A república orgulhosa de Anitta, por Julinho Bittencourt

Em resposta a Marco Antonio Villa, Julinho Bittencourt escreve: “Anitta não desqualifica a mulher. Ela dá poder. Sua sexualidade é afirmação e não submissão. Há uma diferença sutil aí, que só pode e deve ser entendida vista no contexto. No mundo que há à...

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Em resposta a Marco Antonio Villa, Julinho Bittencourt escreve: “Anitta não desqualifica a mulher. Ela dá poder. Sua sexualidade é afirmação e não submissão. Há uma diferença sutil aí, que só pode e deve ser entendida vista no contexto. No mundo que há à sua volta”

Por Julinho Bittencourt

O historiador Marco Antonio Villa circulou na última terça-feira (9), no Globo e também na Rádio Jovem Pan, um editorial onde tece comentários sobre a cantora Anitta. Com o título de “Anitta e a República dos Rastaqueras”, Villa abre seu texto afirmando que a “decadência cultural do país é inquestionável”. Antes de entrar no mérito da cantora, que também merece discussão e respeito, a frase por si só já é discutível.

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Não há decadência cultural alguma no Brasil. Muito ao contrário. Nunca tivemos tantos expoentes explodindo mundo afora quanto agora. Sebastião Salgado é considerado um dos maiores fotógrafos do mundo; os filmes do cineasta Walter Salles são exibidos nos quatro cantos do planeta; “Vazante”, filme de Daniela Thomas sobre a escravidão, acaba de estrear em Nova Iorque em várias salas com ótima acolhida da crítica.

Vários músicos brasileiros, como Egberto Gismonti, por exemplo, não param de fazer turnês internacionais. Dentro do Brasil, a despeito da crise econômica, inúmeras produções têm prosperado em todas as áreas, desde a cultura popular até concertos de música erudita, temporadas de óperas até exposições em museus que, muitas vezes, são atacadas pela mesma sanha moralista defendida pelo historiador.

Em seu discurso, Villa confunde cultura com entretenimento, cultura popular com erudita, museus e concertos com festas, mercado da música popular com o das artes, sucesso com conhecimento e herança cultural.

Temos sim, todos esses elementos, e eles convivem pacificamente, na medida do possível.

Ele usa, ironicamente, o termo “reacionarismo”, para atacar na mesma frase dois paradigmas que têm sido discutidos atentamente e que o historiador, ao que tudo indica, passa ao largo.

O primeiro e mais óbvio deles é o da “desqualificação da mulher”, a qual Anitta, com a sensualização de sua música e seus clipes estaria nos submetendo. Ao bradar feito um padre jesuíta diante da nudez dos índios, o historiador ignora séculos de formação cultural, miscigenação e afirmação do corpo e da própria sexualidade. Anitta não desqualifica. Ela dá poder. Sua sexualidade é afirmação e não submissão. Há uma diferença sutil aí, que só pode e deve ser entendida vista no contexto. No mundo que há à sua volta.

O outro ponto, e este discutido, rediscutido e reafirmado pelos maiores e melhores arquitetos do mundo e que Villa tenta desmantelar em meia frase, vem quando cita a “idealização da favela”. Para ele um local que deve ser desmontado, pois se trata de aceitar a “precarização da moradia e das condições de vida de milhões de brasileiros”.

Anitta, ao contrário, está em consonância com o pensamento urbanístico moderno.

A favela deve ser transformada e nunca abandonada ou desmontada, conceito colocado pela arquiteta, urbanista e professora da FAU-USP Raquel Rolnik: “A urbanização das favelas é a melhor alternativa para enfrentar o passivo socioambiental das cidades, pois preserva redes comunitárias e acesso a empregos e outros equipamentos públicos”.

A partir da postura de pertencimento da Anitta e tantos outros artistas do samba, do hip hop e do rap, do funk, enfim, de todas as manifestações das comunidades é que se começam também a estabelecer novos paradigmas de moradia e dignidade.

Villa sugere ainda que, para o próximo ano, ao invés de Anitta, a cantora Pabllo Vittar cante o Hino Nacional no Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 para, segundo ele “esculhambar de vez”. Sem querer, com o seu espasmo homofóbico, o historiador deu uma grande ideia. O fato serviria para mostrar a todos que somos um país diverso, contemporâneo, sintonizado com as grandes questões do planeta.

Deixo para o fim a correção que ele faz, afirmando que não se trata de “comunidade”, mas sim “favela” o termo correto, de acordo com ele. Esta sobrou na sua fala no rádio, onde os intertextos são mais fartos. São as duas coisas e também muitas outras. Favela, a partir do discurso de Anitta e tantos outros, conforme dito acima, que ganha outra conotação que não a pejorativa a que Villa tenta nos induzir. E “comunidade”, pois é comum a todos, um universo distante ao historiador. Comunidade tanto a partir das dificuldades quanto, sobretudo, das vitórias.

E Anitta, sem sombra de dúvidas, é uma delas.

Foto: Reprodução

 

 

 



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