Suicídio? Até não sobrar ninguém.

Por Allan da Rosa, (Imagem: Divulgação)...

Por Allan da Rosa,

(Imagem: Divulgação)

Quebraram os dentes de Kaíque, um a um. Daquela boca de 16 anos, estudante, poderiam sair perguntas que sempre coçam na orelha de quem aprova as emendas do medo e do ódio. A carne que entra e que sai daquela boca, não sendo a das baias penosas do frigorífico que paga a propaganda do jornal, a plastificada com hormônios e fezes pra janta da buona família, lhes enoja. Mas imaginar beijo e carinho naquela boca… Naquela boca o amém deveria abençoar a raiva, pelos bons costumes, por algum deus que ordenhe o rebanho em dólares. Que teste a fidelidade do gado nos votos sagrados, nos partidos da moral. Que elege quem é mais gente de bem pela forma como se deita e com quem.

Cravam bastão de ferro em sua perna e a delegacia oficializa suicídio! Petulância dessa perna andar fora do campo de concentração? Que no máximo dance num baile esfumaçado e neon. Aquela perna ainda ia à escola secundária. É mais uma jovem que tombou no abate. Se não comprou calção e chuteira do patrocinador, se usava saia, isso afrontava a virilidade de quem mata. Aquela perna era negra, assim tinha ainda mais naipe de gado pra se queimar, era mais bife pra se talhar, no estatuto da Ku Klux Klan paulistana, a dirigente que se assume em brados ou a que disfarça e se cala pra não macular a sua macheza, a que encontra um desafogo no culto antes de voltar pras farpas do barraco ou a que assume a lança da purificação e segue a pregação que define a morte (e a tortura) aos seus demônios.

Marcas várias de porrada na cabeça, traumatismo craniano e intracraniano. O pavor que essa cabeça pense, flutue sua filosofia, cultive sua ética de acordo com seus afetos e arrepios. Pânico no templo baseado no dízimo raivoso. Esse crânio esbagaçado (suicídio?!), pudesse seria logo esfarelado, caso não convertido, por quem aprova e desaprova leis e paraísos, emendas constitucionais e purgatórios, a quem define quem é merecedor de glória e quem é sub-gente. Pudesse, já a caneta que em nome de algum versículo desabona a humanidade gay, esfarelava essa mente, esse crânio, ainda na reza.

Existe uma paulada em cada piada nas transmissões de futebol, no boteco, no seriado da tevê, nos auditórios dos humoristas que reverenciam os donos da gravata e do aço, nos livros didáticos.

Os governos todos, destacando o federal, se curvam diante dessa matança programada e abençoada. Apenas em nome das alianças, da governabilidade? Por isso censura imagens sagradas de matriz africanas em novos materiais de luta anti-racista? Concorda nos bastidores, mas corta pra não polemizar com a insânia de uma multidão eleitoral domada pelos palanques ungidos, ali onde punição, pânico e martírio são as regras do tabuleiro.

Entre os prédios com zeladores bem treinados, seguros, com alarme que detecta até o cheiro de quem chegue de boné e tenha a pele preta, erguem-se também palácios cravejados de luz com dízimos bem aplicados, cercas largas que o rebanho só aumenta.

E o que surge como inverso, matéria de espetáculo e vitrine, o que ameniza? País que a cada manhã pronuncia que tem algo que é ‘a maior do mundo’, seja a floresta, o lápis, a avenida. Que tem a maior balada gay do planeta. Por isso então os casos de caixão devem estar à altura? Por isso a homofobia daqui deve ter mais cadáveres pra escarrar, pela lei que algum senador diz ser dos céus ou que algum fardado define ser a dos porões.

Chega! Pelo Amor de todos os deuses. Não aguentamos mais falar de morte, de penitenciária. Não aguentamos mais escrever, cantar nem gritar na rua a palavra genocídio. Nem mesmo a legítima defesa é um sorriso em nosso gesto, em nossa memória.

Mas quanta ingenuidade achar que pedir ‘chega’ daria alguma coisa… se a cada minuto nos últimos cinco séculos é de colete à prova de balas, de veneno na água, de forca, de choque no porão, de enquadro cotidiano e de safanão por dentro das cortinas bem casadas que se faz a história desse povo pacífico e de boa índole.