Cinegnose

por Wilson Ferreira

26 de dezembro de 2017, 16h41

Os sinais silenciosos que antecedem um golpe em “The Handmaid’s Tale”

Para a revista “New Yorker”, publicação dos leitores bem pensantes liberais dos EUA, a série “Handmaid’s Tale” (2017-) é um “distópico conto feminista” da atual era Trump. Mas enquadrar a produção da plataforma de streaming Hulu nesse clichê é confirmar aquilo que a própria série alerta: ao qualificar os sinais do conservadorismo apenas como excrescências religiosas de gente ignorante é mau informada, reduzimos tudo a uma estranha normalidade, sem percebemos os sinais silenciosos cotidianos que antecedem os golpes políticos. Em “The Handmaid’s Tale” a América foi dominada por um estado teocrático fundamentalista cristão. Um desastre ambiental tornou a maioria das mulheres estéreis. As poucas mulheres férteis foram subjugadas e transformadas em “servas”, reduzidas a aparelhos reprodutores de uma elite dominante masculina. O Congresso, a Casa Branca e o Supremo Tribunal foram massacrados e a Constituição foi substituída pela leitura radical dos versículos da Bíblia.    

Era apenas mais um dia de compras em uma loja da rede Hirota Food Supermercados em São Paulo. Seria mais um dia normal, não tivesse recebido, após as compras, uma cartilha de cunho religioso escrita por um pastor e com a identidade corporativa da rede de supermercados. Uma cartilha que discorria sobre a Família como “formadora de virtudes” e descrevia os “pilares do casamento”. Um deles, a submissão da esposa ao marido.

Vanessa ficou horrorizada ao ouvir de sua noiva, que lia em voz alta trechos da cartilha, coisas como “casamento é heterossexual. A relação conjugal homem e homem e mulher e mulher é antinatural, é um erro, uma paixão infame, uma distorção da criação”.

Vanessa postou críticas à cartilha no Facebook como um “desrespeito às milhares de famílias que existem”. O episódio mereceu notificação do Ministério Público à rede Hirota, considerando a cartilha que condena gays, o aborto e o sexo antes do casamento como “discriminatória” – leia aqui a notícia.

Para as mentes bem pensante liberais, cosmopolitas, intelectualizadas e laicas, tudo é muito bizarro. Uma excrescência do fundamentalismo religioso em pleno século XXI. Tudo não passa de um produto da ignorância de gente que parece viver fora da História.

 

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E as cabeças bem pensantes postam nas redes sociais comentários entre a indignação, ironia e chacota diante de algo tão extemporâneo e bizarro em uma moderna metrópole. E voltam a suas vidas normais, sem se dar conta que eventos como esse podem ser sinais de uma nova ordem que apenas está à espera da sua tradução política para conquistar o poder e “revolucionar” a sociedade.

Estamos presos em bolhas virtuais?

E se, presos em nossas bolhas virtuais nas quais confundimos a realidade com postagens em redes sociais, não estivermos dando conta da gestação silenciosa de uma nova ordem? – cartilhas como a dessa rede de supermercados criarão uma estranha normalidade até o momento em que, um belo dia, acordaremos e daremos de cara com uma nova ordem política na qual a Constituição foi substituída por versículos da Bíblia Sagrada.  

Essa é a preocupante premissa da série The Handmaid’s Tale (2017-), criada por Bruce Miler em 10 episódios para o canal de streaming Hulu, adaptado do romance “O Conto de Aia”, escrito pela canadense Margaret Atwood, em 1985. Já com a segunda temporada confirmada para 2018 com 13 episódios.

Muitos críticos querem definir a série como “feminista”, já que o livro original foi inspirado no período conservador na era Reagan dos anos 1980 no qual o Feminismo era declarado como acabado diante da chegada massiva das mulheres no mercado de trabalho – mas ao mesmo tempo havia a discussão anti-aborto liderada por figuras do New Christian Right como Phylis Schafly e o televangelista Tammy Faye Bakker. 

Talvez, reduzir a série The Handmaid’s Tale ao viés do “feminismo” é uma racionalização liberal para acalmar as “mentes bem pensantes” e reduzir as ameaças conservadoras a suposta ignorância de alguns recalcitrantes que negam a História. A mesma racionalização que fez a América liberal ser derrotada na série, por obra de uma reação política fundamentalista cristã que massacrou os ocupantes da Casa Branca, do Congresso e do Supremo Tribunal. Reduzindo o país a um grotesco Estado teocrático policial que vigia e pune, seguindo a aplicação rígida dos mandamentos bíblicos.

 

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Por isso, a princípio a série é uma assustadora distopia no qual as mulheres foram reduzidas a sua função reprodutora, o sexo consensual deixou de existir, os EUA laico acabaram (agora é chamado de “República de Gileade” – na Bíblia,  região montanhosa a Leste do Rio Jordão que significa “monte de testemunho”) e a saudação ao invés de ser “Seig Heil!” é “Sob o olhar Dele!”.

Mas também The Handmaid’s Tale é preocupantemente “hipo-utópica” – o sombrio futuro figurado na série nada mais seria do que uma projeção hiperbólica de eventos que estão pipocando aqui e ali, agora, no presente. Assim como a cartilha religiosa-corporativa da Rede Hirota de Supermercados.

A Série

A narrativa dos dez episódios é estruturada em constantes flashbacks, para que o espectador consiga juntar os fragmentos de memórias da protagonista e descobr o que fez de repente a Constituição e os direitos civis serem suspensos através de um golpe de Estado cristão-fundamentalista.

A série acompanha Offred (Elizabeth Moss – para : “Of-Fred”, o nome do “Comandante” que é dono dela). Ela é uma das “servas” (ou “handmaid”) – trajadas com um hábitos vermelho-sangue e pequenos chapéus brancos. Enquanto as esposas dos Comandantes trajam vestido em verde musgo e se restringem às atividades domésticas – administrar o trabalho das serviçais chamadas “Marthas” que trajam roupas cinzas e se dedicam à cozinha e limpeza.

 Uma sociedade religiosa, fanática, militarizada e hierarquizada que foi uma reação fascista a algum tipo de catástrofe ambiental que resultou na infertilidade da maioria das mulheres do planeta. Sob o pretexto do combate ao terrorismo islâmico, um forte movimento político religioso fundamentalista dá um golpe de Estado, em uma guerra civil que parece perpetuar.

 

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Sob um novo regime de castas sociais, as mulheres foram subjugadas e, pela nova lei bíblica, não têm direitos civis – não podem trabalhar, ter propriedades, ter dinheiro ou simplesmente ler. Livros e revistas da velha ordem foram recolhidos por caminhões de lixo para serem incinerados.

O pequeno grupo de mulheres ainda férteis foi caçado e capturado pelas forças policiais para serem violentamente submetidas e doutrinadas para tornarem-se “servas” – numa interpretação extremista do conto bíblico de Jacó do livro do Gênesis: Raquel ao descobrir que era estéril, ofereceu ao marido Jacó sua criada para dar os filhos que não poderia gerar.

As servas são designadas para a casa de cada Comandante onde são submetidas a estupros ritualizados (a “Cerimônia”) pelos seus mestres masculinos, para gerar os filhos para as respectivas esposas. E que observam, passivas, os estupros ritualizados de cada “Cerimônia”.

June Osborne, agora chamada de Offred, é designada para a casa do Comandante Fred Waterford (Joseph Finnes) e de sua esposa Serena Joy Waterford (Ivonne Strahovski). Ela é sujeita às regras mais rigorosas e sob constante vigilância; uma palavra ou má ação pode levá-la a uma “execução”: conjunto de punições que variam de acordo com cada “pecado”: decepamento, apedrejamento, vazamento de um olho e assim por diante.

Nas ruas, vemos corpos de condenados a enforcamentos pendurados em paredões como tática de propaganda pelo terror: ali jazem membros da Resistência e também “traidoras do gênero”, lésbicas que ousaram em fazer sexo sem finalidade reprodutiva. Aliás, sexo fora dessa finalidade é condenado como “luxúria” pelo Estado de Gileade. 

 

Muito além do feminismo

Toda a primeira temporada é uma história de resistência psíquica e física de Offred, seus pensamentos interiores e tiradas de humor negro como forma de manter algum distanciamento da realidade cruel e não enlouquecer. 

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