30 de outubro de 2018, 09h42

“A imprensa comprava tudo”, diz ex-assessora de Moro em entrevista ao The Intercept Brasil

"Era tanto escândalo, um atrás do outro, que as pessoas não pensavam direito, as coisas eram simplesmente publicadas", diz Christianne Machiavelli, que foi assessora de imprensa da Justiça Federal de Curitiba até o final de agosto.

Montagem/Reprodução
Em entrevista à jornalista Amanda Audi, no site The Intercept Brasil, Christianne Machiavelli, que foi assessora de imprensa da Justiça Federal de Curitiba até o final de agosto, conta um pouco como funcionava os bastidores da relação de do juiz Sérgio Moro com a mídia – uma “peneira de vazamento” de informações da investigação, como o próprio magistrado definiu em artigo em 2004 sobre a Operação Mãos Limpas, na Itália, antes do início das investigações. Segundo Christianne, que coordenou essas relações durante 4 anos, “a imprensa comprava tudo”. “Era tudo divulgado do jeito como era citado pelos órgãos da operação”,...

Em entrevista à jornalista Amanda Audi, no site The Intercept Brasil, Christianne Machiavelli, que foi assessora de imprensa da Justiça Federal de Curitiba até o final de agosto, conta um pouco como funcionava os bastidores da relação de do juiz Sérgio Moro com a mídia – uma “peneira de vazamento” de informações da investigação, como o próprio magistrado definiu em artigo em 2004 sobre a Operação Mãos Limpas, na Itália, antes do início das investigações.

Segundo Christianne, que coordenou essas relações durante 4 anos, “a imprensa comprava tudo”. “Era tudo divulgado do jeito como era citado pelos órgãos da operação”, diz ela. “Era tanto escândalo, um atrás do outro, que as pessoas não pensavam direito, as coisas eram simplesmente publicadas”, complementa, antes de citar um dos erros que ganharam as manchetes dos jornais.

“O caso da cunhada do [ex-tesoureiro do PT, João] Vaccari foi bem significativo. Os jornalistas foram na onda do MPF e da PF. Todo mundo divulgou a prisão, mas ela foi confundida com outra pessoa. Foi um erro da polícia. Quando perceberam o erro, Inês já era morta”, afirmou.

Para a assessora, o volume de informações disponibilizadas para a imprensa fez com que muita notícia fosse divulgada sem checagem alguma, princípio básico do jornalismo, além de serem usados fatos que não tinham relação alguma com os processos.

“O áudio do Lula e da Dilma é delicado, polêmico, mas e o editor do jornal, telejornal, também não teve responsabilidade quando divulgou? Saíram áudios que não tinham nada a ver com o processo, conversas de casal, entre pais e filhos, e que estavam na interceptação”, conta.

Chateados com a imprensa
Segundo ela, apesar dos vazamentos contínuos – e muitos deles fora do contexto das investigações -, que denegriram a imagem de muitos dos acusados, a cúpula da Lava Jato nunca conviveu bem com as críticas.

“O Maurício Moscardi Grillo [delegado da Lava Jato em Curitiba] quando deu entrevista para a Veja dizendo que perderam o timing para prender o Lula foi muito criticado, e a polícia ficou melindrada. Mesma coisa quando o Carlos Fernando Santos Lima falou que o MPF lançou “um grande 171″ para conseguir delações. O powerpoint do Deltan Dallagnol sobre o Lula. Eles ficaram muito chateados quando a imprensa não concordou com eles. Todo mundo fica magoado, mas não se dá conta daquilo que fala”.

Segundo ela, Sérgio Moro teria ficado “melindrado” com a denúncia do advogado Rodrigo Tacla Duran, sobre as negociações de delações feitas por Carlos Zucolotto.

“Ele me chamou para a gente responder à notícia que dizia que Carlos Zucolotto, amigo, padrinho de casamento e ex-sócio da esposa de Moro, fazia negociações paralelas sobre acordos com a força-tarefa da Lava Jato . Nesse caso ele se sentiu ofendido, mais pelo processo do que pessoalmente”.

Influência nas eleições
Ao comentar a influência de ações da operação Lava Jato – como o levantamento do sigilo da delação de Antonio Palocci por Moro às vésperas do primeiro turno -, Christianne diz que as eleições foram “atípicas” e que acredita que as “notícias falsas, o ódio e o medo” tiveram peso maior nas decisões dos eleitores.

“Só posso dizer que essa eleição é a mais atípica que vivi desde que tirei meu título. Quanto a colaboração do Palocci, entendo que quase a totalidade do termo divulgado já era se conhecimento público. Ele apenas deu nome aos bois, fato que também já teria sido mencionado pelo Paulo Roberto Costa e, se não me engano, por Youssef também. Portanto, não sei se influenciou. O que influenciou no resultado dessas eleições foram as notícias falsas, o ódio, o medo”.

Leia a reportagem completa no site The Intercept Brasil.