Especial: Periferias de São Paulo vivem nova onda de terror com guerra entre facções

Inúmeros relatos dão conta de que esposas e outros familiares de integrantes do PCC estariam sendo mortos e torturados por membros de facções inimigas; toques de recolher vêm assustando e já são uma realidade...

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Inúmeros relatos dão conta de que esposas e outros familiares de integrantes do PCC estariam sendo mortos e torturados por membros de facções inimigas; toques de recolher vêm assustando e já são uma realidade em diversas regiões da capital e Região Metropolitana

Por Ivan Longo

A imprensa tradicional não vem dando destaque, mas o fato é que o ano começou em guerra nas periferias de São Paulo e Região Metropolitana. Nas últimas semanas, circulam pelas redes sociais e aplicativos de mensagens como Whatsapp relatos de mortes, torturas e intimidações em regiões como o Brás, Pari, Canindé, Vila Maria, Pirituba, Campo Limpo Paulista, Diadema, além de outras cidades próximas como Guarulhos, Osasco e Suzano. Também há os mesmos relatos em cidades como São José dos Campos e também da  Baixada Santista.

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“Não fica panguando. Esses cara aí é lixaiada, não respeita ninguém, nem criança”, diz um dos áudios que circulam pelo Whatsapp. O áudio é associado a um integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC), que estaria orientando outros membros da facção e moradores de comunidades a não saírem nas ruas. O mesmo recado foi endossado em inúmeras outras mensagens e gravações, outras ainda mais explícitas, anunciando o chamado “salve geral” (ordem para matar) e determinando toques de recolher. “Vai pras casas, fecha os mercados, tudo, que o bagulho tá loco. É guerra”, diz outro áudio.

Contestação da hegemonia do PCC

As mortes e toques de recolher nas periferias, de acordo com os relatos, estão ligados à intensificação do conflito entre o PCC e facções rivais, como a Família do Norte (FDN), o Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade (CRBC) e Comando Vermelho (CV). Desde o massacre, em janeiro do ano passado, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, em que mais de 60 detentos foram assassinados, a guerra entre essas facções só cresce. Nas últimas semanas, esse conflito atingiu níveis ainda mais altos e vem vitimando, ou ao menos ameaçando, não só os integrantes das facções, mas suas esposas e outras pessoas das comunidades que não têm envolvimento com o crime.

O youtuber Cidadão X, que fala sobre a questão das facções e sobre segurança pública, postou nesta quarta-feira (10) um vídeo em que também relata essa intensificação do conflito entre facções e como isso vem vitimando pessoas inocentes nas periferias de São Paulo. Nos comentários, supostos moradores de regiões periféricas confirmaram as mortes, intimidações, torturas e também os toques de recolher.

“A minha quebrada esta sendo atacada pelos FDN. Aki (sic) os boqueiro (sic) tão (sic) morrendo”, comentou um internauta. “Taboão da Serra tá tendo toque de recolher mesmo, verídico!”, postou outro.

Além dos áudios alertando os moradores, fotos de mulheres mortas e decapitadas também circulam pelas redes. Essas seriam as “cunhadas”, apelido dado às esposas de integrantes do PCC, que se chamam de “irmãos”.

De acordo com o historiador Vagner Marques, autor do livro “Fé & Crime: Evangélicos e PCC nas periferias de SP”, a intensificação do conflito entre PCC e FDN, apoiada pelo CRBC e Comando Vermelho, se deve ao fato de que o PCC, nos últimos anos, tem expandido sua atuação para o mercado internacional de armas e drogas, o que também explica as chacinas nos presídios do norte do país – principal região onde ocorre esse tipo de comércio – no ano passado.

“A gente vê um cenário de pânico nas periferias. De fato, há um processo de contestação da hegemonia do PCC”, afirmou Vagner.

Controle das periferias

De acordo com o historiador, com a expansão da atuação do PCC no mercado internacional de tráfico de drogas e armas em regiões do Norte do país, muitos integrantes da facção deixaram de estar tão presentes em suas comunidades de origem, e abriu-se um “vácuo” nas periferias e comunidades de São Paulo, capital e estado, considerada a “matriz” da facção.

FDN e Comando Vermelho, então, estariam aproveitando para tentar tomar o controle da venda de drogas em regiões antes marcadas pelo PCC. Como os integrantes do PCC teriam se organizado para resistir a esse avanço das facções inimigas, elas teriam resolvido, então, partir para outra frente de ataque, vitimando não só os próprios integrantes da facção, como também pessoas próximas a eles. Daí as mortes de mulheres, as chamadas “cunhadas”.

Relatos que circulam nas redes sociais dão conta de que as facções inimigas ao PCC estariam vitimando as chamadas “cunhadas”.

“A principal hipótese é: essa hegemonia que o PCC alcançou, fruto de uma verdadeira guerra na década de 90, que pacificou as quebradas nos anos 2000, está em expansão, especialmente no mercado internacional. Com essa expansão , ficou um buraco na periferia, e quem está tomando conta das periferias pelo PCC é uma meninada que está muito distante dessa moralidade do PCC da década de 90. Uma meninada que não foi para a guerra, que não tem uma memória da guerra, com uma memória muito recente. E reagindo a esse buraco tem essa frente única entre FDN, CRBC e Comando Vermelho tentando se contrapor”, explicou o historiador, que faz parte do Grupo de Estudos sobre Protestantismo e Pentecostalismo (GEPP/PUC-SP) e da Rede Latino-Americana de Estudos Pentecostais.

Ainda não é possível precisar, até pela falta de cobertura do caso, o número de mortes recentes nas periferias diante do acirramento dos conflitos entre as facções. Fórum solicitou à secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) um posicionamento quanto aos relatos de mortes e toques de recolher, e recebeu a seguinte nota:

A SSP informa que o trabalho contra o crime organizado é realizado diuturnamente, com emprego de inteligência, tecnologia e cooperação entre as polícias Civil e Militar. Graças a esse trabalho que diversas operações foram deflagradas, como a Ethos, por exemplo, realizada no final de 2016, que resultou na prisão de 53 advogados ligados a facções criminosas. O trabalho policial possibilitou que de janeiro a novembro de 2017 fossem apreendidas mais de 190 toneladas de drogas, 17% a mais que no mesmo período de 2016, e que fossem retiradas das ruas mais de 14 mil armas de fogo.

As ações realizadas pelo Governo do Estado possibilitaram que as polícias combatessem a criminalidade de forma eficiente. Isso pode ser constatado nas taxas de homicídios apresentadas desde o início da série histórica, em 2001, que foi de 33,3 homicídios a cada 100 mil habitantes. Hoje a taxa está em 7,56/100 mil. É importante dizer que o Estado tem os melhores indicadores de criminalidade do Brasil, de acordo com o 11º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no final de outubro de 2017. O estudo aponta que a taxa de pessoas mortas em São Paulo é 3,2 vezes menor que a média nacional.



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