07 de janeiro de 2019, 18h16

A magia de Bethânia e Zeca Pagodinho juntos ao vivo

O álbum “De Santo Amaro a Xerém” é um lindo registro de um encontro inusitado e, por essas manobras do destino, revela muito mais semelhanças do que as diferenças aparentes

Foto: Reprodução

A princípio parece o casamento da raposa com o rouxinol ou vice-versa. Aparentemente são dois universos absolutamente distintos. Dois artistas com personalidades muito diferentes também. Maria Bethânia é extremamente disciplinada, sem excessos, com a voz sempre em dia e ele, enfim, é o Zeca Pagodinho.

A despeito disso, e talvez até por isso mesmo, as coisas funcionam e o álbum “De Santo Amaro a Xerém”, com os dois artistas juntos, é um lindo registro de um encontro inusitado e, por essas manobras do destino, revela muito mais semelhanças do que as diferenças aparentes.

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A canção que alinhava o espetáculo foi feita sob encomenda por Caetano Veloso. “Amaro a Xerém” tirou o compositor de um certo ostracismo. Ele conta que não compunha nada há um tempo e não resistiu ao pedido da irmã. Além disso, Caetano é fã confesso de Zeca Pagodinho. O resultado, com os lindos versos: “Aí amor amor amaro, Aí cheirinho de Xerém, Ai amor — paro, Ai amor — vem” foi imediatamente aprovado por Zeca, que o aprendeu a cantar rapidamente, segundo conta Bethânia.

O formato do espetáculo é muito simples. Os dois abrem para, logo a seguir, cada um deles fazer um show à parte, com as suas respectivas bandas para, ao final, voltarem juntos. Os dois repertórios em separado não trazem grandes novidades a quem acompanha os dois artistas. A ligação entre eles é que nos traz o prazer e a curiosidade da viagem descrita na canção de Caetano.

Bethânia é a maior intérprete e divulgadora do samba de roda do recôncavo. Graças a ela o ritmo se tornou muito mais conhecido e executado em todo o Brasil. Mas ela não fica só por aí. Canta como ninguém Noel Rosa, Paulo Vanzolini, entre outros clássicos da nossa música, até a tropicalista “Marginália II”, de Gilberto Gil e Torquato Neto.

Zeca Pagodinho, por sua vez, ataca com o repertório onde é soberano. Os clássicos do samba carioca como “A Voz do Morro”, de Zé Kéti, até os que ele mesmo consagrou como “Verdade”, de Nelson Rufino e Carlinhos Santana, e “Lama nas Ruas”, de Almir Guineto, entre outros.

Os dois se reencontram lá na frente, onde Zeca faz um pot-pourri de sambas exaltando a Portela, enquanto Bethânia homenageia a Mangueira. Na disputa entre as duas tradicionais escolas do Rio de Janeiro quem ganha é o público.

Antes do grande final, os dois juntos ainda reservam boas surpresas para o público. O lindo samba “E daí (Proibição inútil e ilegal)”, de Miguel Gustavo; “Desde que o samba é samba”, de Caetano e Gil; “Naquela Mesa”, de Sérgio Bittencourt, este só com o Zeca, e o clássico “Chão de Estrelas”, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, em lindo dueto.

Para encerrar, de presente para a plateia, Zeca e Bethânia cantam “Deixa a vida me levar”, de Serginho Miriti e Eri do Cais, e “O que é, o que é”, de Gonzaguinha.

Ao final, a desconfiança do início permanece. São dois mundos distintos mesmo que juntos produzem a mágica de traduzir o Brasil de ponta a ponta, como insinua Caetano.

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