08 de junho de 2018, 16h11

A canção brasileira que sai (e tira) do armário

Assumidas, lindas, bichérrimas, lésbicas, empoderadas e afinadérrimas. O mundo LGBT sempre encontrou na nossa música uma trincheira para derrubar preconceitos

Sílvio Santos, em mais uma das suas brincadeiras de mau gosto, chamou a cantora Pablo Vittar de “Bicha”, num de seus jogos televisivos. A resposta veio de bate pronto, bem no estilo dela: “Sou ‘bichérrima’. Não me ofende. A gente sabe quando soa de uma forma pejorativa. Eu fico triste quando acontece isso, mas meu amor, nada me afeta”, respondeu e ainda acrescentou: “eu acho que a gente tem que pegar esses nomes que para muitas pessoas são xingamentos e trazer para o nosso lado como um adjetivo. Eu encaro a palavra ‘bicha’ como uma palavra de empoderamento”, encerrou.

Pablo Vittar. Foto: Divulgação

O que temos neste episódio, acima do preconceito latente, é o embate entre dois tempos muito bem definidos. Um que ficou lá pra trás e outro que chega, com sede de virar tudo do avesso e debater seja lá com quem for. Nem sempre, no entanto, foi assim. E, mesmo que cause estranhamento esta afirmação, é bom que se lembre que, por mais desbundado um artista pudesse ser na década de 70, era muito improvável que se ouvisse de sua boca a afirmação “Sou ‘bichérrima’.

Tudo, apesar de parecer escancarado, era dito nas entrelinhas, sob o risco de reprimendas e até mesmo censuras. Ney Matogrosso, que talvez tenha sido o maior ícone gay da nossa música, nunca soltou uma frase dessas. Por mais incrível que a sua performance pudesse e possa ainda denotar, sempre foi discreto com relação à sua vida pessoal. E só muitos anos depois, já famoso e consagrado, que falou sobre o assunto em algumas entrevistas.

Caetano todo de rosa

Caetano Veloso. Foto: Thereza Eugênia / Divulgação

Ney não cansa de afirmar em entrevistas que um dos seus maiores inspiradores foi Caetano Veloso, conforme ele próprio relembra neste depoimento ao UOL: “Eu achava excitantíssimo o Caetano Veloso. Ele me provocava estímulos que nenhuma outra pessoa jamais tinha provocado. Na Tropicália, né? E eu pensava assim: “Ah, se eu fosse artista, eu queria ser uma coisa assim como ele!”.

A história de quando Ney, muito antes da fama, viu Caetano em uma sorveteria em Brasília, é bem famosa e ele repete na mesma entrevista: “Ele estava lindo, de cor-de-rosa daqui até aqui. Homem não botava cor de rosa nem numa linha. Fiquei olhando pra ele e não tive coragem de falar com ele, não tive coragem! Não tietei, nem cheguei perto; fiquei de longe, olhando deslumbrado a imagem daquele homem de cor-de-rosa, com os cabelos enormes. E eu já gostava dele, eu já ouvia tudo dele, ficava esperando o disco dele sair. Ele era uma coisa que já me estimulava, porque eu via que tinha uma coisa, que ele era um transgressor no comportamento”, disse.

O fato é que, por mais contraditório que possa parecer, o relato de Ney revela uma das muitas e importantes facetas de Caetano. A de, ao provocar, demolir barreiras e escancarar portas aos mais novos, entre eles os gays. Isto, apesar de sempre ter tido uma vida heterossexual, com dois casamentos com mulheres e filhos. Uma atitude perturbadora aos que reclamam o “lugar de fala”, mas, inegavelmente imprescindível para a quebra de preconceitos.

Um desbunde ainda masculino

É importante lembrar aqui, como um parênteses a ser retomado mais à frente, que a loucura estava ainda, de certa forma, limitada ao sexo biológico masculino, fosse gay ou não. Às mulheres era permitido, com alguma graça, o amor livre. As lésbicas, que todos sabiam quem eram, não se colocavam ainda da mesma maneira escancarada como os colegas gays.

Uma honrosa exceção neste processo é Ângela Rorô, a primeira cantora lésbica a se assumir publicamente no Brasil. A sua vida turbulenta, bem como o caso rumoroso com a colega Zizi Possi ganharam as manchetes do país e fizeram a delícia das colunas de fofocas da época. Caetano Veloso – sempre ele – sensibilizado com o assunto, compôs para ela o clássico “Escândalo”, que Rorô imortalizou, em mais uma de suas interpretações memoráveis.

Cazuza, Renato Russo e Marina Lima, a geração 80

Se o embate, no tempo do desbunde, se dava pelas atitudes, hoje está nas redes sociais. Pablo Vittar não está sozinha quando se define. Mesmo assim, para chegar neste momento, ainda tivemos um rito de passagem com os roqueiros da década de 80, do propalado rock brazuca, com um papel ao mesmo tempo dramático e importante neste processo.

Cazuza e Renato Russo, dois personagens do período, distintos em quase tudo, são identificados também, além do talento, tanto pelo amor aos homens quanto pelo flagelo da AIDS, o grande pesadelo da época, que chegava não só como um risco de morte, mas também para corroborar preconceitos.

Ao lado deles, como um símbolo discretíssimo das mulheres, aparecia a cantora Marina Lima, que quase tomou um processo de Gal Costa, ao declarar para a jornalista Joyce Pascowith que a cantora havia sido a sua primeira transa. A entrevista foi em 2008 e, mesmo assim, causou um pandemônio, que levou Marina a responder em seu próprio site: “Sinceramente, não imaginava uma repercussão dessas. Acho uma loucura que essa entrevista tenha tomado essa proporção toda. Isso só me confirma o quão retrógrado está tudo, justamente quando o mundo briga e clama por mudanças… Chega a ser ridículo. Falei da Gal para fazer um contraponto com o que vivi (sem interferência da minha família) e a caretice que esses pais demonstram ao tentarem aprisionar e chantagear seus filhos. O carinho e respeito que tenho pela Gal são imensos —- nem adianta tentarem deturpar que não cola. Raramente cito nomes: a Gal foi citada por tudo de bacana que representou p/ a minha formação. E ponto final”.

A hora e a vez das lésbicas

Várias cantoras surgiram em cena e assumiram, abrindo espaço para que meninas em todo o Brasil percebessem e se orgulhassem de não estarem sós. Sandra de Sá declarou, em entrevista à Marília Gabriela: “É uma descoberta, é você se perceber. A homossexualidade é como a inteligência ou qualquer outro dom. Você desenvolve”. Ana Carolina também se manifestou: “Em relação à sexualidade, existe uma coisa muito simples: você olha para a pessoa, a deseja ou não, gosta ou não, nada é complicado”, explicou a cantora em entrevista.

O processo que envolveu a guarda de Chicão, filho de Cássia Eller, assumiu um outro patamar na luta pelos direitos LGBT e mobilizou o pais. O avô pediu na justiça a guarda do menino. Vários artistas assinaram manifestos a favor de Eugênia, a viúva de Cássia. Ela venceu a ação, ficou com o menino e criou jurisprudência no país. Maiores detalhes podem ser lidos aqui, em matéria da Fórum de 2004.

A cantora de axé Daniela Mercury, musa do axé music e, até então, mãe de família casada e com marido, acabou indo parar no Jornal Nacional quando, em 2013, assumiu através de foto no Instagram, o romance com a jornalista Malu Verçosa. Na legenda da foto, Daniela se declara: “Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar”.

À esquerda foto de Annie Leibovitz de John Lennon e Yoko Ono. À direita foto de Célia Santos para Malu Verçosa e Daniela Mercury

No seu disco seguinte, de 2015, a cantora emulou famosa foto de Annie Leibovitz do casal John Lennon e Yoko Ono e pousou nua abraçada à Malu na capa do álbum.

‘Que gay o caralho, eu sou um ser humano’

Ao que parece, de volta ao começo, se declarar ‘bichérrima’, lésbica ou não, parece vir muito mais de uma postura com relação à vida do que uma quebra de preconceitos propriamente dita. A cantora paulista Liniker, por exemplo, abre o leque de possibilidades de definições: “Eu não sei se sou homem ou se sou mulher. Eu sei que sou bicha, preta e é isso. Por que eu preciso estar me colocando se sou trans? Vamos viver as nossas diferenças”, diz encerrando a questão.

Liniker. Foto: Leila Penteado/Divulgação

Ney Matogrosso, e sempre ele também, que não deve nada a ninguém neste quesito, virou alvo inadvertido de uma polêmica com o cantor Johnny Hooker por conta disso. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em julho de 2017, o cantor declarou: “Me enquadrar como “o gay” seria muito confortável para o sistema. Que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto, de terceiro lugar”, disse.

Hooker, inconformado, respondeu: “É inconcebível ler a frase ‘Que gay o caralho, eu sou um ser humano’ no país que mais mata LGBTs do MUNDO(!!)”. Ney deu de ombros e não quis prosseguir com o assunto.

As diferenças parecem estar mais na forma do que no conteúdo. Na fala do corpo, da voz e dos sentidos. Ninguém fez mais do que Ney pela aceitação dos gays no Brasil, mesmo sem fazer comícios nem emitir frases prontas. Mas, seja tanto em uma voz quanto na outra, o fato inegável é que a música, com seus artistas, tem sido desde sempre uma grande arena para que cada vez mais e mais pessoas possam afirmar e viver o que são sem problemas. E com muita diversão.