A esperança em jogo: Copa do Mundo e política | Revista Fórum
01 de julho de 2018, 10h25

A esperança em jogo: Copa do Mundo e política

Em sua coluna na Fórum, Raphael Silva Fagundes faz uma reflexão sobre as relações entre o momento político do Brasil, a esperança da população e a Copa do Mundo

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Os professores João Daniel Lima de Almeida e Maurício Santoro1 acreditam que o futebol tem uma relação muito estreita com a história política do Brasil. Em 1934, Vargas colocava Luiz Aranha, irmão do ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, como presidente da Confederação Brasileira do Desporto (CBD). Simpático ao governo de Mussolini, dizia que o selecionado na copa da Itália deveria mostrar-se “orgulhoso de sua própria raça”.1

Mas foi em 1938, um ano após a profissionalização do futebol, que este se tornava efetivamente uma tradição inventada, útil para promover a coesão social no mesmo momento em que se inaugurava a ditadura do Estado Novo. Nada mais nada menos que a filha de Vargas, Alzira, foi escolhida como a madrinha do selecionado que iria a copa da Espanha. Enquanto isso, Gilberto Freyre afirmava que o futebol era perfeito para se encaixar na cultura brasileira, já que o brasileiro herdara dos índios o gosto pelos esportes, e o elemento negro, com sua agilidade, incrementaria o esporte trazido pelo homem branco. As três raças se fundiam, aperfeiçoavam-se.2

Na campanha de 1958, o Brasil estava culturalmente esperançoso. Maria Ester Bueno vencia no tênis, Eder Jofre, no boxe, Adhemar Ferreira da Silva, no salto. A bossa nova conquistava o mundo. Kubitschek construía Brasília com uma das arquiteturas mais criativas do mundo.

Esse processo continuou em 1962 com as esperanças suscitadas com a renúncia de Jânio e uma possível mudança oferecida com as reformas de base lideradas pelo governo de João Goulart.

Em 1970, apesar dos anos de chumbo, o Brasil passava por um crescimento econômico de mais de 10% ao ano, o que dava espaço a uma propaganda oficial extremamente convincente. O discurso dos 70 milhões em ação casava com as expectativas.

Em 1994, o Plano Real viria para resolver os problemas inflacionários pelos quais o Brasil passava, o que levou a vitória de FHC. E em 2002 a esperança vencia o medo com a vitória de Lula, gerando opções otimistas (também para o empresariado devido a aliança que o petista fizera com José Alencar) após o desastre da última gestão de Fernando Henrique.

As vitórias da seleção brasileira sempre estiveram ligadas às esperanças populares casadas às esperanças políticas e econômicas das classes dominantes. É lógico que há nesse processo um grande investimento retórico, já que retórica consiste no casamento dos interesses do orador com os interesses do ouvinte. Ou melhor, a habilidade do orador (no caso, os que detém o controle da máquina de propaganda) em convencer o ouvinte de que os seus interesses são os mesmos deste.3

Não acredito que a história possua uma lógica ou um sentido, como se fosse um espírito linear em direção a algo. Mas sei que vivemos em uma época em que o brasileiro se encontra sem otimismo. Momento em que o candidato que tem mais intenções de voto é um preso político. Uma vitória da seleção brasileira nesse contexto político e econômico iria destoar do que o histórico nos apresenta. Contudo, se futebol não tiver realmente nada que ver com política, como alguns acreditam, as esperanças de um hexacampeonato podem estar garantidas.

Mas se pensarmos como Paulo Vinícius Coelho, um dos maiores analistas de futebol da atualidade, que sempre embasa suas observações e críticas a partir de evidências históricas, e relacionarmos as circunstâncias políticas de cada época, não teremos uma boa previsão para a campanha da seleção esse ano.

A falta de esperança em tudo reverbera. Como diz o filósofo Ernst Bloch, “a falta de esperança é, ela mesma, tanto em termos temporais quanto em conteúdo, o mais intolerável, o absolutamente insuportável para as necessidades humanas”.4

Uma sociedade que perde a esperança se volta para o passado, vive da lembrança, e cai no risco de errar novamente. Por isso precisamos inaugurar uma esperança não contemplativa, mas objetiva. Que não se baseia na vingança, como a raiva surda que levou a classe média alemã, desesperançada a apoiar Hitler. Esses “desejos de vingança podres e cegos”5, como afirma Bloch.

Precisamos de uma esperança real que possa superar as condições reais de existência e que quer antecipar o novo que não aguentamos mais esperar.

1 ALMEIDA, João Daniel Lima de. e SANTORO, Maurício. A diplomacia dos gramados. In: RHBN, ano 1, n. 7, jan. 2006. p. 36-40.

2 FRANZINI, Fábio. Quando a pátria calçou chuteiras. In: RHBN, ano 1, n. 7, jan. 2006. p. 18-23.

3 PEREIRA, Leonardo Affonso. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. p. 333.

4 HALLIDAY, Tereza Lúcia. O que é retórica, Brasiliense, São Paulo, 1990, p.30.

5 BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. p. 15