19 de junho de 2018, 21h38

A seleção e o ovo no c(*) da galinha

Em algumas Copas do Mundo, a seleção brasileira peca pelo excesso de confiança (...) A experiência caipira, geradora desse ditado - o ovo no c(*) da galinha -, manda a gente cantar vitória só depois do jogo realizado

A seleção brasileira de 1964 (Reprodução/Arquivo Gazeta Press)

Em algumas Copas do Mundo, a seleção brasileira peca pelo excesso de confiança. Torço para que não esteja acontecendo isso agora. Lembro-me (olha aí minha idade!) de 1966. Depois de ser campeã em 1958 e 62, a seleção foi para a Copa da Inglaterra cheia de certezas. Não passou da primeira fase.

E depois de ganhar de novo, no México, em 1970, foi para a Alemanha em 1974 contando com isso do título: o ovo no c(*) da galinha. A experiência caipira, geradora desse ditado, manda a gente cantar vitória só depois do jogo realizado.

Isso vale para muitas coisas, inclusive para a política. Basta lembrar a eleição em que FHC chegou a tirar fotografia na cadeira de prefeito de São Paulo, contando a vitória como certa. Perdeu para Jânio Quadros.

Volto à seleção que foi para a Alemanha em 1974.

Muita gente esperava um repeteco de 1970. A seleção brasileira já não tinha mais Pelé, Tostão, Gerson, Clodoaldo e alguns outros grandes jogadores, mas contava ainda com alguns remanescentes de 1970: Jairzinho, Rivelino e o técnico, Zagalo. E tinha alguns craques “novos”, como Ademir da Guia (que ficou na reserva), Luís Pereira, Marinho Chagas e Paulo César Caju. Um certo estrelismo tomou conta de alguns deles, que foram para a Copa se achando o máximo, e houve até quem (se me lembro bem, o Paulo César Caju) quisesse cobrar para falar com a imprensa.

Mas havia uma novidade: a seleção da Holanda, chamada de “Laranja Mecânica”, pela cor de seu uniforme e por causa de um filme da época, chamado justamente “Laranja Mecânica”. Era avassaladora. Dava um baile em todo mundo, ganhava todas. Tinha como principal jogador o craque Cruyf, até hoje lembrado como um dos gênios do futebol.

Nas semifinais, olha lá quem era o adversário do Brasil: ela mesma, a Holanda.

O Brasil continuava sob a ditadura, havia muitos presos políticos e muita gente exilada, principalmente na Europa. E continuava aquele sentimento dúbio: torcer ou não torcer pela seleção brasileira? Eu torcia, mas meio incomodado. Afinal, muitos dos meus amigos estavam presos ou exilados. E como todo mundo, ficava impressionado com a grandeza daquele time holandês.

Trabalhando no Sesc Pompeia, destinamos um salão para todo mundo assistir aos jogos.

Nesse dia do embate contra a Holanda, o salão estava lotado, todo mundo tenso antes de começar o jogo. Estava difícil esperar uma vitória brasileira.

Um funcionário do Sesc tinha um argumento para crer na vitória do Brasil. Foi ao quadro-negro que tinha no fundo do salão e escreveu: “Deus é brasileiro”. Foi muito aplaudido.

Resolvi provocar. Fui lá, coloquei uma vírgula e continuei: “Mas tá exilado na Holanda”. Claro que levei uma baita vaia. Mas o Brasil perdeu mesmo. Só que a Holanda, então considerada invencível e dada antecipadamente como campeã antes da final, perdeu para a Alemanha, que foi a campeã.

E o Brasil não ganhou nem a disputa pelo terceiro lugar, perdeu para a Polônia, por 1 a 0.