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09 de fevereiro de 2012, 14h31

A educação por meio da filosofia do “copo cheio”

O antropólogo e educador popular Tião Rocha encontra no empoderamento da sociedade o caminho para a transformação do ensino e da qualidade de vida de comunidades no interior do Brasil. Por Sucena Shkrada Resk   O antropólogo Tião Rocha, há muitos anos, resolveu sair das salas da universidade para se dedicar às rodas de conversa nos espaços de chão batido, onde o diálogo faz com que as pessoas redescubram sua auto-estima e potencial empreendedor, superando as adversidades do estigma da pobreza. Dessa atitude, nasceu o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), em Belo Horizonte, em 1984. O principal trabalho...

O antropólogo e educador popular Tião Rocha encontra no empoderamento da sociedade o caminho para a transformação do ensino e da qualidade de vida de comunidades no interior do Brasil.

Por Sucena Shkrada Resk

 

O antropólogo Tião Rocha, há muitos anos, resolveu sair das salas da universidade para se dedicar às rodas de conversa nos espaços de chão batido, onde o diálogo faz com que as pessoas redescubram sua auto-estima e potencial empreendedor, superando as adversidades do estigma da pobreza. Dessa atitude, nasceu o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), em Belo Horizonte, em 1984.

O principal trabalho desenvolvido pelo Centro nestes anos tem sido o de fomentar a educação popular, com um resgate do folclore regional, das brincadeiras e do que Rocha chama de “pedagogia do abraço”, além do empreendedorismo comunitário em que se incentiva a implementação de agroflorestas por meio da permacultura e das ações básicas de saúde coletiva. As ações alcançam comunidades de baixa renda, que enfrentam a seca, como no Vale do Jequitinhonha e do São Francisco, em Minas Gerais; e do Maranhão, com altos índices de morte neonatal.

Em um bate-papo com Fórum, durante o IV Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, realizado em Belo Horizonte no mês de maio, Tião falou sobre sua leitura do papel da educação e os principais conceitos e ações que envolvem os projetos, que têm o desafio de empoderar a sociedade para garantir a todos uma sobrevivência digna. A filosofia que utiliza é baseada na seguinte escolha – “ver a metade do copo cheio, em vez de ver a outra metade vazia”.

Fórum – Qual o seu ponto de vista a respeito do projeto do Plano Nacional de Educação (PNE) – 2011-2020, que tramita no Congresso Nacional?

Tião Rocha – Acho que existem algumas questões e princípios essenciais. Quando se faz um Plano Decenal de Educação, se pensa geralmente em escolarização num formato mais amplo, mas na prática se age menos, em algo mais localizado. Deveria ser uma questão de honra que nenhuma criança saísse do ensino fundamental sem saber ler e escrever português e fazer bem as quatro operações. Ela precisa aprender os códigos de comunicação, essa é uma condição essencial para que possa assimilar outras coisas. É isso que deveria acontecer em quatro anos, é se estabelecer a função social da educação. Outra questão é que toda cidade deveria ter como meta ser uma cidade educativa e, para isso, um dos indicadores é que as bibliotecas públicas deveriam funcionar 24h, que nem os hospitais. São pequenos dados marcantes.

Fórum – Um dos aspectos de destaque no texto da proposta do PNE é a ênfase para o ensino técnico. Qual a sua opinião a respeito?

Rocha – Já vai estar defasado. Daqui a alguns anos, essas profissões técnicas não existirão mais. É preciso haver a preparação para a gestão do conhecimento. Esse caráter formativo profissional está preso a uma lógica que temos de romper; é um ranço do nosso sistema. O nosso modelo educacional se originou na ditadura e a nossa escola foi o aparelho ideológico do Estado. Agora, virou o aparelho ideológico do mercado. A pergunta é – qual mercado? Onde é importante dar certo e ter lucro, sucesso e dinheiro rápido, no qual vale qualquer coisa e justifica todas as falcatruas que estão aí? Ou um mercado, em que as pessoas querem conviver bem e ser bons cidadãos? Esse é um definidor de limite. O sistema é focado em profissões que estão pautadas na lógica do mercado, e que correm o risco de estarem ultrapassadas ou de produzirem equívocos, sem produzirem valores, mas somente preços. Isso é um problema, com o qual se deve ter cuidado.

Fórum – Com relação à educação não formal, o que agrega à aplicação da sustentabilidade?

Rocha – A não formal parece que não tem forma, mas tem. O grande problema é quando deixa as formas e se transforma em caixa, e fica fechada em si mesma. Com isso, não se recicla, como se estivesse conservada em formol. Toda a questão do conhecimento é uma construção coletiva. A educação só acontece no plural, precisa, no mínimo, de duas pessoas. Ela é aquilo que se troca, o que não tínhamos antes. Quando se pensa nisso, você pensa que o conhecimento é a somatória da vivência, da experiência, sua base de sustentação da vida, da ética e dos valores. Guimarães Rosa dizia “eu quero beber de todas as águas, experimentar de todos os rios, para saber todos os sabores”. Então, quanto mais você puder vivenciar, mais poderá construir coisas. Outro pensamento dele é sobre como se constrói o futuro “Eu quero rezar em todas as religiões, se todas garantirem o reino dos céus”. Para mim, a grande bandeira hoje da sustentabilidade e da Carta da Terra é o mundo ético, que seja bom para todos nós. Todos os modelos falharam até agora. Temos de reconstruir o paradigma.

Fórum – Qual é a experiência com agrofloresta que o CPCD desenvolve na região do semi-árido?

Rocha – O trabalho começou a ser desenvolvido no Vale do Jequitinhonha, a partir de 2005, e, hoje, alcança cerca de 66 comunidades e 40 mil pessoas. A região é um local onde as pessoas saem de lá, por causa da seca. Mas é uma questão equivocada, já que cai alguma água e captá-la é algo fundamental, com a possibilidade de usá-la de forma racional e sustentável. Se conseguir 20 mil litros de água, uma família com seis pessoas vive por oito meses, abastecida, e ninguém vai morrer de sede. Caso se construa uma pequena barragem, é possível coletar até 30 mil litros de água na época da chuva e se pode plantar.
Então, começamos a recuperar as valas formadas pela erosão do solo, com a incidência das chuvas, que descem os morros. Com isso, houve a recuperação das áreas, criando a condição de produzir uma floresta de alimentos. A nossa experiência atinge uma área degradada de 5 hectares que estava abandonada, onde utilizamos a técnica de permacultura, com a proposta de reaproveitamento e não desperdício. Desta forma, produzimos, na época da seca, aproximadamente 800 quilos de alimentos por mês. No período das chuvas, sobe para 1,5 tonelada. E isso é possível ser replicado na casa de cada um.

Fórum – E qual é o conceito que envolve a permacultura?

Rocha – É a ideia de cultura permanente, ou seja, não agredir a natureza, não gastar a energia. Tudo tem que manter duas funções, antes de virar lixo. A proposta é reaproveitar o máximo das coisas, com o mínimo de esforço. Com isso, há uma convivência de forma harmônica. Ao invés de canteiros compridos, as pessoas fazem canteiros em formato de mandalas. A água que sai pelas torneiras é reaproveitada para o ciclo de produção da bananeira. Utilizamos a técnica de banheiro seco, para que não haja desperdício da água jogada no esgoto.

Fórum – Um dos mais recentes projetos do CPCD é no Maranhão. Fale a respeito.

Rocha – Fomos convidados, há dois anos, a atuar lá, porque o estado tem 38 cidades em que os índices de mortalidade infantil neonatal dos mais elevados no Brasil e do mundo. Desse total, começamos a trabalhar em 17 municípios, com o Projeto Cuidando do Futuro. Observamos que as crianças morrem pelas razões mais absurdas. A mãe só faz pré-natal se corre risco de morte. Às vezes, o bebê morre no próprio hospital, por diferentes motivos, devido à ineficiência do atendimento. Também ocorrem muitas mortes na primeira semana, em casa. Muitas vezes porque alguém resolveu fazer um mingau de dedo, ou seja, colocar o dedo na farinha com água e dar à criança, que acaba tendo uma diarreia e morre. Ou então, o falecimento ocorre antes de um mês de vida porque o recém-nascido foi colocado embaixo da torneira, em banho de água fria.

Sem esse tipo de caso, o índice de mortalidade se torna semelhante ao restante do Brasil. Percebemos que a medicina hospitalar não dá conta desse quadro e buscamos profissionais da área da saúde, cuidadores solidários da própria comunidade, que foram identificando centenas de outros, que chamamos de pontos luminosos. Com esse movimento, em um ano foi possível reduzir mais de 10% do índice de mortalidade, com a participação da própria comunidade. A ideia que levamos para lá, aprendi em Moçambique. Para educar uma criança, precisa de uma aldeia. Então, vamos convocar uma aldeia para salvá-la da morte.

Conheça o trabalho do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento no http://www.cpcd.org.br.

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