Quilombo

por Dennis de Oliveira

29 de outubro de 2012, 17h05

A derrota de um cadáver político insepulto em São Paulo

Em uma rápida análise feita com base nas matérias publicadas sobre o segundo turno das eleições municipais em São Paulo, elencamos os temas presentes nas declarações dadas à imprensa ou registradas pela imprensa em comícios e outros atos de campanha dos dois candidatos. O tema mais falado por Serra foi o mensalão, seguido de saúde e o kit anti-homofobia. Já Fernando Haddad priorizou saúde, mensalão e a taxa de inspeção veicular.

Haddad Serra
Saúde (31,82%) Mensalão (39,13%)
Mensalão (18,18%) Saúde (21,74%)
Taxa Inspeção Veicular (13,63%) Kit-antihomofobia (13,04%)
Educação/creches (9,09%) Transporte (9%)



Percebe-se a presença de uma agenda “negativa” nos discursos de Serra, uma campanha que procurou se pautar muito mais pelo “perigo do PT”, discurso que beira até o ressentimento, do que um discurso propositivo. A ausência de programa – ele foi só apresentado em outubro – foi acompanhada da apresentação de um monte de promessas desconectadas na área social, como o aumento de salários de professores, a bolsa-creche, o bilhete único de seis horas, a jornada de 7 horas nas escolas. Isto ocorreu após a percepção de que o discurso fundamentalista-religioso ampliou a sua rejeição, o fez perder mais votos e ainda afastou líderes históricos do partido, como Fernando Henrique Cardoso e José Gregori.

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Os resultados pífios nas primeiras pesquisas de intenção de voto fizeram o candidato disparar contra tudo e contra todos. Acusou o PT de fazer baixaria, passou a agredir a própria grande mídia sempre simpática a ele (note-se que o tema mensalão foi o assunto principal da agenda midiática) e tentou se posar de popular. Ao perder as eleições, desejou boa sorte ao adversário vencedor sem citar o seu nome. A derrota foi vergonhosa pois contou com tudo a seu favor – a máquina do governo, a mídia favorável e o fato do adversário entrar na corrida eleitoral como um desconhecido.

Histórico do oportunismo serrista

Durante o governo do seu correligionário Fernando Henrique Cardoso, Serra ficou à margem durante um tempo, fez críticas à condução econômica e atuou como uma “sombra” da equipe liderada por Pedro Malan. Apresentava-se como um “nacionalista”, apesar de ter papel importante na privatização das estatais – inclusive com suspeitas de corrupção, conforme demonstra o livro-reportagem A privataria tucana.

Depois resolveu se apresentar como um defensor dos consumidores de medicamentos, apresentando-se como o criador dos genéricos. Uma tremenda mentira, pois o decreto que criou os genéricos foi assinado em 5 de abril de 1993 pelo então ministro da Saúde Jamil Haddad e o presidente da república da época Itamar Franco (clique aqui para ler o decreto). Mentira que foi corroborada pelos meios de comunicação hegemônicos.

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Nas eleições de 2002, tentou se apresentar como um situacionista pero no mucho, buscou dar um perfil de centro-esquerda a sua candidatura, convidando a deputada federal Rita Camata para ser a sua vice. Mas fez uma campanha tipicamente terrorista afirmando que o Brasil passaria por uma crise igual à da Argentina caso Lula fosse eleito. Ficou famosa a frase da atriz Regina Duarte dizendo que “tinha medo” do Lula. A campanha de terrorismo ideológico lembrava muito as movimentações da classe média contra o governo de João Goulart que descambaram no golpe de 1964.

Voltou à carga em 2010 aí já apelando para um conservadorismo de costumes, trazendo o tema do aborto para a campanha, buscando apoio nos setores mais retrógrados das organizações religiosas, como a TFP. E, finalmente, neste ano, insistiu de início no fundamentalismo religioso com o tema do material escolar do MEC de combate à homofobia (chamado pejorativamente de “kit-gay”).

Estes comportamentos errantes ideológicos são acompanhados de um oportunismo eleitoral. Foi eleito e abandonou a prefeitura um ano depois para se candidatar a governador, apesar de ter prometido ficar todo o mandato, em 2006; apoiou Gilberto Kassab, então no DEM, contra o candidato do seu próprio partido, Geraldo Alckmin, nas eleições municipais de 2008. Em função da impopularidade da atual gestão de Kassab procurou não se apresentar como candidato da situação – só o fazendo quando foi interpelado pelos seus adversários – assim como não o fez nas eleições presidenciais, em que procurou se afastar do legado da gestão do seu correligionário Fernando Henrique Cardoso.

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Esta derrota de José Serra nas eleições municipais em São Paulo consolidou um processo de decadência política que vem se arrastando há anos. Vindo do movimento estudantil e depois desempenhando um papel relativamente importante na luta pela redemocratização do país durante a ditadura militar, Serra foi engolido pela própria prepotência, autossuficiência e desejo pelo poder marcado pelo egocentrismo. É um cadáver político embalsamado pela mídia hegemônica, esta mesma que ele ataca quando não se faz suficiente par ungi-lo à vitória.

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