Quilombo

por Dennis de Oliveira

15 de dezembro de 2011, 12h37

A crise europeia e a desilusão da intelectualidade do Velho Continente

O filósofo alemão Jürgen Habermas, autor de obras clássicas como “A mudança estrutural da esfera pública” e “Teoria a ação comunicativa”, considerado um dos herdeiros vivos da tradição da Escola de Frankfurt, publicou dois artigos interessantes, um no jornal The Guardian e outro no Der Spigel em que faz críticas duras a como o modelo de integração europeu foi feito com base em acordos das elites políticas europeias comandadas pelo mercado. Estes dois artigos foram comentados de forma interessante pelo companheiro blogueiro Idelber Avelar. Vou colocar a minha colher nesta discussão.
Habermas ainda acredita em uma possibilidade de construção de uma cidadania no sentido “puro”, a partir do que ele chama de uma solidariedade ativa: “Um elemento envolvido neste é a solidariedade: uma vez uma comunidade constitucional se estende além das fronteiras de um Estado único, a solidariedade entre os cidadãos que estão dispostos a apoiar uns aos outros deve expandir-se para manter o ritmo com ele.”
O que o pensador alemão tem detectado é que todo o protagonismo de ação contra a crise europeia parte de mercados, destacando como estes mesmos mercados foram os principais responsáveis pelas quedas dos governantes da Itália e da Grécia. Por aqui mesmo no Brasil, o jornalista Clóvis Rossi chamou a queda de Berlusconi na Itália de “golpe de mercado”. A cidadania pura de que fala Habermas foi bombardeada quando o ex-premiê da Grécia aventou a possibilidade de submeter a proposta de “ajuda” da CEE a plebiscito – afinal, a população é que deveria decidir se topa sacrificar-se mais uma vez em benefício dos mercados.
Habermas propõe o conceito de “embebbed capitalism” (que pode ser traduzido para algo como “capitalismo incorporado”), isto é, um mecanismo em que a economia de mercado seria controlada pela política, uma articulação entre democracia, esfera pública e capitalismo. Em outras palavras, Habermas acredita que é possível emergir uma racionalidade comunicativa dentro de uma ambiência de esfera pública no sentido clássico capaz de controlar os avanços da economia de mercado. Por isto, a sua ira nos comentários citados, se dirige às elites políticas e aos meios de comunicação de massa por estes se dobrarem aos mercados. O risco, segundo ele, é a Europa ficar a mercê de Estados de emergência permanentes.
Bauman, já há muito tempo, fala do divórcio entre poder e política (na obra “Tempos Líquidos”) dizendo que o poder se deslocou para a esfera dos mercados transnacionalizados. A política, a realpolitik, vira meramente um jogo cênico.
Mas a coisa é mais que isto. As chamadas elites políticas e a própria mídia estão intimamente articuladas com os mercados transnacionalizados. Basta verificar quem são os analistas econômicos que publicam comentários na mídia, a ação de vários proprietários de indústrias da mídia como players em grandes negócios do mercado mundial e também a presença direta de representantes destes mercados nos governos, em especial nas áreas econômicas.
Em outras palavras, o capitalismo perdeu totalmente qualquer possibilidade civilizatória (quem já disse isto foi Ernest Mandel) e se há um papel possível na esfera da cidadania é a de resistência e de se pensar alternativas societárias que já vem sendo gestadas nos movimentos sociais. E isto não se baseia na busca de uma pretensa razão esclarecedora (Habermas vai ficar procurando isto muito t empo e não vai achar)  e sim no exercer plenamente a radicalidade – buscar as coisas pela raiz, pelos fundamentos para contestá-los.
Exemplos: os movimentos de ocupação de terras e de imóveis vazios (contestando o fundamento da prevalência do direito da propriedade privada sobre o direito social à moradia digna), de Wall Street (as ruas são públicas e não dos mercados), marchas, passeatas, etc. Ou de apropriação das tecnologias da informação e comunicação para expressar novas formas, novos conteúdos e construir novas redes. É a chamada uma outra globalização possível, como afirmou Milton Santos. O poeta martinicano Edouard Glissant afirma que o grito poético de resistência sempre emerge quando uma comunidade sente-se ameaçada de ser destruída.
A desilusão e a raiva de Habermas decorre, simplesmente, que as suas referências teóricas não respondem os dilemas contemporâneos. As razões esclarecedoras de que ele fala são justamente as que criaram esta situação – afinal, os pensadores do mercado são extremamente racionais e esclarecem bem as suas posições. São os gritos poéticos da periferia de Glissant que fazem com que, apesar de Wall Street, a vida e a humanidade continuem existindo e resistindo.

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