Milos Morpha

por Cesar Castanha

04 de novembro de 2016, 17h58

A morte de um rei em “A Morte de Luís XIV”

Luís XIV, o Rei Sol, principal referência do absolutismo na França, jaz com os olhos escurecidos e tez pálida em uma cama de lençóis e cortinas vermelhos enquanto vultos negros circulam ao seu redor. Este momento, um dos últimos das quase duas horas de duração de A Morte de Luís XIV (dir. Albert Serra), é a consequência óbvia do filme, um ponto a que sempre soubemos que ele chegaria. Ainda assim, o modo como o vermelho da cama do rei parece rasgar a imagem e como o negro dos olhos sem vida nos encara guarda ainda algum mistério sobre o filme visto.

A primeira coisa que todos parecem observar sobre A Morte de Luís XIV, e talvez seja de fato o que há de mais marcante no filme, é a maneira como ele associa o envelhecimento de um rei absolutista ao rosto envelhecido de Jean-Pierre Léaud, o jovem ator de Os Incompreendidos que o cinema viu crescer. Nesse sentido, o filme tem algo da melancolia que vem do reconhecimento do tempo na linguagem cinematográfica, o que já vimos em alguns filmes, mas este deve ser o primeiro, desde Baleias de Agosto em que essa dor de envelhecimento e morte no cinema pesa tanto.

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O protagonista é um rei morto, ou debilitado e às vésperas de sua morte, e existe uma contradição latente nessa imagem de um homem velho, doente, cercado das pompas que seu regime instituiu à nobreza francesa. A Morte de Luís XIV, sendo realmente um filme de sua morte, contesta o tom de vida eterna que a arte hegemônica de sua época concedeu a ele, e a muitos outros. Foi também contemporânea ao regime de Luis XIV a emergência de um pensamento filosófico iluminista, que consolidava a ideia da consciência como essência e definição do homem. Aqui temos, no entanto, um rei definido pela fragilidade de seu corpo. Não há muita consciência à vista na pompa e exuberância da corte, apenas a materialidade bruta de cores fortes e maquiagens desbotadas.

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