Marcelo Hailer

15 de março de 2019, 22h42

A masculinidade assassinou os estudantes de Suzano

Marcelo Hailer, em sua coluna, destaca que “o discurso da masculinidade, na sua quase totalidade, treina esses adolescentes masculinos para serem dominadores, violentos e máquinas de matar”

Foto: Reprodução

Não foram os games violentos, não foi a escassez material, muito menos pais dependentes químicos. A grande responsável pelo massacre dos estudantes na escola estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), foi a masculinidade: sistema de organização das mentalidades e dos corpos que promete um mundo de conquistas aos homens heterossexuais. Porém, a masculinidade não é para todos e está mais relacionada a proibições e violências do que realização e liberdade.

Praticamente todos os materiais produzidos sobre os dois jovens que cometeram o massacre em Suzano apostaram as suas fichas na questão de ambos possuírem “famílias disfuncionais”, mas, como algumas poucas matérias relataram, o adolescente de 17 anos, que, de acordo com as primeiras investigações, foi quem tramou tudo, sofria bullying ostensivamente por conta de um problema de acne no rosto, tanto é que tal realidade o levou a abandonar os estudos.

Sabemos que a escola tanto pode ser um ambiente incrível de aprendizado e preparo para a etapa seguinte da vida, como também é e pode ser um palco de horror; para muitos estudantes a escola é como um campo de batalha: tensão e violência no cotidiano. Mas, esse tipo de violência é pior entre os garotos, pois, o discurso da masculinidade, na sua quase totalidade, treina esses adolescentes masculinos para serem dominadores, violentos e máquinas de matar. Quando um deles ou vários deles não querem ou não conseguem fazer parte desse jogo da violência masculina, se tornam o alvo favorito.

O massacre de Suzano que, ao que tudo indica, teve a participação de dois jovens com 17 anos e um com 25, é a materialização barbárica daquilo que chamamos de masculinidade tóxica. Chama atenção – mas não surpreende – que Guilherme Taucci seja um admirador do atual presidente da República – em artigo anterior fiz uma análise sobre a masculinidade tóxica e o tipo masculino de Jair Bolsonaro (link do texto: https://www.revistaforum.com.br/bolsonaro-e-a-masculinidade-toxica/ ) -, mas, além da inspiração no atual mandatário do país, os jovens, de acordo com investigações, se inspiraram no massacre de Columbine e desejavam fazer algo maior do que o ocorrido nos EUA.

Para quem não se lembra:  no dia 20 de abril, de 1999, Eric Harris, 18, e Dylan Klebold, 17, mataram 12 colegas e um professor na Columbine High School, no estado do Colorado, nos EUA. Após o massacre, os dois jovens cometeram suicídio; além da matança e do suicídio, é a questão da masculinidade que liga estes atendados, pois, não esqueçamos de que não há relatos na história de massacres do tipo perpetrados por garotas adolescentes. Isso nos diz muito sobre o ambiente escolar no ensino fundamental e das perturbações provocadas pela masculinidade que não é discutida na sociedade, posto que é dado como fato natural: todos os machos são violentos e heterossexuais. Mas, isso também não significa que a vida das garotas seja um céu de brigadeiro. Além disso, me chamou a atenção – no caso brasileiro – de que quase todas as vítimas da escola Raul Brasil são garotos. Mortes aleatórias ou vingança?

Portanto – e isso é dito há tempos – para que possamos evitar novos massacres, para que possamos romper com o ciclo de violência entre os jovens é necessário um amplo e constante debate sobre as sexualidades e suas respectivas diferenças na sala de aula. Infelizmente, o horizonte nos promete mais tragédias, visto que estamos na era da “mamadeira de piroca”, liberação das armas e da perseguição dos “professores comunistas”, ou seja, dificilmente vamos avançar nesse debate dentro das escolas, mas nada nos impede de fazer por fora e colocar, cada vez mais, a violência masculina – que é um projeto político de organização social que atinge a todas e todos – em xeque.

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