Ativismo de Sofá

29 de novembro de 2012, 11h55

A violência de gênero e o amor romântico

Esse texto foi retirado do site Pikara Magazine, a versão original é de Coral Herrera Gómez. Abaixo a tradução, feita por mim (o texto é longo, mas vale muito a pena).

O amor romântico é a ferramenta mais potente para controlar e submeter as mulheres, especialmente nos países em que são cidadãs de plenos direitos e onde, legalmente, não são propriedade de ninguém. 
São muitos os que sabem que combinar o carinho com os maus-tratos serve para destruir a autoestima de uma mulher e provocar sua dependência, por isso utilizam o binômio maus/bons tratos para deixá-las perdidamente apaixonadas e assim poderem dominá-las. 
Um exemplo disso é Káliman, cafetão mexicano que explica como prostituir as mulheres: Escolhe-se as mais pobres e necessitadas, preferencialmente aquelas que estão desejando sair do inferno caseiro em que vivem ou aquelas que precisam urgentemente de carinho porque se encontram isoladas socialmente.  Os cafetões seguem um roteiro para a perfeição: Primeiro as enchem de amor, atenção e presentes durante dois meses, fazendo com que elas acreditem que são as mulheres da vida deles e que sempre terão dinheiro disponível, tanto para as necessidades quanto para os caprichos. Depois jogam-nas cerca de dois dias em um prostíbulo para que as moças “façam terapia”: se resistem, brigam, se enfezam é melhor deixar que passem esse tempo sozinhas. Jamais se pede perdão. É necessário que sofram até que seu orgulho desmorone e se coloquem de joelhos, aceitando a derrota. 
O macho deve se manter firme, mostrar seu desprezo, deixá-la nos momentos de raiva e nunca ter piedade das lágrimas da esposa. Essa técnica lhes assegura que ela atenda seus desejos e trabalhe para ele nas ruas ou em prostíbulos; a maioria delas não tem para onde ir e, segundo eles, uma vez que provam do luxo não querem voltar para a pobreza. 
Esse relato de horror é muito comum no mundo inteiro. Não somente cafetões, mas também muitos namorados e maridos tratam as mulheres como éguas selvagens que precisam ser domesticadas para que sejam fiéis, submissas e obedientes. Muitos seguem acreditando que as mulheres nasceram para servir e amar aos homens. E muitas de nós, mulheres, seguimos acreditando nisso também. 
“Por amor” nos apegamos a situações de maus-tratos, abusos e explorações. “Por amor” nos unimos a homens horrendos, que a princípio parecem príncipes encantados, porém que logo nos enganam, se aproveitam de nós ou vivem às nossas custas. “Por amor” aguentamos insultos, violência, desprezo. Somos capazes de nos humilhar “por amor” e ainda nos gabarmos por nossa intensa capacidade de amar. “Por amor” nos sacrificamos, nos anulamos, perdemos nossa liberdade, perdemos nossas redes sociais e afetivas. “Por amor” abandonamos nossos sonhos e metas, “por amor” competimos com outras mulheres e nos tornamos eternamente inimigas, “por amor” deixamos tudo… 
Este “amor” quando chega, faz de nós mulheres de verdade, nos dignifica, nos deixa puras, dá sentido a nossa vida, nos dá status, nos coloca acima do resto dos mortais. Este “amor” não é somente amor: É também uma salvação. As princesas dos contos de fadas não trabalham: são mantidas pelo príncipe. Em nossa sociedade, alguém que te ame é sinônimo de êxito social, ser escolhida por um homem te dá valor, te faz especial, te faz mãe, senhora. 
Esse “amor” nos prende em contradições absurdas “deveria deixá-lo, porém não posso porque o amo/porque com o tempo ele irá mudar/porque ele me quer/porque é o que tenho”. É um “amor” baseado na conquista e na sedução e em uma série de mitos que nos escravizam, como o de que “no amor tudo pode”, ou o de que “uma vez que se encontra a sua metade da laranja é para sempre”. Esse “amor” nos promete muito, porém nos enche de frustração, nos aprisiona a seres para quem damos todo o poder sobre nós, nos sujeita a papéis tradicionais e nos pune quando não nos ajustamos ao que foi estabelecido para nós. 
Esse “amor” nos transforma também em seres dependentes e egoístas, porque utilizamos estratégias para conseguir  o que queremos, porque nos ensinam que é preciso dar para receber e porque esperamos que o outro “abandone o mundo” do mesmo modo que nós fazemos. Tanto que o “amor” que sentimos nos transforma em seres amargurados que vomitam diariamente censuras e reclamações. Se alguém não nos ama como nós amamos, esse “amor” nos faz vitimistas e chantagistas (“eu que daria tudo por você”). 
Esse “amor” nos leva ao inferno quando não somos correspondidas, ou quando somos traídas, ou quando nos abandonam: porque quando nos damos conta estamos sozinhas no mundo, sem amigas e amigos, familiares ou vizinhos, dependentes de um homem que acredita ter o direito de poder decidir por nós.
Por isso esse “amor” não é amor. É dependência, é necessidade, é medo da solidão, é masoquismo, é uma utopia coletiva, porém não é amor. 
Amamos patriarcalmente: O romantismo patriarcal é um mecanismo cultural para perpetuar o patriarcado muito mais potente que as leis: A desigualdade está aninhada em nossos corações. Amamos desde o conceito de propriedade privada e desde a base da desigualdade entre homens e mulheres. Nossa cultura idealiza o amor feminino como um amor incondicional, abnegado, entregue, submisso e subjugado. As mulheres são ensinadas a esperar e amar um homem com a mesma devoção que se ama a deus e se espera Jesus Cristo. 
A nós mulheres nos foi ensinado a amar a liberdade do homem e não a nossa própria. As grandes figuras da política, da economia, da ciência e da arte tem sido sempre os homens. Admiramos os homens e os amamos a medida em que são poderosos; as mulheres privadas de recursos econômicos e propriedades precisam dos homens para sobreviver. 
A desigualdade econômica por razões de gênero leva a dependência econômica e sentimental das mulheres. Os homens ricos nos parecem atraentes porque tem dinheiro e oportunidades. E porque somos ensinadas desde pequenas que a salvação está em encontrar um marido. Não nos foi ensinado a lutar para que tenhamos os mesmos direitos, mas sim a estar bonita e conseguir alguém que te mantenha, te queira e te proteja, ainda que para isso tenha que ficar sem amigas, ainda que tenha que se unir a um homem violento, desagradável, egoísta ou sanguinário. 
O exemplo mais claro que temos são os chefes do narcotráfico: Tem todas as mulheres que quiserem, tem todos os carros, drogas, tecnologias que quiserem, tem todo o poder para atrais as moças solitárias, sem recursos nem oportunidades. 
A desigualdade estrutural que existe entre mulheres e homens se perpetua por meio da cultura e da economia. Se gozássemos dos mesmos recursos econômicos e pudéssemos criar nossos bebês em comunidade, não teríamos relações baseadas na necessidade, acredito que amaríamos com muito mais liberdade, sem interesses econômicos por medo. E diminuiria drasticamente o número de adolescentes pobres que acreditam que engravidando vão garantir o amor do macho ou ao menos uma pensão alimentícia durante anos de sua vida. 
Os homens também são ensinados a amar a desigualdade. A primeira coisa que aprende é que quando uma mulher se casa com ele é “sua mulher”, algo parecido com “meu marido”, porém pior. Os homens tem duas opções:  ou se deixam amar desde acima (machos alfa), ou se ajoelham ante à amada em sinal de rendição (escravo). Os homens parecem manter-se tranquilos enquanto são amados, já que a tradição os ensina que não devem dar muita importância para o amor em suas vidas, nem deixar que as mulheres invadam todos os espaços, nem expressar em público seu afeto. 
Toda essa convenção é rompida quando a esposa decide se separar e dar início, sozinha, ao seu próprio caminho. Como em nossa cultura vivemos o divórcio como um trauma total, as ferramentas das quais os homens dispõem são poucas: podem se resignar, deprimir, se autodestruir (alguns se suicidam, outros se envolvem em uma luta até a morte, outros dirigem em alta velocidade na contramão) ou reagir com violência contra a mulher que diz amar. 
Aqui é quando entra em jogo a maldita questão da “honra”. A maior exposição do padrão duplo: Os homens perseguem as mulheres de maneira natural, as mulheres devem morrer assassinadas se cedem aos seus desejos. Para os homens tradicionais, a virilidade é um orgulho e está acima de qualquer meta: Pode-se viver sem amor, porém não sem honra. 
Milhões de mulheres morrem diariamente por “crimes de honra” a mando de seus maridos, pais, irmãos, amantes ou por suicídio (obrigadas por suas próprias famílias). Os motivos: Falar com um homem que não seja seu marido, ser estuprada ou querer se divorciar. Um único rumor pode matar qualquer mulher. E essas mulheres não podem construir uma vida própria fora da comunidade: Não tem dinheiro, não tem direitos, não são livres, não podem trabalhar fora de casa, não há forma de escapar. 
Contudo, as mulheres que gozam de direitos também se veem presas em suas relações matrimoniais ou sentimentais. Mulheres pobres e analfabetas, mulheres ricas e cultas: A dependência emocional feminina não distingue classes sociais, etnias, religiões, idades ou orientações sexuais. São muitas em todo planeta as mulheres que se submetem a tirania do “aguente por amor”. 
O amor romântico é, nesse sentido, uma ferramenta de controle social e também um anestesiador. Nos vendem-no como uma utopia possível, porém a medida que vamos caminhando em direção a ele, buscando a relação perfeita que nos faça felizes, achamos que a melhor forma de se relacionar é perdendo a própria liberdade, e renunciando tudo com o objetivo de assegurar a harmonia matrimonial. 
Nessa suposta harmonia, os homens tradicionais desejam esposas tranquilas que os amem sem pedir nada (ou muito pouco) em troca. Quanto mais deteriorada está a autoestima das mulheres, mais elas se vitimizam e mais dependentes são. Por isso mais dificuldade tem em entender que o amor de verdade não tem nada a ver com a submissão, nem com o sacrifício, nem com resistência. 
O casal é o pilar fundamental de nossa sociedade. Por isso a Igreja, os bancos penalizam as solteiras e promovem o matrimônio heterossexual; quando o amor acaba ou se rompe vivemos como um fracasso, como um trauma. Nos desesperamos completamente: Não sabemos separar nossos caminhos, não sabemos tratar com carinho alguém que quer se afastar de nós ou que encontrou uma nova parceira. Não sabemos como administrar as emoções: Por isso é tão frequente a troca de ameaças, insultos, vinganças entre os cônjuges. 
E por isso também tantas mulheres são castigadas, maltratadas e assassinadas quando decidem se separar e reiniciar suas vidas. A quantidade de homens que não possui ferramentas para enfrentar uma separação é muito maior: Desde pequenos aprendem que devem ser os reis e que os problemas são solucionados com violência, impondo sua autoridade. Seus heróis não choram, a não ser que alcancem seus objetivos (como ganhar uma copa de futebol ou exterminar os androides). 
O que nos ensinam nos filmes, contos, novelas, séries de televisão é que as mocinhas dos heróis os esperam com paciência, os adoram, cuidam e estão sempre dispostas para se entregar ao amor quando eles tiverem tempo. As moças da publicidade oferecem seus corpos como mercadoria, as boas moças dos filmes oferecem seu amor como prêmio pela valentia masculina. As boas moças não abandonam seus maridos. As moças más que acreditam ser donas de seus corpos e sua sexualidade, que acreditam ser donas de suas próprias vidas, que se rebelam, sempre acabam tendo seu castigo merecido (a prisão, doença, ostracismo social ou a morte). 
As moças más não são somente odiadas pelos homens, mas pelas boas moças também, porque desestabilizam toda a ordem “harmônica” das coisas quando tomam decisões e rompem com as amarras. Os meios de comunicação de massa nos apresentam os casos de violência contra a mulher como crimes passionais, e justificam os assassinatos e a tortura com expressões como “ela não era uma pessoa muito normal”, “ele havia bebido”, “ela estava com outra pessoa”, “ele, quando descobriu, enlouqueceu”. E se a matou foi porque “algo ela havia feito”. A culpa então recai sobre ela e a vítima é ele. Ela pisou na bola e merece um castigo. Ele merece se vingar para acalmar sua dor e reconstruir seu orgulho. 
A violência é um componente estrutural de nossa sociedade desigual, por isso é necessário que o amor não se confunda com possessão, da mesma forma que não devemos confundir a guerra com “ajuda humanitária”. Em um mundo onde utilizamos a força para impor ordens e controlar as pessoas, onde exaltamos a vingança como mecanismo para administrar a dor, onde utilizamos o castigo para corrigir desvios e pena de morte para reconfortar os lesados, é necessário mais do que nunca aprendermos a nos querer bem. 
É vital que entendamos que o amor deve estar baseado no bom trato e na igualdade. Porém não somente ao cônjuge, mas a sociedade inteira. É fundamental estabelecer relações igualitárias, nas quais as diferenças sirvam para nos enriquecer mutuamente, não para submetermos uns aos outros. É também essencial empoderar as mulheres para que não vivamos sujeitas ao amor e também ensinar aos homens a administrar suas emoções, para que possam controlar sua ira, sua impotência, sua raiva e seu medo, e para que entendam que as mulheres não são objetos pessoais, mas sim companheiras de vida. 
Além disso, devemos proteger os meninos e as meninas que sofrem em casa a violência machista, porque terão que suportar a humilhação e as lágrimas de sua heroína, sua mãe, porque terão de aguentar os gritos, os tapas e o medo, porque terão de viver aterrorizados, porque são órfãos, porque o mundo deles é um inferno. 
É urgente acabar com o terrorismo machista: Na Espanha o machismo já matou mais pessoas que o terrorismo nos Estados Unidos. No entanto, as pessoas se indignam mais ante ao segundo, saem para as ruas para protestar contra a violência, cuidam de suas vítimas. O terrorismo machista é considerado uma questão pessoal que afeta determinadas mulheres, por isso muita gente que ouve gritos de socorro não reage, não denuncia, não intervém. 
Dando uma olhada nos números, podemos perceber que o pessoal é político e também econômico: A crise acentua o terror, pois muitas não podem considerar se separar, e o divórcio se dá para os casais que podem se permitir isso economicamente. Uma prova disso é que agora se denunciam menos casos e em algumas ocasiões as mulheres são deixadas para trás; com os custos judiciais aprovados na Espanha, as mulheres mais humildes nem se dispõem a ir denunciar: apelar para a justiça é coisa de rica. 
É urgente trabalhar com homens (prevenção e tratamento) e proteger as mulheres e seus filhos e filhas. Devemos empoderar as mulheres, porém devemos trabalhar também com os homens, se não toda luta será em vão. É necessário promover as políticas públicas para que tenham um enfoque de gênero integral e é necessário que os meios ajudem a gerar uma rejeição generalizada a essa forma de terror instalado em tantos lugares do mundo. 
É necessária uma mudança social, cultural, econômica e sentimental. O amor não pode estar baseado na propriedade privada, e a violência não pode ser uma ferramenta para solucionar problemas. As leis contra a violência de gênero são muito importantes, porém precisam vir acompanhadas de uma mudança em nossas estruturas emocionais e sentimentais. Para que isso seja possível temos que transformar nossa cultura e promover outros modelos de relacionamentos amorosos que não estejam embasados em lutas de poder para dominarmos ou nos submetermos. Outros modelos de femininos e masculinos que não estejam embasados na fragilidade de umas e na brutalidade de outros. 
Temos que aprender a romper com os mitos, a nos livrar da imposições de gênero, a dialogar, a desfrutar das pessoas que nos acompanham pelo caminho, a nos unir e nos separar com liberdade, a tratarmos com respeito e ternura, a assimilar as perdas, a construir relações bonitas. Temos que romper com os ciclos de dor que herdamos e reproduzimos inconscientemente, e temos que libertar as mulheres, os homens e os que não são nem uma coisa nem outra, do peso das hierarquias, da tirania dos papéis e da violência. 
Temos que trabalhar muito para que o amor se expanda e a igualdade seja uma realidade para além dos discursos. Por isso esse texto é dedicado a todas as mulheres e homens que lutam contra a violência de gênero em todos os pontos do planeta: Grupos de mulheres contra a violência, grupos de autorreflexão masculina, autores e autoras que investigam e escrevem sobre esse fenômeno, artistas que trabalham para dar visibilidade a esse mal social, políticos e políticas que trabalham para promover a igualdade, ativistas que saem às ruas para condenar a violência, professores e mestres que fazem seu trabalho de sensibilização nas aulas, ciberfeministas que recolhem assinaturas para dar visibilidade a assassinatos e impulsionar leis, líderes e lideranças que trabalham nas comunidades para erradicar o maltrato e a discriminação das mulheres. A melhor forma de lutar contra a violência é acabar com a desigualdade e o machismo: analisando, tornando visível, desconstruindo, denunciando e reaprendendo junt@s.

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