“Quando me descobri racista”

Comecei a perceber que conscientemente eu, claro, apoio todo esse movimento. Numa camada mais superficial, no raciocínio e no meu discurso, sou super a favor da valorização do negro. Mas por dentro tenho percebido muitas contradições

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Comecei a perceber que conscientemente eu, claro, apoio todo esse movimento. Numa camada mais superficial, no raciocínio e no meu discurso, sou super a favor da valorização do negro. Mas por dentro tenho percebido muitas contradições

Por Debora Pivotto

Conheci a Bianca em 2003 no primeiro dia de aula da faculdade. E em pouco tempo ficamos muito amigas. Era a única colega negra da sala. Talvez a única de todo o curso de jornalismo. Falávamos muito sobre Direitos Humanos, Política, História… e muitas bobagens também. Me lembro do dia em que ouvi ela falar que estava estudando algo sobre a escravidão e os impactos sofridos pelos negros nas aulas de Ciências Sociais, na USP. Ela achava um absurdo toda a herança de opressão deixada para os negros, grupo do qual visivelmente ela não se sentia parte.

Por diversas vezes me veio na garganta a pergunta: “escuta, como é pra você, como negra, estudar tudo isso? ”. Mas eu nunca consegui perguntar. Não sabia como ela lidava com a questão e tinha até medo que ela se ofendesse com a pergunta (!!).

Acelere o tempo para 2017.

Bianca me escreve para contar que estava num festival literário em Araxá (MG). Ela hoje é escritora, negra e ativista. Autora do livro “Quando me descobri negra”, que relata em crônicas um lindo, profundo e doloroso processo sobre como ela se descobriu e se apropriou de sua origem negra. Deixou de ser morena.

Desde então, sempre falamos muito sobre esse processo de se conectar com suas origens, de resgatar a dor e a força que toda essa história envolve e, principalmente, sobre ter a coragem de escrever sobre isso e inspirar tantas mulheres a fazer o seu caminho de empoderamento. É um processo complexo, cheio de camadas e de contradições. Mas muito potente também.

Sempre tive muito orgulho de ver não só a Bianca, mas tantas mulheres que, nos últimos anos, se assumiram negras. Soltaram seus cabelos e suas vozes. É realmente lindo de ver. Mas, de uns tempos pra cá, tenho olhado mais pra mim e entrado em contato com o meu próprio processo diante de toda essa transformação. E tenho lidado com algo bem complexo e profundo que é a deixar de ser racista.

Discurso x prática

Comecei a perceber que conscientemente eu, claro, apoio todo esse movimento. Numa camada mais superficial, no raciocínio e no meu discurso, sou super a favor da valorização do negro. Mas por dentro tenho percebido muitas contradições. Começou de forma leve quando percebi que eu ia em vários debates com mulheres negras, discutia representatividade, mas quando entrava num restaurante e via mulheres negras no salão, eu continuava com a velha certeza de que elas eram faxineiras, garçonetes ou qualquer outro cargo que exige um menor grau de escolaridade. É uma conclusão assim que chega sem que dê tempo de pensar. É rápida, espontânea, sorrateira. No início, me iludi pensando “ah, mas é a cena que estou mais acostumada a ver, então, é natural que eu tire essa conclusão”. Mas não é só isso. É uma sensação que é difícil de perceber – e mais ainda de assumir – mas é uma certeza de quem no fundo, mas lá no fundo meeesmo, espera e quer que essas mulheres estejam ali daquela forma, entende? Num lugar que não é o mesmo onde eu, mulher-branca-cliente-privilegiada, estou.

Fiquei meio chocada em perceber isso. É difícil. A vergonha é enorme. A gente sempre quer ser mais legal do que se é. Mas como estou me enfiando num processo de auto-conhecimento profundo e compreendendo várias partes minhas bem pouco admiráveis, resolvi ter coragem e ir mais longe na minha auto-observação em relação ao racismo também.

A segunda grande contradição veio com aquela polêmica do uso do turbante, quando uma menina com câncer disse ter sido reprimida por mulheres negras por estar usando algo que é da cultura africana. Meu incômodo nem foi a questão de a menina poder ou não usá-lo – aliás isso só era importante pra quem não se aprofundou no debate. A minha dificuldade foi em aceitar que o turbante era de origem negra. Meu primeiro pensamento – aquele espontâneo, rápido, sorrateiro – me falou “uai, mas as mulheres egípcias já usavam turbantes…”.

Como já estava atenta a esse lado mulher-branca-racista que me habita, refleti e pesquisei o assunto. E quando cheguei num texto incrível da escritora Ana Maria Gonçalves, tomei tantos tapas na cara que fiquei até tonta. Ela fala entre outas coisas sobre essa característica do racismo de não acreditar que os negros possam ter criado coisas legais e incríveis. Aceitamos que o macarrão é italiano (mesmo que tenho sido inventado pelos chineses), que o judô é japonês, mas a capoeira é brasileira (tipo minha, sua, nossa, de todos…), o acarajé é da Bahia, do Brasil, o samba é nosso. O que os negros trouxeram nunca é do negro. E se eles disserem que foram eles que inventaram, a gente ainda questiona. A verdade é que nós, brancos, duvidamos deles o tempo inteiro!  Achamos que eles estão equivocados até quando falam da própria história. É muito arrogância. Resistimos muito em dar a eles glórias e créditos. Já frases como “só podia ser preto” ou “isso é coisa de preto” saem facilmente da boca (ou fica no pensamento) de muita gente quando vê alguém fazendo uma besteira.

No mesmo texto, ela cita um poema de Nei Lopes que diz o seguinte:

“Primeiro,

Eles usurparam a matemática

A medicina, a arquitetura

A filosofia, a religiosidade, a arte

Dizendo tê-los criado

À sua imagem e semelhança.

Depois,

Eles separaram faraós e pirâmides

Do contexto africano

Pois africanos não seriam capazes

De tanta inventiva e tanto avanço”

Nessa hora, eu vi como o racismo é esperto. Consegue deturpar até mesmo limites geográficos, tão claramente definidos nos mapas. Quando reclamei que o turbante vinha do Egito, onde eu enfiei esse país? Na Europa? Na Ásia? Porque no nosso imaginário (racista) a África é só o continente de crianças famintas da Somália e guerras civis. No máximo, a terra do povo que sempre ganha a São Silvestre – e de quem nem sabemos os nomes, aliás. Hollywood inventou que a Cleópatra era loira de olhos azuis como a Liz Taylor e nós acreditamos.

Quando vi o discurso da Taís Araújo dizendo que a cor do filho dela faz com que as pessoas mudem de calçada também ressoou forte em mim. Quando estou andando na rua sozinha e vejo homens se aproximando, eu às vezes fico com medo e tenho vontade de mudar de calçada. E se eu falar que não faz diferença se os homens são negros ou brancos, vou estar mentindo. Porque faz. Os homens negros geralmente me assustam mais. Tenho em minha memória um trauma real de um sequestro relâmpago que sofri e que foi praticado por dois jovens negros. Mas sei que junto com essa experiência concreta vem todo um estereótipo do jovem-negro-bandido que é notícia todo dia na TV e que tá lá grudado no nosso inconsciente. Tenho noção do quanto é opressor e injusto para os jovens negros trabalhadores, e pras mães negras, quando olho para eles com medo ou quando disfarço e mudo de calçada. E tenho pensado muito em como lidar melhor com isso.

Enfim, esses são só alguns exemplos das contradições que percebo em mim. E falo isso não como quem está conformada e acha que a vida é assim mesmo. Pelo contrário, assumo esses pensamentos e sentimentos racistas porque acredito que só assim vou avançar e conseguir ser uma pessoa melhor. Porque acredito que essa causa é de todos. Mas não é um processo fácil. Requer muita coragem.

Racismo tem a ver com arrogância, que é um subproduto do orgulho. E reconhecer a própria maldade é a coisa que o ser humano mais resiste em fazer na vida.

A tendência é sempre achar que ou que ela não existe (é mimimi) ou que ela está no outro. Seja o outro a socialite criminosa que chama criança negra de macaca ou a amiga desavisada que faz perguntas tipo “cadê o dia da consciência branca?”. É importante perceber que o fato de me reconhecer como privilegiada e apoiar as cotas e a luta dos negros não me isenta de ser racista. Do mesmo jeito que os homens (e nós mulheres) feministas não estão livres do machismo. São muitas camadas para serem despidas. Mas sei que o primeiro passo para me livrar dessa sombra é assumir que ela existe, compreendê-la pra conseguir transformá-la.

E outra. Já passou da hora de nós, brancos, assumirmos o racismo que existe dentro de cada um de nós. Pra que essa luta não seja unilateral e nem fique só no nível do discurso. Sinto que é o melhor que podemos fazer pelos negros nesse momento. E já sinto grandes mudanças dentro de mim.

Fotos: Divulgação

 



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