12 de outubro de 2018, 20h34

A internacional ultra-liberal de Bannon, a ascensão de Bolsonaro e a bomba atômica antipetista

Para o doutor em Filosofia, Rafael Azzi, estratégia de ex-assessor de Trump e atual conselheiro de Bolsonaro pulverizou o medo e fez explodir a violência contra a esquerda nas eleições no Brasil

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A pretensão de Stevie Bannon – que atuou como estrategista-chefe de Donald Trump na Casa Branca – de unir a direita ultra-liberal em uma aliança internacional encontrou eco no Brasil nestas eleições presidenciais. Aturdidos por um discurso de medo e ódio à esquerda, em especial ao PT, mais de 49 milhões de brasileiros usaram os dedos, ou o cano do revólver, para apertar os dois números que levaram o capitão da reserva, Jair Bolsonaro (PSL), ao segundo turno da corrida presidencial.

Rafael Azzi (Foto Reproduão/Facebook)

Doutor em Filosofia pela PUC-RJ e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Rafael Azzi acredita que o guru ultra-liberal entregou à Eduardo Bolsonaro, o estrategista dos filhos de Jair, uma verdadeira bomba-atômica, no encontro que tiveram em agosto nos Estados Unidos, quando Bannon “se colocou à disposição para ajudar a campanha” do capitão da reserva no Brasil.

“No meu entender, eles nem mesmo sabiam o que estavam ganhando, nem sabiam o que o Bannon estava oferecendo. É risível a declaração de Eduardo Bolsonaro na rede social. Ele não tinha ideia de que o Bannon iria entregar para ele seria o equivalente a uma bomba atômica. E a gente como sociedade não está preparado para receber isso”, disse Azzi, em entrevista à Fórum.

Bannon explodiu a bomba de ódio e preconceito nos Estados Unidos – que resultou, entre outros incidentes, nos protestos supremacistas brancos na cidade de Charlottesville – aglutinando apoiadores do Partido Republicano aos movimentos ultra-liberais, como neonazistas e fascistas, ao espalhar fake news pelas redes sociais com conteúdo misógino, xenófobo e racista, colocando na conta dos Democratas de Barack Obama a defesa de temas controversos, que ferem principalmente valores essenciais, como a família.

“Eles trabalham assim, essa é a base do fascismo, construir um outro lado que você deve se opor. O outro lado é ruim, é sujo, é violento. E seu lado é o lado do bem, da limpeza, da pureza. Essa é uma estratégia fascista, de queimar o outro lado, para que a pessoa passe para seu lado”.

Quando esteve à frente do Breitbart News, um site de ultra-direita dos EUA, Bannon contratou a Cambridge Analytica. “Eles contrataram essa empresa para adquirir perfis no Facebook e usarem de manipulação ideológica. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos”, conta Azzi.

Segundo ele, a estratégia foi repetida pela campanha de Bolsonaro, que se fortaleceu e conseguiu feitos no primeiro turno das eleições, ao colocar candidatos praticamente desconhecidos apoiados por ele no segundo turno em eleições estaduais – como Wilson Witziel (PSC), na disputa ao governo do Rio, e Romeu Zema (Novo), em MG, além de eleger figuras como Alexandre Frota (PSL) e Janaína Paschoal (PSL), com votações expressivas, conseguindo a segunda bancada na Câmara Federal.

“Entre os apoiadores do Bolsonaro o que mais tem são pessoas que dizem que a esquerda é violenta, a esquerda defende bandido, a esquerda é corrupta, que defendem valores que não são da família. São argumentos que pegam pelo medo das pessoas, as pessoas têm medo de violência, de bandidos. Então pega por esse medo e fala que o outro lado é o da violência, do banditismo”, pontua.

Ódio e medo nas telas do whatsapp

Segundo Azzi, como o Facebook restringiu muito o controle sobre esses dados, no Brasil foi testada, provavelmente, uma nova estratégia, que se mostrou ainda mais eficaz. “O Facebook tentou controlar isso (após o caso Cambridge Analytics), então eles usaram o Whatsapp, que é um mecanismo até mais popular que o Facebook. Tem gente que não tem acesso a outros dados, mas tem acesso ao Whatsapp no celular. Essas pessoas não podem nem clicar em links, pois elas não saem do WhatsApp. Elas só têm a informação através do Whatsapp”.

O objetivo, segundo o filósofo, é atrair as pessoas que têm uma tendência ideológica nas redes sociais abertas – constatada através dos algoritmos – e bombardear essas pessoas com informações que radicalizam o discurso, mexendo principalmente com o fator emocional.

“Fiz uma pesquisa em meu Facebook com pessoas que votariam no Amoêdo e no Alckmim e que mudaram seu voto para o Bolsonaro nas últimas semanas da campanha com o argumento específico de que ‘a esquerda fez com que eu mudasse meu voto’. Várias pessoas ao mesmo tempo – cerca de 600 pessoas – que eram de direita mudaram seu voto. Essas pessoas mudaram de voto ao mesmo tempo com o mesmo argumento específico, que não é racional”.

Azzi diz que, para constatar isso, ele próprio mudou o perfil e passou a “apoiar” João Amoêdo (Novo), que tem uma forte tendência liberal. “Assim que mudei meu perfil para o Amoêdo veio um monte de ‘bot’ fazendo fake news e confundindo a cabeça. E então você não sabe mais o que é verdade e o que é mentira”, disse, em relação ao trabalho dos ‘bots’, ou robots, que criam relações de interação nas redes sociais a partir de suas curtidas, comentários e compartilhamentos.

Viés de confirmação

Segundo Azzi, a atuação dos bots tem fundamento na própria filosofia, em um conceito conhecido como “viés de confirmação”. “É quando você tem uma teoria e a coloca para o mundo selecionando os dados que mais confirmam a sua teoria. Por exemplo, se você acha que esquerdista é violento, você vai ver mais conflitos das pessoas de esquerda, vai aumentar em comparação à violência de pessoas de direita. Então você acaba criando um sentimento de identidade baseado no medo do outro lado”.

Segundo ele, estes sentimentos primitivos, como o medo e o ódio, fazem com que as pessoas tenham comportamentos instintivos, sem nenhuma relação com a discussão política razoável e racional. “Hoje em dia você tem uma mudança social no mundo muito rápida. E vai pegar as pessoas que estão mais desorientadas. E as pessoas têm medo de não existir mais nesse mundo, por serem antiquadas. A partir do medo, você quer se reunir em bando, uma coisa tribal mesmo”.

O filósofo diz que isso se reflete em relacionamentos tóxicos, que são levados para os grupos sociais, originando a violência que se reflete nas ruas. “O cenário político atual é de uma cisão social que foi causada por uma campanha que estimula o medo no outro. E isso está refletindo nas famílias, entre os amigos. Os grupos de família estão tóxicos. Pois você cria pessoas tóxicas, mexendo com emoções primitivas, de medo, de raiva, de identificação de grupo, tribal. É perigosíssimo”, afirma.