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10 de Maio de 2018, 14h23

A perifilia do “Perifobia” de Lilia Guerra

Tomaz Amorim, em novo artigo: “A ideia de periferia é mesmo inseparável de uma 'perifobia', de um medo ou ódio ao que não se reconhece como parte do mesmo centro. O trabalho de Guerra não só denuncia isso, mas instaura uma 'perifilia', um amor ao lugar onde se está, um reconhecimento da existência inevitável e feliz de uma pluralidade infinita de centros”

Fotos: Divulgação

Em “Perifobia”, lançado em fevereiro de 2018 pela editora Patuá, toda uma poética dos grandes centros urbanos é mobilizada. Lilia Guerra, autora de outros contos e romance, reconhece uma tradição lírica antes de si que sabe mobilizar para embasar e estruturar suas histórias. Todas as histórias de barracos e escolas de samba, exclusão social e força comunitária presentes, sobretudo, mas não apenas no samba, encontra aqui encarnação literária em prosa com o ritmo e a doçura melancólica da origem. Estão presentes, apenas para dar dois entre os muitos dos que compõem as epígrafes e os enredos, Dona Ivone Lara e Cartola, assim Carolina Maria de Jesus (e se não é citado, também algo do espírito de João Antonio). Como se dá tantas vezes na história da música e da literatura, a escritora sabe buscar no manancial da lírica popular temas e formas que embasam seu trabalho. Neste processo, ela tanto enriquece a tradição escrita, quanto homenageia a grandeza daquelas tradições populares.

Apesar da catalogação e da própria descrição da escritora que caracterizam “Perifobia” como um livro de contos, ele sem dúvida também pode ser entendido como um único romance. Não apenas porque nos capítulos, os personagens e situações de uma história às vezes reaparecem e ganham desenvolvimento em outra, mas porque há um contexto narrativo coeso e comum. As histórias, os retratos às vezes impressionistas dos lugares e dos estados interiores dos personagens coexistem em um mesmo cenário literário. O fato de o foco narrativo mudar de capítulo para capítulo não contradiz a unidade, pelo contrário, ajuda a estabelecê-la. O domínio técnico de Guerra no uso dos mais variados tipos de voz – primeira e terceira pessoa, musa da sambista e goleira de final de campeonato de pelada, diálogo e monólogo – ajuda a dar complexidade e diversidade a um mundo que, no entanto, é único. É lugar em que, dentro do livro, todos os personagens habitam e, fora dele, habita a maior parte dos brasileiros: a periferia.

Um dos méritos principais do livro é justamente tirar essas palavras já gastas, a periferia, o periférico, da perspectiva de quem olha a partir do centro. A periferia não é, nem no livro, nem fora dele, exótica. O periférico não é uma vítima ou um algoz. Apenas em uma história literária tão elitista quanto a nossa, apenas em uma sociedade tão desigual, os lugares onde vive a maior parte da população e sua produção cultural pode ser reduzido a um conceito fantasmagórico tão minoritário e genérico. Nesse sentido, a ideia de periferia é mesmo inseparável de uma “perifobia”, de um medo ou ódio ao que não se reconhece como parte do mesmo centro. O trabalho de Guerra não só denuncia isso, mas instaura uma “perifilia”, um amor ao lugar onde se está, um reconhecimento da existência inevitável e feliz de uma pluralidade infinita de centros. Cada história de empregada doméstica, de menino no crime, cada barraco é o centro de um mundo, tão legítimo quanto qualquer outro, de um mundo, por difícil que seja, a ser sobretudo amado por seus habitantes e por sua vizinhança. Um centro que é narrativo, e, portanto, cultural, e, portanto, político, três níveis presentes e entrelaçados nas histórias deste livro.

No mais, além da importância política e estética evidente de uma mulher negra que avança na importante tendência recente de ampliação das vozes na literatura contemporânea brasileira, “Perifobia” é saboroso, sensível, fluido. Há algo no livro de novela das oito, de samba-canção no drama de suas misérias trabalhistas, assassinatos trágicos e amores amadores. Esses personagens que vivem histórias tão reconhecíveis (finalmente!) e ao mesmo tempo narradas em linguagem tão fresca, com ritmo condizente e escolha vocabular precisa, neologismos e inversões irônicas quando necessários, ou seja, em linguagem sem o preciosismo de quem quer participar de clube literário para sócios restritos e exclusivos. “Perifobia” é literatura menor, no sentido de Deleuze e Guattari, como toda literatura de maiorias.

Livro: Perifobia

Autor: Lilia Guerra

Ano: 2018

Gênero: Contos

Número de Páginas: 312

Formato: 14×21

Preço: R$ 42,00