Jornalista da BBC pede demissão ao descobrir que ganhava menos do que homens com o mesmo cargo

“Eu não estou pedindo mais dinheiro. Eu sou muito bem paga, especialmente para alguém trabalhando numa organização pública. Eu apenas quero que a BBC respeite às leis e valorize homens e mulheres igualmente”, escreveu a jornalista

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“Eu não estou pedindo mais dinheiro. Eu sou muito bem paga, especialmente para alguém trabalhando numa organização pública. Eu apenas quero que a BBC respeite às leis e valorize homens e mulheres igualmente”, escreveu a jornalista

Da Redação*

A jornalista Carrie Gracie, que atuava como editora da emissora BBC na China, pediu demissão após descobrir a “secreta e ilegal cultura de pagamentos” da emissora. Em carta aberta, a profissional com mais de 30 anos na estatal britânica revelou que existem apenas outras três pessoas ocupando cargos de editores internacionais, sendo mais uma mulher e dois homens. E o salário dos homens é 50% superior ao das mulheres.

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“Eu não estou pedindo mais dinheiro. Eu sou muito bem paga, especialmente para alguém trabalhando numa organização pública. Eu apenas quero que a BBC respeite às leis e valorize homens e mulheres igualmente”, escreveu a jornalista. “É doloroso deixar meu posto na China e dizer adeus ao time da BBC em Pequim, formado em maior parte por mulheres jovens e brilhantes. Eu não quero que a geração delas tenha que lutar esta batalha no futuro porque a minha geração não conseguiu vencer”.

Segundo Carrie, a BBC não está respeitando “seus valores de confiança, honestidade e transparência” em relação a igualdade de pagamento entre os gêneros. Há seis meses, a emissora foi forçada a revelar dados de pagamentos que mostraram salários astronômicos para algumas estrelas, mas também a diferença nos pagamentos para homens e mulheres que exercem a mesma função.

“Essas revelações afetaram a confiança dos funcionários da BBC”, comentou a jornalista. “Pela primeira vez, as mulheres viram fortes evidências do que há tempos suspeitavam, de que elas não estavam sendo valorizadas da mesma forma que os homens”.

Na carta, Carrie conta ter assumido o cargo de editora internacional na China há quatro anos, após convite da direção da emissora. “Eu sabia que o emprego demandaria sacrifícios. Eu teria que trabalhar a 5 mil milhas de distância dos meus filhos adolescentes, e num estado de partido único altamente censurado eu enfrentaria vigilância, assédio da polícia e intimidação oficial”.

“Eu aceitei os desafios deixando claro aos meus chefes que eu deveria ter a mesma remuneração que meus colegas homens. Como muitas outras mulheres da BBC, eu suspeitava que eu rotineiramente recebia menos, e nesse ponto da carreira, eu estava determinada a não deixar isso acontecer novamente”, contou Carrie. “Acreditando ter assegurado minha paridade salarial, viajei para Pequim”.

Após a revelação da estrutura salarial da emissora, Carrie descobriu que os salários de outros dois homens que ocupam postos de editores internacionais eram ao menos 50% maiores que o dela. Ela reclamou com seus chefes e até recebeu uma proposta de aumento salarial, mas que ainda assim não igualava o seu salário ao dos outros profissionais que exerciam a mesma função na emissora.

“Eu disse a meus chefes que a única resolução aceitável seria que todos os editores internacionais recebessem o mesmo salário. O valor seria decidido por eles, e eu deixei claro que não queria um aumento, apenas o salário igual”, contou. “Em vez disso, a BBC me ofereceu um grande aumento que ainda me deixava distante da paridade. Eles disseram que existiam diferenças nas funções que justificavam a distância salarial, mas se recusaram a explicar quais eram essas diferenças”.

Sem a paridade, Carrie decidiu renunciar ao cargo e retornar ao seu posto como repórter na Inglaterra.

Em matéria publicada sobre o caso, sem assinatura do autor do texto, a BBC revelou o salário que Carrie recebia como editora internacional na China e afirmou que ela teria recusado uma proposta de aumento de 45 mil libras, cerca de R$ 200 mil, anuais.

Em comunicado, a emissora afirma que a paridade de pagamentos é “vital” e a organização trabalha para melhorar a transparência. A BBC defende ainda que um relatório publicado em outubro revelou que a desigualdade salarial entre homens e mulheres era de 9,3%, contra média nacional de 18,1%, e que um levantamento está sendo realizado nos salários de apresentadores, editores e correspondentes.

*Com informações do Globo

Foto: Twitter

 



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