medidas do governo Temer. Então, nossa tática é incentivar a unidade de todos os movimentos sociais, entidades de classe, partidos políticos e lideranças populares numa ampla frente contra o governo Temer. Essa frente, claro, não pode ser confundida com uma frente política para as eleições do ano que vem. Mas tivemos exemplos eloquentes ao longo de 2017 que comprovam que, quanto mais ampla a unidade, mais força para fazer frente aos retrocessos do governo Temer. Como diz sempre nosso companheiro Ivan Valente, o que o PSOL faz no parlamento é utilizar aquele espaço para denunciar os ataques ao povo brasileiro e propor uma alternativa popular à crise. Mas só a luta na rua pode mudar o rumo da história.

Fórum – Qual o papel das esquerdas e especificamente do PSOL nesse momento e até mesmo visando à eleição presidencial de 2018?

Juliano Medeiros – Eu acredito que a esquerda deva ir pra cima dessa turma que tomou o poder. Nenhuma concessão, nenhum acordo com os golpistas. Renovar a esperança de que a esquerda pode mudar o Brasil. Da nossa parte, o PSOL aprovou, já no começo do ano, quando voltou a ganhar força o nome do ex-presidente Lula, que nosso partido apresentaria um nome à eleição presidencial. Isso porque, na nossa avaliação, há um espaço que só o PSOL pode ocupar, uma proposta de esquerda radical. Ninguém nega que Lula faz parte da história da esquerda e do próprio Brasil e que seu governo proporcionou alguns avanços importantes. Mas ele não quer – e já não pode – cumprir o papel de apontar uma saída radical, de reformas estruturais que desestabilizem o condomínio do poder político e econômico no Brasil. O PT é hoje um grande partido socialdemocrata, defensor de reformas nos limites do sistema. O PSOL quer ir além do sistema. Somos um partido anticapitalista.

Fórum – O que você pensa em termos de candidato à presidência? Então, o PSOL vai mesmo lançar nome próprio e quais seriam hoje os quadros mais cotados da sigla? Você confirma o diálogo com Guilherme Boulos? Não existe a menor possibilidade de o partido apoiar a candidatura de Lula, caso não seja impugnada? 

Juliano Medeiros – O nosso Congresso Nacional reiterou decisão da Executiva Nacional: teremos candidato próprio na eleição presidencial do ano que vem. Nas três eleições nacionais de que participamos (2006, 2010 e 2014), o PSOL cumpriu um papel importante de apontar os limites dos governos petistas, sem deixar de reconhecer seus avanços. Agora, num momento em que a esquerda precisa relançar uma ideia de radicalidade, de crítica implacável ao programa do golpe, acredito que o PSOL pode dar conta dessa tarefa. A profundidade da crise abre espaço para essa nova esquerda. Quanto a nomes, temos muitos companheiros e companheiras que podem cumprir esse papel. Mas não é segredo que temos dialogado com o companheiro Guilherme Boulos. Ele é um líder popular extraordinário, um combatente dos movimentos sociais que sabe reconhecer o papel dos partidos de esquerda e a necessidade da unidade. Foi peça-chave na resistência ao golpe e às medidas de austeridade que tiveram início no governo Dilma e foram drasticamente aprofundadas por Temer. O diálogo está em andamento e respeitamos o tempo do MTST e do próprio Guilherme. Estamos trabalhando para que cheguemos a um entendimento. O PSOL aposta num processo amplo de reorganização da esquerda brasileira e essa candidatura reforçaria muito essa perspectiva.

Fórum – As últimas pesquisas de intenção de voto apontam a liderança de Lula, com ampla vantagem, e o segundo lugar de Jair Bolsonaro. Como avalia esse fenômeno?

Juliano Medeiros – Eu considero natural que Lula mostre certa resiliência nas pesquisas, apesar da cobertura desfavorável da mídia monopolista em relação aos processos que tramitam contra ele no Judiciário. Diante do desastre que é o governo Temer, a memória das conquistas dos governos Lula, mesmo que limitadas, ficam ressaltadas. Então, não chega a me espantar. Quanto a Bolsonaro, é um fenômeno que demonstra a gravidade da crise do nosso sistema político. Mas esse é um fenômeno mundial, que encontra seus semelhantes na Europa e mesmo na América Latina, resultado da crise econômica, política e social que se aprofunda desde 2008. Não sei dizer se existe base de massas para um projeto político em torno das posições parafascistas que Bolsonaro representa, mas é preciso que a esquerda, e mesmo setores democráticos mais amplos, estejam atentos.

Fórum – O que o PSOL acha do nome de Ciro Gomes (PDT) como alternativa progressista?

Juliano Medeiros – Ciro foi o primeiro que percebeu o espaço que se abria com o fim do ciclo do lulismo. Ele se jogou com afinco na tarefa de disputar esse espaço. Eu o respeito. Participei de um debate com ele, recentemente. Ele disse: “Olha, eu concordo com tudo o que disse o rapaz do PSOL, mas não posso defender isso”. Então, penso que ele não tem condições de representar uma alternativa que supere historicamente o lulismo. Ele mesmo se diz um neokeynesiano. Bom, isso é muito melhor do que tudo o que temos visto desde a reeleição de Dilma, quando o Brasil assimilou definitivamente a agenda da austeridade. Mas está muito aquém daquilo que defendemos como um projeto radical de esquerda que mine as bases da dominação oligárquica em nosso país.

Fórum – O que você achou do anúncio da pré-candidatura da deputada Manela D’Ávila pelo PCdoB? Acredita que fortalece ou divide as esquerdas?

Juliano Medeiros – Conheço a Manu, somos de uma mesma geração de jovens comunistas que se forjou na luta contra o governo FHC no Rio Grande do Sul. Penso que essa experiência, se for levada até o final, fará muito bem ao debate das esquerdas e ao próprio PCdoB, independentemente das importantes diferenças que nos separam. Não tenho uma visão idílica da “unidade das esquerdas”. A unidade se faz em torno de projeto, programa, tática ou estratégia. Então, normalmente quem fala em “divisão” está mais preocupado é em perder a liderança que exerce sobre os demais.

Fórum – Muito se fala na criação de uma frente de esquerda em busca de uma força maior, no sentido de brigar de igual para igual com a direita e o centro-direita. O que pensa disso e, em sua opinião, como se daria a costura dessa frente?

Juliano Medeiros – Tem gente muito séria defendendo um maior entendimento entre as esquerdas. Citaria o ex-ministro Tarso Genro, mas há outros. Eu estou convencido de que estamos transitando de um ciclo, hegemonizado pelo lulismo, a um novo ciclo, onde terá espaço uma nova radicalidade de esquerda, que vai se expressar na defesa de um programa crítico à hegemonia do capital financeiro e radicalmente comprometido com a democracia política e social. Precisamos nos inspirar em processos como os que deram origem ao Podemos (na Espanha), Bloco de Esquerda (Portugal), França Insubmissa (França) e mesmo Syriza (na Grécia) e buscar uma nova síntese política. Há processos semelhantes em curso no Peru e Chile. Agora, não imagino essa nova síntese como uma frente eleitoral ou política num primeiro momento. O PSOL incentiva a construção da Frente Povo Sem Medo, que tem nos mostrado um caminho. Esse processo pode evoluir, no futuro, para novos entendimentos no âmbito da esquerda socialista? Penso que sim. Não tenho dúvidas de que o PSOL cumprirá um papel decisivo nesse novo ciclo. Então, qualquer iniciativa que renove a esperança de transformar o Brasil, de baixo pra cima, contará com um olhar atento da nossa parte.

Fórum – Alguns analistas dizem que falta flexibilidade a algumas lideranças de esquerda no sentido de se criar um entendimento maior entre essas forças progressistas. O que acha disso? O que acha da avaliação de que a esquerda não cede e, por isso, não consegue negociar nem com os mais próximos?

Juliano Medeiros – Penso que, no geral, predomina na esquerda brasileira a flexibilidade. Algumas vezes, inclusive, essa reflexibilidade acabou revelando excesso de pragmatismo. Muita gente fala “poxa, se vocês se entendessem mais, a direita não estaria tão forte”. Mas, como disse, considero essa visão um pouco ingênua. A questão é: se entender em torno de qual programa, qual tática? É claro que temos pontos de convergência. Criticamos o modelo econômico, a desigualdade, a concentração de terra, a exploração indiscriminada do meio ambiente etc. Mas cada partido tem um entendimento diferente de como reverter essa situação. Uns defendem a imediata tomada revolucionária do Palácio do Planalto. Outros defendem um entendimento com partidos golpistas para minimizar os danos. O PSOL defende uma combinação entre luta de massas e ampliação dos espaços na institucionalidade, na perspectiva de promover reformas estruturais por dentro do Estado que ampliem as contradições entre explorados e exploradores. O que define se a unidade é viável não é a subjetividade dos indivíduos, é o programa e a tática.

Fórum – A falta de entendimento das esquerdas pode propiciar uma vitória de Bolsonaro em 2018?

Juliano Medeiros – Não creio nisso. Esse é um argumento artificial para forçar a unidade em torno de um “salvador da pátria”. Recentemente, nas eleições peruanas, a esquerda teve a sabedoria de apoiar um neoliberal para evitar a vitória de uma fascista. É uma escolha que, espero, não precisemos fazer. Mas tenho esperança de que teremos uma candidatura de esquerda no segundo turno. E, claro, trabalharei para que ela seja do PSOL.

Foto: Divulgação



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