Patrícia Lélis: “Quer ser um milionário? Seja deputado”

Achamos louvável deputados, que possuem casa própria em Brasília, continuar recebendo auxílio moradia e nada fazemos a respeito.

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Achamos louvável deputados, que possuem casa própria em Brasília, continuar recebendo auxílio moradia e nada fazemos a respeito.

Por Patrícia Lélis*

Ser deputado federal virou um verdadeiro negócio. E de alto lucro, segundo a revista The Economist. De acordo com a publicação, os deputados federais brasileiros estão entre os parlamentares mais bem pagos do planeta e, além disso, também somos os que mais pagamos bem na América Latina, seguido por Chile, Colômbia e México.

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O salário de um deputado chega ao valor exorbitante de R$ 33.763,00, fora os auxílios mensais, que incluem os seguintes benefícios: ajuda de custo de R$ 1.406,79, mais o cotão médio de R$ 39.884,31, auxílio-moradia de 4.253,00 e verba para o gabinete, com até 25 funcionários, no valor de R$ 101.971,94. Devemos lembrar que os deputados também possuem plano de saúde e motoristas ao seu dispor. Levando em consideração que temos 513 deputados ganhando esses valores, logo podemos chegar a uma conclusão que esses deputados chegam a custar mais de um bilhão por ano aos cofres públicos. E o problema do Brasil é realmente apenas a Previdência?

Ficou assustado com os valores? Custo a acreditar que sim, afinal nunca vi ninguém indo para a Avenida Paulista protestar sobre isso, e também nunca vi ninguém batendo panela. Realmente, somos um país de hipócritas, que endeusamos políticos e menosprezamos professores. Achamos louvável deputados, que possuem casa própria em Brasília, continuar recebendo auxílio moradia e nada fazemos a respeito.

Ser político é, antes de qualquer coisa, uma escolha e quando um indivíduo escolhe entrar para a política deveria ser por outros interesses e não apenas pelo salário, que, infelizmente, acaba sendo a motivação de muitos. Isso se explica porque é fácil enriquecer de forma inexplicável em um mandato e não ser questionado sobre isso. Sinceramente, qualquer profissão deveria ganhar mais do que um deputado. Recentemente, escutei uma pessoa afirmando que os professores realmente deveriam ter seus salários atrasados, pois vivem em greve e deveriam ser punidos por isso.

Segundo dados: Os professores, com licenciatura, que trabalham 40 horas por semana ganham salário-base de R$ 1.917,78, o mesmo valor do piso nacional, obrigatório por lei para os professores com formação mínima de nível médio. Integrantes da Polícia Civil ganham, em média, o valor de R$ 4.371,00; um enfermeiro ganha entre R$ 1.442,00 e R$ 4.440,00, com média salarial nacional de R$ 2.747,97. E nenhuma dessas profissões recebem auxílios que possam ser comparados aos dos deputados. Não é tão difícil assim enxergar que temos um grande problema com os valores dos salários dos parlamentares.

A que ponto chegamos da imbecilidade humana? Ao ponto de endeusar políticos e menosprezar professores, médicos e outras profissões? O que o político tem de tão importante? A meu ver, o político não deveria fazer nada além de sua obrigação, que é ouvir a população e apresentar melhorias, e isso, infelizmente, tem sido feito de menos. Gostaria muito de ver um deputado propor a redução de 50% do seu salário e a extinção de vários auxílios desnecessários, e tal proposta ter aprovação da maioria na Câmara e no Senado. Contudo, acredito que, infelizmente, não vou viver para ver isso, mas garanto que enquanto eu puder questionar os altos valores farei isso com muito prazer e sem medo daqueles que arrotam moralidade, mas vivem de auxílios que não deveriam estar recebendo.

*Patrícia Lélis é jornalista

Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados



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