Andrea Caldas

política e educação

10 de fevereiro de 2019, 17h34

A direita leu mais Gramsci que a esquerda

Andrea Caldas: “Gramsci, o tão combatido pela direita, foi ignorado pelo outrora governo progressista de plantão sazonal. A disputa foi substituída pela conciliação”

Foto: Wikimedia Commons

Gramsci, após a tentativa frustrada de repetir a experiência da revolução russa na Itália, dedicou seus últimos anos – parte deles no cárcere político do regime fascista de Mussolini – a entender os erros do movimento e pensar na superação histórica.

Por isto, ele é lido – e combatido – até hoje. Porque não se limitou a lamber as feridas ou reclamar da direita, porque esta exercia seu poder e disputava hegemonia.

Gramsci entendeu que, no caso da Rússia, a tomada de poder de forma insurrecional correspondia a um tipo de sociedade – que ele qualificou como do tipo oriental – em que o poder do governo estrito era quase absoluto.

Derrubar o governo era sinônimo de conquistar o poder.

Na Itália dos anos 30, ao contrário, já havia uma sociedade civil mais complexa – imprensa, partidos, organizações sindicais e empresariais – que ombreavam o poder ideológico de Estado.

Derrubar o governo era apenas uma tarefa na conquista do poder mais amplo.

Eis que, nas sociedades de tipo ocidental, era preciso empreender a guerra de posição e disputar muitos espaços de poder, além dos postos de governo, no sentido estrito.

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O Brasil se aproxima da qualificação definida por Gramsci para a Itália.

E esta análise é partilhada pela esquerda aqui, há muito tempo.

Desde, especialmente, as traduções e interpretações de Carlos Nelson Coutinho.

Nos debates internos do PT estas análises eram recorrentes.

Ocorre que o governo lulista parece ter cedido à tentação de substituir a análise das forças políticas e hegemônicas pelo poder do carisma político, nos termos rebaixados do populismo sul-americano.

O Estado é tudo foi alterado por o “presidente é tudo”.

E sim, Lula e seu carisma e genialidade conseguiram muito em uma sociedade quase estamental e profundamente desigual.

Mas, se o carisma e a personalidade foram o norte, também foram a limitação.

Em quase 14 anos de governo progressista – um recorde histórico para o Brasil – com 80 por cento de popularidade, com maioria no Congresso e maioria absoluta das indicações no STF, nenhuma reforma estrutural (além da Reforma da Previdência) foi sequer proposta.

Nenhuma, absolutamente nenhuma.

Sequer a assinatura de convênio com a rede Telesur foi feita.

Quatorze anos de um governo progressista, que não sabemos se um dia irão voltar.

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E não houve nem guerra de movimento, nem de posição.

Gramsci, o tão combatido pela direita, foi ignorado pelo outrora governo progressista de plantão sazonal.

A disputa foi substituída pela conciliação.

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