Marcelo Hailer

16 de março de 2018, 14h48

9 tiros contra os corpos dissidentes

Em artigo, jornalista Marcelo Hailer escreve sobre a execução de Marielle: "Nove tiros para a calar a boca daqueles que lutam por Direitos Humanos, por socialismo, pelo fim do racismo, do machismo, pelo fim do ódio contra as LGBT... Nove tiros para avisar que 'aqui não, cara pálida!'"

Foto: Marcelo Hailer

Foi na quarta-feira, por volta das 21h30, em pleno centro do Rio de Janeiro que um carro emparedou e disparou nove tiros contra Marielle Franco. Tombaram o seu corpo e junto com ele tudo aquilo que representava: mulher, negra, feminista, mãe, lésbica, de esquerda, vereadora eleita pelo PSOL com mais de 46 mil votos em 2016. Mas, o sistema não permite que corpos dissidentes voem longe. É preciso parar. É preciso matar tod@s aqueles que ousem confrontar as normas e denunciar o Estado falido. Todos os dias Marielle Franco é assassinada no Brasil.

Se de um lado o sistema mata diariamente os corpos dissidentes, do outro lado, com os seus aparelhos culturais, já busca uma forma de – mais uma vez – colonizar as nossas vidas e narrativas. A imprensa escrita e televisa já corre para alardear “a violência mata mais um…”, “é preciso dar um basta” e assim por diante… Só faltou avisar que esta mesma imprensa tradicional não pensa duas vezes em chamar jovens negros de “traficantes” e “marginais”, de associar automaticamente o corpo viado ao status de anormalidade, de afirmar que “estas feministas foram longe demais”… Marielle era tudo isso: feminista que ia longe demais e escancarava o sistema apodrecido. Uma voz de tantos…

A resposta veio rápido. Multidões ocuparam as ruas por todo o Brasil. Eram marchas fúnebres, silenciosas e com muita raiva. Ainda estamos com raiva. Na avenida Paulista, ao encontrar os amigos o cumprimento saía entrecortado, “E aí, tudo…”. O silêncio e o abraço forte era o que restava, depois, a maldita pergunta: “O que estão fazendo com a gente?”. A verdade é que não aguentamos mais empilhar os corpos de mulheres negras, travestis, bichas, lésbicas… A verdade é que não sonhamos com democracia – aliás, vivemos em uma? -, sonhamos com o dia em que pararemos de incluir nomes em nossa lista de mortos, sonhamos com o dia em que o medo de fazer parte desta lista não fará mais parte do nosso dia a dia.

Nove tiros que tombaram Marielle Franco. Nove tiros para a calar a boca daqueles que lutam por Direitos Humanos, por socialismo, pelo fim do racismo, do machismo, pelo fim do ódio contra as LGBT… Nove tiros para avisar que “aqui não, cara pálida!”. O Brasil é feito de ódio. São tantos tiros que a gente perde a conta. Os tiros não acabam nunca, mas o texto vai finalizando e a gente lembrando de outros corpos que estes tiros derrubaram: Alexandre Ivo, Claudia Silva Ferreira, Laura Vermont, Edson Neris…

No Brasil, desde 1500 que se organizam genocídios contra os corpos negros, indígenas, travestis, bichas… Todos os dias estes corpos são assassinados, e os números e os tiros só crescem. Nos resta organizar o ódio e fazer dele a nossa principal ferramenta para destruir o Estado e o sistema genocida. Sem revolta não vamos a lugar nenhum e a nossa lista de morto – e o nosso temor de estar nela – não vão desaparecer nunca.