Rudá Ricci: “Avaliando a conveniência da candidatura de Boulos”

Não estamos falando de um novo Salvador ou uma mudança radical da realidade. Ocorre que o ciclo de Lula está terminando. E nem mesmo o PT discute esta realidade com franqueza e abertura.

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Não estamos falando de um novo Salvador ou uma mudança radical da realidade. Ocorre que o ciclo de Lula está terminando. E nem mesmo o PT discute esta realidade com franqueza e abertura.

Por Rudá Ricci*

O simples anúncio da candidatura de Guilherme Boulos para a Presidência da República pelo PSOL gerou uma celeuma considerável nas redes sociais. Entre os apoiadores de Ciro Gomes, o desconforto foi evidente, revelando que aguardavam o desfecho do destino da candidatura de Lula para conseguir avançar sobre o eleitorado à esquerda e fazer sua campanha decolar. Com Boulos, esta perspectiva fica mais incerta.

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Não houve reação do PCdoB, mais maduro e nitidamente vinculado ao PT, embora tenha lançado a candidatura de Manuela D´Ávila, o que se revela um movimento correto, dado que pode se prejudicar com uma possível falta de visibilidade na medida em que disputa nichos eleitorais muito próximos dos que petistas disputarão, ainda mais neste momento em que petistas não têm ao seu dispor uma enorme cesta de cargos comissionados federais. Muitos serão obrigados a sair a campo para manter sua profissionalização na política, disputando a tapa o eleitor à esquerda.

Mas foi no campo petista, mais precisamente no neopetismo militante das redes sociais, que se acusou o golpe com maior nitidez. O discurso mais fácil foi o do voto útil, sugerindo que Boulos dividiria o eleitorado de esquerda. Se seguiram outros argumentos e táticas, como o de utilizar a entrevista de Marcelo Freixo à Folha para gerar mal-estar no interior do PSOL ou sugerir infantilismo e ressentimento do líder carioca. Em seguida, alguns artigos mais consistentes vindos do campo acadêmico, mas excessivamente paternalistas, lembrando o que partidos de esquerda faziam com o PT quando de seu surgimento, ao longo dos anos 1980.

Vou expor o que acredito ser o eixo da pertinência da candidatura de Boulos. Começo com a situação central da candidatura de Lula.

Lula é candidato pela esquerda. Consolidado. Sua vitória seria certa, se não tivesse o fantasma do seu impedimento jurídico logo adiante. A estratégia lulista, neste caso, é a de postergar ao máximo sua saída da cena eleitoral, caso seja realmente impedido, para gerar comoção pública e transferir votos para um indicado para continuar sua candidatura. O calendário de Lula, nesta possibilidade, seria: convenção partidária (entre 20 de julho e 5 de agosto), registro da chapa (até o dia 15 de agosto) e, em especial, data limite para substituição dos candidatos do partido (20 dias antes do pleito, ou seja, 17 de setembro).

A possibilidade do impedimento da candidatura de Lula muda totalmente o cenário e a estratégia político-eleitoral. Porque esta será a última campanha eleitoral de Lula. Ele já se dizia cansado e só entrou na briga para defender seu legado, atacado de maneira cruel e orquestrada nos últimos dois anos, em especial. Neste sentido, as eleições deste ano envolvem uma mudança de pele fundamental para as esquerdas brasileiras. Se aguardarem a definição de um nome por Lula, as esquerdas, além de se subordinarem à sua decisão, podem embarcar numa aventura, caso Lula indique um novo “poste”. É sempre bom recordar que Lula não acalenta grandes paixões e interesses por quem pode lhe fazer sombra. Todos os grandes nomes petistas foram alijados de sua sucessão desde seu primeiro mandato, em 2003. Há outro obstáculo para as esquerdas não petistas, relacionado a este, que é o programa lulista. A divergência em relação ao programa social-liberal e à política de conciliação de interesses é forte. Algo muito similar às críticas que o PT fazia, na origem, à política de ampla aliança que o PCB sustentava. Enfim, como Lula se recusa a abrir um debate franco com as esquerdas sobre seu programa de governo, não há como passar um cheque em branco em virtude de sua liderança. Nunca, em lugar algum, as esquerdas se submeteram passivamente a uma liderança hegemônica. O exemplo do vizinho Uruguai atesta esta afirmação: anos e anos para construir uma unidade programática para, depois, definir candidatos.

A candidatura de Boulos e Manuela se inscrevem nesta corrida de obstáculos. Tanto em função do pleito em si, como da renovação das esquerdas (tendo em vista a última cartada eleitoral de Lula). Por fim, em virtude do “aggiornamento” necessário do programa de esquerda no Brasil.

A candidatura de Boulos possui um outro viés, interno, muito importante para o PSOL. Com sua candidatura, o PSOL muda de rumo. Abandona as idiossincrasias academicistas e de classe média e passa a ser mais popular. Aumenta o campo de sua audiência e seu escopo de leitura (e conteúdo programático) para amplos segmentos populares do país. Sem apelo e base popular, não existe esquerda, apenas tese de esquerda.
As correntes internas do PSOL que mais aparecem publicamente não são exatamente majoritárias no interior do partido. Já as forças internas que abraçam a candidatura de Boulos são as mais sólidas e com maior lastro interno. Não há dúvida que o perfil de Boulos é o mais próximo do de Erundina, hoje aliada da corrente liderada por Ivan Valente. É por esta trilha que alguns analistas sugerem que Boulos é a ponte mais palatável com a figura de Lula, porque acolhido por ex-lideranças de porte do PT e porque oriundo de movimento social de massa, base preferencial de Lula. Não por outro motivo, os dois – Lula e Boulos – conversam frequentemente e se respeitam mutuamente, a despeito das críticas públicas de Boulos ao programa lulista e à ampla aliança que o define. Boulos traz para o PSOL uma lufada de rua e periferia. Não significa que transformará o PSOL num partido de massas, mas abre caminho para isto. Evidente que esta possibilidade depende, para se consolidar, da plataforma e da linguagem que a candidatura adotará. Contudo, trata-se de uma liderança popular diferenciada, com formação sólida e inserção em movimento social urbano de base. Além disso, sendo paulista, pode iniciar um processo de disputa com a mentalidade ultraliberal que tomou conta de São Paulo e com maior vigor que o PT, fortemente marcado neste Estado, pode emplacar.

Assim, não percebo uma candidatura divisionista. Nem de longe. Percebo uma necessária tentativa de renovação das esquerdas brasileiras. Toda tentativa é um risco. E há diferenças nítidas entre o risco desta candidatura e a aventura que neopetistas tentam disseminar nas redes sociais. Não se trata de aventura. E o momento é este. Se Lula e o PT tivessem preparado esta sucessão de maneira mais pública e generosa, criando caravanas não para apenas reforçar o nome de sua liderança maior, mas a discussão de um programa para o país, talvez este processo fosse menos traumático, mais suave. Mas não foi o que ocorreu. Mas, afinal, como dizia o mineiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, “não se faz política sem vítimas”. Não estamos falando de um novo Salvador ou uma mudança radical da realidade. Ocorre que o ciclo de Lula está terminando. E nem mesmo o PT discute esta realidade com franqueza e abertura.

Rudá Ricci é sociólogo e cientista político

Foto: Reprodução/Redes sociais



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