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24 de janeiro de 2019, 18h41

A vida só é possível se for reinventada

Em sua coluna, Julian Rodrigues comenta a decisão de Jean Wyllys de abandonar o mandato de deputado federal e sair do país; "O dever primeiro de todo revolucionário é se manter vivo"

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Jean, meu querido

Que tristeza sem fim!

Me pus a lembrar aqui da primeira vez em que vi seu rostinho feliz e sagaz naquela quinta edição do BBB, quando a gente usava ainda lista de e-mails e ficamos com os dedos tortos de tanto votar pra você ganhar aquele programa. Você venceu e nos encheu a todas de orgulho. Provou que ser viado não é bagunça. Que era possível ser um intelectual progressista e, mesmo assim, jogar o jogo da indústria cultural, ganhando simpatia das massas, levando uma imagem mais positiva da homossexualidade em cadeia nacional.

Depois você lançou livro, fez roteiros – e cumpriu também a via crucis midiática dos vencedores desse tipo de reality show. Mas, você sempre foi diferente, engajado, crítico. Lembro-me quando nos conhecemos em atividades do movimento LGBT na Câmara dos Deputados, ainda em 2007. Você se colocou então como militante “político” da causa, mesmo antes de sua primeira eleição para deputado em 2010. Estivemos juntos em algumas atividades, como em uma mesa na II Conferência Nacional LGBT.

Jean, Jean: você nunca optou pela omissão, nem pelo aplauso fácil. Se posicionou sempre na vanguarda, colocando seus adversários na defensiva ao, com brilhantismo e altivez, defender os direitos humanos, os direitos sexuais e reprodutivos, a cidadania LGBT, o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Intelectualmente íntegro, não deixou de explicitar suas diferenças com o movimento social organizado, ou mesmo com a maioria da esquerda. Essa sua característica nos levou a estabelecer várias polêmicas, como nos métodos de construção da Frente Parlamentar, ou na tática, formato e argumentos da luta pela aprovação da criminalização da violência e discriminação contra LGBT. Sem falar nos embates que você travou para defender suas convicções sobre Israel ou a Venezuela.

Em nenhum momento você abriu mão da elegância, da transparência, de defender com garra suas ideias. Ao levar para o Congresso Nacional pautas como a regulamentação do trabalho sexual ou a legalização da maconha, entre tantas outras, você fez de sua atuação parlamentar uma trincheira de avanço, uma usina de bons projetos civilizatórios.

Estivemos juntos nos corredores do Congresso, tantas vezes, quando Bolsonaro vinha fazer provocações em nossos eventos. A gente se irritava, ria às vezes. Nunca poderíamos imaginar que aquele bufão caricato e fascistoide podia virar presidente da República.

Depois a barra foi pesando cada vez mais, né Jean? As ameaças e as fake news e a guerra nas redes sociais começaram bem antes para você e sempre foram muito, muito pesadas. Tudo o que aconteceu com Haddad e com o PT o ano passado, você já vinha aguentando há alguns anos. Lidar com o absurdo da violência todos os dias não é para qualquer um.

Sua resistência ao golpe parlamentar que derrubou Dilma, mesmo com todas as críticas que você (e muitos de nós também do PT) tínhamos aos limites dos governos populares, te agigantou. Você cuspiu na cara no neofascista. Você, ali, representou toda gente humilhada desse país que queria berrar e reagir! Seu mandato fez diferença, marcou época, sim, nos embates em defesa de projetos democráticos e na visibilidade positiva da causa LGBT.

Tua defesa obstinada do direito de Lula ser candidato e contra sua prisão ilegítima levou mais gente ainda a te odiar. E, quem diria, você sofreu retaliações dentro do seu próprio partido. E ainda assim, se manteve firme na luta, mesmo depois de ter perdido a amiga Marielle Franco, também preta, também pobre, também não heterossexual.

Imagino, Jean, sua dor ao ler os absurdos homofóbicos que desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio publicaram sobre você. Tento me colocar no seu lugar , enxugando gelo todos os dias, com sua brava equipe, respondendo, mapeando, processando o exército de detratores, rigorosamente todos os dias, todas as horas.

Jean, Jean, o fascista virou presidente! O sujeito em que você cuspiu, o defensor da tortura, virou presidente. Pior: descobrimos agora que ele e sua família tem laços orgânicos, de cumplicidade mafiosa com líderes das milícias, envolvidos no assassinato de Mariele. E a família criminosa que agora está no Planalto é do mesmo estado que você representa.

Sei que não foi fácil, deve ter sido dilacerante, de fato, sua decisão. Você faz bem e se preservar. O dever primeiro de todo revolucionário é se manter vivo.

E faz bem também em não acompanhar a repercussão de sua decisão. O energúmeno que está na presidência já comemorou. Seus filhos bandidos também.

São tempos de estupidez, mesmo. As pessoas estão perdidas, confusas. Nesse momento, muitas e muitos da nossa comunidade estão te julgando, de forma precipitada, superficial, destilando ressentimento, inclusive.

Entretanto, o que vale é a vida. E a luta. Parabéns pela coragem de mudar de trincheira, abrindo mão inclusive dos confortos que, apesar de tudo, um representação parlamentar pode proporcionar. Sair , às vezes, é mais difícil que ficar.

Eles não vão durar para sempre. E você continuará na peleja, de outro lugar, de outro jeito. Um abraço apertado, para você, que seguiu Cecília Meireles, e resolveu reinventar a vida para torná-la possível.

Um beijo, e até breve.