Cinegnose

por Wilson Ferreira

06 de dezembro de 2017, 22h29

Para a Globo, vingança é um prato que se come… quente!

Diz o ditado, imortalizado no livro “O Chefão”, de Mário Puzzo, na fala de Dom Corleone: “A vingança é um prato que se come frio”. Mas para a Globo não é bem assim: deve-se servir bem quente. Ataque e contra-ataque, retaliatório e vingativo. O candidato à presidência Jair Bolsonaro (criatura que emergiu da lama psíquica que a Globo remexeu para engrossar o caldo do impeachment) acusou a emissora de “emplacar o Lula” e ameaçou, “quando chegar lá”, reduzir pela metade a verba publicitária da emissora. Foi o bastante para de imediato o jornal “O Globo” denunciar, em letras garrafais, o nepotismo do deputado no Congresso. Mais um episódio que comprova como o jornalismo global nunca esteve no campo da informação – se isolou num fechado sistema tautista de autopreservação. Quando vê ameaçado seus interesses logísticos e econômicos (da política ao futebol), escala seus apresentadores e colunistas para colocar suas “grifes” como ventríloquos dos “furos” que rapidamente descem da cúpula para o piso da redação. Chamam isso de “jornalismo investigativo”.

Quando esse humilde blogueiro era repórter “foca” no jornal A Tribuna de Santos, lá pelos longínquos anos 1980, o domingo era um dia particularmente chato. Trabalhava na editoria de Economia e domingo era o dia de folga do editor – o meu dia de folga era “de garçom”, segunda-feira. 

Fechava a página sozinho (o editor botava fé em mim…), num dia em que as notícias da área eram escassas. O que tornava muitas vezes difícil fechar a página, fazendo remexer as gavetas da minha mesa na Redação atrás de press-releases e matérias frias. 

Quando dava 22 horas, lá ia eu em direção da mesa do diagramador com as laudas das matérias fechadas (ainda eram tempos de máquina de escrever), fazendo pensamento positivo de que conseguiria voltar para casa mais cedo. Se faltava algum buraco na página, o diagramador enfiava o popular “calhau” – um anúncio do próprio jornal, em geral publicidade dos cadernos de “Classificados”.

Enquanto o diagramador calculava os centímetros por coluna das matérias com sua régua de “paicas” (unidade de medida tipográfica), sobrava um tempo para jogar conversa fora com ele. Como o País vivia uma atmosfera política tensa (morte de Tancredo, governo Sarney, hiperinflação e a crônica crise econômica), corriam as “lendas urbanas” no interior da Redação. O diagramador, que sentava numa mesa próxima ao “Aquário” (espaço das chefias da Redação), falava de gavetas com obituários já prontos de personalidades políticas e dossiês com fatos comprometedores de atuais, possíveis e futuros desafetos políticos da família proprietária do jornal.

 

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Dado o sinal, era só enviar os repórteres para recolher as informações certas, nos lugares das pessoas corretas e, pronto! Tinha-se em mãos uma arma para intimidar qualquer autoridade boquirrota que ameaçasse os interesses do jornal.

Em meio à minha visão de mundo de foca, achava tudo isso muito “conspiratório”: ora, isso pertence ao mundo baixo da política. Jamais o Jornalismo se prestaria a um papel tão reles, inerente aos mafiosos. Apenas com uma diferença: para os jornais, a vingança não seria um prato frio – deveria ser saboreado bem quente!

Os anos confirmaram que ele tinha razão…

Mas os anos, e principalmente esses últimos de jornalismo de guerra no esgoto do inconsciente coletivo nacional, provaram que aquele diagramador que era a minha esperança de poder chegar em casa à tempo de ver os gols da rodada, tinha razão.

E, como não poderia deixar de ser, a Globo é aquele veículo midiático que mais explicitamente demonstra esse gosto pelos pratos quentes. Fora de qualquer controle ou regulamentação (mesmo existindo alguma, nenhum governo até aqui demonstrou vontade política em aplicá-la), não pensa duas vezes em, diante da opinião pública, colocar Maquiavel na prática: se um líder quiser a paz, deve ser temido tanto pelos amigos como inimigos. É bem mais seguro ser temido do que amado. 

E a vingança à jato é a principal arma para manter todos personagens do cenário político (não importa a posição no espectro, da direita à esquerda) na linha, dentro da narrativa que a Globo quer impor de acordo com sua logística.

 

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Máquina de autopreservação

Em uma série de postagens anteriores, este Cinegnose vem tematizando o chamado “tautismo” da Globo: como o sistema de comunicação global se tornou tão gigantesco e complexo que a realidade exterior passou a ser representada pela auto-referência, tautologia e metalinguagem, criando um “fechamento operacional” – o exterior é traduzido a partir da descrição que o sistema faz de si mesmo: seus interesses logísticos, mercadológicos, políticos e econômicos – clique aqui.

Por isso, há muito a Globo deixou de ser um veículo de mídia para se converter em uma máquina cujo princípio é a autopreservação, nem que seja ao custo de levar o País inteiro para o ralo. Principalmente porque com audiência e anunciantes em declínio, a engenharia financeira legal e ilegal em paraísos ficais é a sua forma terminal de sobrevivência.

O episódio do bate-boca entre o candidato à presidência Jair Bolsonaro e a Globo é um exemplo didático desse modus operandi neo-mafioso. Diante de recente notícia do jornal O Globo de que um promotor preso pela PF era seu aliado no Amapá, o deputado reagiu ao “trabalho sujo” do jornal carioca em querer “emplacar o Lula” por causa da “dívida com o BNDES” e ameaçou: se “chegar lá” vai reduzir a verba publicitária governamental destinada à emissora pela metade.

O candidato postou o vídeo da ameaça no seu perfil do Facebook. E não precisou mais do que 48 horas para o jornal O Globo reagir e manchetar em letras garrafais: “Bolsonaro empregou ex-mulher, ex-cunhada e ex-sogro no Legislativo”. Uma matéria fraca em cima de um segredo de Polichinelo.

 

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Talvez seja até divertido assistir a essa contenda entre a Globo e sua cria indesejada, depois de tanto remexer na lama do psiquismo nacional para engrossar o caldo do impeachment de 2016. “Aqui se faz e aqui se paga”, provérbio que vem logo à mente. 

Mas é apenas um pequeno exemplo de como o seu jornalismo desde o início deixou o campo da informação para se isolar nos interesses tautistas de autopreservação – não é mais noticioso, mas reativo. Escala seus repórteres e colunistas para requentar aqueles dossiês guardados em estratégicas gavetas – ou pastas virtuais de computadores.

Doria Jr. e a vingança da Globo contra caçambeiros

Outro exemplo desse tautismo neo-mafioso foi em abril desse ano. Naqueles tempos, o prefeito de São Paulo João Doria Jr. ainda era a “esperança branca” da mídia corporativa – ainda surfando na histeria anti-PT, era o “gestor” não-político favorito.

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