Raphael Silva Fagundes

11 de abril de 2019, 22h39

A burguesia perdeu o pudor de falar o que realmente pensa

“A classe dominante não precisa mais esconder o que pensa e a chegada de Bolsonaro ao poder contribuiu para isso. Se as redes sociais deram voz aos imbecis, Bolsonaro deu poder a eles”, diz Raphael Fagundes

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente da Câmara Rodrigo Maia disse, recentemente, que qualquer um pode trabalhar até os 80 anos. Moro comenta sobre os 80 tiros em um pai de família que “esses fatos podem acontecer”. A ministra da Agricultura faz piada e declara que “brasileiro não passa muita fome porque tem muita manga”. Isso não é liberdade de expressão, é falta de pudor, e mais, é covardia. Não podemos confundir liberdade de expressão com ódio ao pobre.

Entretanto, é fato que Maia não sabe o que é trabalhar de auxiliar de serviços gerais, Moro nunca foi a Guadalupe, região pobre do Rio de Janeiro e, pelo fato de ser branco, tem chances irrisórias de ser confundido com um membro da “população de risco”. E, por fim, a ministra da Agricultura não sabe o que é fome. Contudo, a burguesia não tem mais pudor de explanar o que pensa.

A classe dominante não precisa mais esconder o que pensa e a chegada de Bolsonaro ao poder contribuiu para isso. Se as redes sociais deram voz aos imbecis, Bolsonaro deu poder a eles. Tudo começou com uma questão moral. O presidente eleito falava do afrodescendente, do movimento LGBTQI, das mulheres etc. Após as eleições, a questão ficou mais intensa e se mostrou claramente classista.

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O pior de tudo é que o eleitor apaixonado por seu mito acaba concordando com tudo o que é dito. Ademais, esse é o momento mais adequado para a burguesia mostrar a sua verdadeira face, pois é o período de lua de mel. Testam-se os discursos, caso não deem certo é só se retratar. Contudo, algumas falas e ideias passam e as elites econômicas vão fazendo com que os dominados pensem como os dominadores.

Isso sempre existiu, mas havia um certo pudor. Todavia, acredito que para além dos hipnotizados, dos que não querem se convencer de que erraram ao escolher os políticos que começaram a orquestrar a política a partir deste ano, o povo, de um modo geral, irá se revoltar, pois ninguém aceita ser humilhado por tanto tempo. A euforia irá passar e o véu que esconde a face populista dos políticos atuais cairá.

A multidão de imbecis que as redes sociais deram voz foi fundamental para eleger essa corja. Talvez por isso esse discurso seco e ousado da burguesia encontrou terreno fértil. São tão óbvias as frases ditas por esses políticos que é incrível como muitos ainda concordem.

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Lembram um discurso de David Foster Wallace, na Kenyon College, proferido para os formandos: “Estes dois jovens peixes estão nadando por aí, e por acaso encontram um peixe mais velho nadando na direção contrária, que acena para eles e diz ‘Bom dia, meninos, como está a água?’ E os dois jovens peixes continuam nadando por um tempo, até que eventualmente um deles olha para o outro e fala: ‘O que diabos é água?’”.

Em seguida o próprio professor explica que “o objetivo da história dos peixes é que as mais óbvias e importantes realidades são muitas vezes as mais difíceis de serem vistas e discutidas”. Só isso explica a conformidade de parte da população perante a esse discurso burguês. É muito óbvio que o povo está sendo chamado de burro, de que o povo deve sofrer, que fica difícil refletir sobre a questão.

Contudo, há uma outra parcela da população, que precisa falar e se organizar, que não está satisfeita com tudo isso. A tentativa das elites de fundar uma nova “ordem do discurso”, na qual os trabalhadores e as minorias se fechem em suas posições de dominados, se convençam que o homem branco burguês e heterossexual é, de fato, quem tem o poder por direito (aliás, é por isso que o presidente quer que a rapaziada não se interesse por política), frustrar-se-á. Essa tentativa de despolitização das massas pode ser um tiro no pé do próprio Estado burguês.