09 de novembro de 2018, 18h35

A realidade acaba se impondo, diz Celso Amorim sobre a política externa de Bolsonaro

Para ex-ministro, "manter a paz não ocorre automaticamente, exige ação no sentido cooperativo. E a paz é essencial. É feito liberdade, igual ao ar, você só nota que ela é importante quando ela falta".

Arquivo/Ministério das Relações Exteriores

Diplomata desde 1965, quando graduou-se em primeiro lugar na sua turma no Instituto Rio Branco, e ex-ministro – de Relações Exteriores, nos dois mandatos de Lula, e da Defesa, no governo da presidenta Dilma Rousseff -, Celso Amorim tem uma trajetória profissional e de vida pautada na busca da paz pelo diálogo.

Em entrevista exclusiva à Fórum, o diplomata comentou – com todo cuidado com as palavras – os primeiros movimentos do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), no cenário internacional e acredita que, aos poucos, a realidade vai se impor à retórica do político que se apoiou durante seus mais de 27 anos de vida pública em gritos, bravatas e discursos de preconceito e ódio.

“Vamos ver o que vai acontecer. O que ele tem dito tem causado muita reação. Agora, a realidade às vezes acaba se impondo. É claro que, às vezes, as palavras não são ditas de maneiras inconsequentes, pois elas geram consequências – como o cancelamento da visita do atual ministro, Aloysio Nunes, ao Egito. Geram consequências inclusive no plano econômico e comercial”, disse.

Segundo ele, embora em um primeiro momento essas reações econômicas e comerciais estejam repercutindo com maior ressonância, as consequências para o papel da diplomacia brasileira no mundo podem ser bem mais amplas. “O Brasil sempre foi visto como o país que ajudava a resolver conflito, e não que criava conflitos. Algumas vezes não conseguia, mas sempre foi visto como um país trabalhando em prol da paz e do diálogo”.

Pascal Lamy e Celso Amorim (Arquivo)

Não é só o comércio, é a paz
Citando entrevista em que o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, critica o alinhamento de Bolsonaro à política de Donald Trump na Casa Branca e diz que “o Brasil que eu conheço é um país orgulhoso. Nunca um seguidor”, Amorim diz que o Brasil sempre atuou com razoável independência nos organismos multilaterais, como a própria OMC e a Organização das Nações Unidas (ONU), e que esse multilateralismo tem um papel muito importante na diplomacia brasileira.

“O prejuízo é muito grande de abandonar essa política, sem falar nos valores, nos direitos humanos, na democracia, e tudo isso também é importante. Especificamente em nossa região, não é só o comércio, é a paz. A paz na região é muito importante. O comércio na região deve ser um instrumento para consolidar a paz. Então, eu fico muito preocupado com essas declarações”, disse à Fórum.

O diplomata afirma, entretanto, que a equipe de transição de Bolsonaro está tendo um choque de realidade nestes primeiros dias de trabalho, que deve continuar nas próximas semanas.

“Nessas semanas eles estão tomando um choque de realidade e vendo que as coisas não são bem assim. Esse aparente recuo em relação à [transferência da] embaixada – o que é um absurdo, pois não é um capricho do Brasil ter embaixada em Tel Aviv, o mundo inteiro tem embaixada em Tel Aviv, com exceção dos EUA e da Guatemala, que têm embaixada em Jerusalém. Isso tem a ver com todas as resoluções da ONU, desde as que deram a independência à Israel. Em todas, Jerusalém é colocada como uma questão final. Não pode um país tomar partido agora e declarar que ela é capital de Israel. Essa é uma visão que não é só do Brasil, é da França, da Inglaterra, da Turquia”, afirmou Amorim, citando notícias divulgadas nesta quinta-feira (8), quando conversou com a Fórum, sobre um possível recuo de Bolsonaro em relação ao tema.

Reprodução/Instagram

Steve Bannon e O Movimento
Amorim disse que se surpreendeu com a estreita relação entre Steve Bannon, ex-guru de Trump na Casa Branca e criador da internacional ultra-liberal O Movimento, e o clã Bolsonaro. “Isso é uma coisa que ainda está nos surpreendendo. Não se imaginava que a influência pudesse ser tão grande. A entrevista dada por Steve Bannon à Patrícia Campos Mello, na Folha, mostra que sim, eles estavam trabalhando juntos.”

Entretanto, ele acredita que esta politica de “America First”, de Trump, é insustentável com o que Bolsonaro e o Chicago Boy Paulo Guedes pretendem implantar no Brasil.

“Eu acho que isso é insustentável, pois esse tipo de nacionalismo que o Steve Bannon prega e o Trump leva adiante com o ‘America First’, no Brasil teria de ser ‘Brasil first’, ou seja, Brasil em primeiro lugar. E ele não é compatível com essa política de privatização – que na realidade é desnacionalização, pois não há empresários brasileiros com capacidade de comprar as estatais. Portanto, é incompatível com essa política de desnacionalização. É uma contradição. Ela pode não aparecer de imediato, mas vai surgir mais pra frente. E aí vai se ver que não é possível. Embora eu não tenha nenhuma simpatia pela política do Trump, eu posso dizer que ela tem uma certa coerência. Ela defende o nacionalismo e pratica o protecionismo e uma porção de coisas desse tipo – algumas detestáveis, relativo a questão dos imigrantes -, como a proteção das indústrias de Pittsburgh”, afirma.

Para ele, acoplar o populismo nacionalista de direita de Bolsonaro a uma política ultra-neoliberal, pregada por Paulo Guedes, não só é insustentável como pode acarretar vários problemas na região.

“No Brasil você vai acoplar uma visão do populismo nacionalista de direita, que é do Steve Bannon – aparentemente -, com uma política ultra-neo-liberal, que é pregada pela equipe econômica do presidente eleito. Isso não é sustentável, além de criar enormes problemas na nossa região. O Brasil é muito grande e tem uma responsabilidade de manter a paz na região. Nós não podemos esquecer que temos 10 vizinhos. Se começarmos a ter problemas nas fronteiras com esses vizinhos – que graças ao Barão de Rio Branco, são fronteiras pacíficas – nós vamos criar um problema na América do Sul que nunca houve”.

Amorim finaliza lembrando a busca que norteou e ainda norteia sua trajetória nos inúmeros diálogos que mantém mundo afora. “Manter a paz não ocorre automaticamente, exige ação no sentido cooperativo. E a paz é essencial. É feito liberdade, igual ao ar, você só nota que ela é importante quando ela falta.”