Anarca é a mãe

26 de maio de 2015, 08h36

Aberração

Encontrado em http://ckkellymartin.blogspot.com.br/2009/01/pink-boxblue-box.html

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Eu acho que sempre soube que gostava de meninas; de certa forma, soube disso até antes de saber que também gostava de meninos.

Eu sabia disso mesmo antes de saber verbalizar isso, construí-lo com palavras, elaborar, enunciar. Eu simplesmente gostava. Carinho, ternura, admiração, vontade de estar junto, de ter contato físico.

Eu não tinha um problema por gostar de meninas. Eu não vivia com medo nem vergonha por gostar de meninas. Era um gostar, simplesmente, tão natural em mim quanto era (naquele ponto) gostar de mim mesma. Foi só a partir do momento em que as pessoas ao meu redor me deixaram claro o quanto aquilo não era aceitável, o quanto aquilo era “feio”, que eu comecei a sentir um mal-estar enorme toda vez em que pensava nisso.

Esse mal-estar aumentava a sempre que a  cis-heteronormatividade era reafirmada. Quando a inadmissibilidade da relação romântica entre pessoas de mesmo sexo era repisada, fosse diretamente, por meio da chacota e outras demonstrações abertas de homo/lesbo/bifobia, fosse indiretamente, por meio da quase que completa ausência de casais não hétero na mídia e ao meu redor, especialmente agindo com naturalidade e demonstrando afeto. Ficava sempre a sensação de clandestinidade, sordidez. De segredo asqueroso. Somava-se a isso o fato de eu me sentir como uma menina não muito menina e isso ser, também, algo muito atacado a todo momento – a “falta de feminilidade”, a não adequação ao estereótipo feminino, quando se foi designada menina ao nascer.

Não se trata de um mero desconforto. Eu me sentia rejeitada, errada, inadequada. Tinha um temor profundo de perder o amor da minha família, ser desamparada, excluída, ficar só. Medo de que ser quem eu era fosse fazer com que as pessoas que eu mais amava no mundo me abandonassem. Medo de que se dessem conta de que eu era uma aberração, um monstro sujo e nojento. Porque era assim que me sentia.

Era também, hoje entendo, um medo de morrer. Tanto simbolicamente, no sentido de sufocar dentro de mim a minha própria essência, quanto literalmente, como qualquer criança diante da possibilidade (real ou imaginária) de ser desamada por sua família, já que, na mente infantil, muitas vezes a perda do amor familiar aparece como sinônimo da morte.

Mas eu continuava gostando de meninas. E sentindo tesão por elas, tão logo passei a sentir “tesão” nomeado como tesão, ainda que só internamente, só para mim. E tive experiências sexuais com meninas, mesmo antes de me assumir bissexual diante de um espelho, diante do mundo.

A cis-heternormatividade, portanto, não me fez “entrar nos eixos”. Só fez com que eu me odiasse. Só fez com que eu sentisse nojo de mim mesma. Só fez com que eu me deprimisse e pensasse em morrer e em me matar. Aliás, a uma certa altura, para mim, não bastava morrer, o que eu queria era deixar de existir; a ideia de uma vida após a morte, eternamente presa a mim mesma, me era torturante. Eu não queria ser nenhuma outra pessoa, não queria mudar o meu nome, mas não queria ser eu.

Hoje me dou conta da repressão que sofri, da minha sexualidade, da minha identidade e identidade de gênero – sim, porque eu sentia como se não tivesse o direito de me dizer menina, moça, mulher, porque não me enquadrava no que as pessoas esperavam de uma menina, moça, mulher.

Não apenas por não ser hétero (o que, em si, já é um desafio aos estereótipos de gênero; não é à toa que tanta gente confunde orientação sexual com identidade de gênero), mas por estar irremediavelmente fora do padrão de beleza. Isso era muito doloroso para mim, porque eu havia sido criada e educada (por família, escola e sociedade) para acreditar que o meu maior objetivo na vida era ser sexualmente atraente para os homens – e invejada pelas mulheres por isso. Essa era a definição de mulher na minha cabeça e eu não me encaixava nela. Assim, por muito tempo, me senti muito deslocada no meu gênero.

Por tudo isso, entendo que reconhecer-se não-hétero não se resume a sexo. Sexo é só a parte que fica mais à mostra, como a ponta de um iceberg. Acolhermos nossa sexualidade e identidade de gênero e assumi-las (ainda que apenas para nós mesmes) é nos olharmos com amor e aceitação incondicionais, com um carinho que, na maior parte das vezes, nos faltou por tempo demais. É nos permitirmos lamber feridas que, muitas vezes, passamos a nossa vida inteira fingindo que não estavam lá.

E que não precisariam estar lá. Que não deveriam estar lá. Que nunca deveriam ter sido causadas para começo de conversa.

Impedir que crianças e adolescentes ouçam a respeito da diversidade sexual e de gênero não é impedir que “se tornem” não-hétero ou trans. É impedir que as crianças e adolescentes que JÁ SÃO (sim, já são! Não adianta tentar bater, curar, doutrinar, o que for) trans ou não-hétero obtenham um apoio que pode ser vital para lidar com algo tão imenso e tão complexo a respeito de si mesmas. E, além disso, é impedir a sensibilização e desenvolvimento de empatia das crianças que estão dentro do padrão em relação às que não estão.

Não temos (felizmente) o poder de transformar a sexualidade e o gênero de outra pessoa, mas temos o poder de influenciar a forma como elas se sentirão a esse respeito, a respeito de quem são. Se, ao lidarem com as agressões que eventualmente sofrerem do mundo outrefóbico ao seu redor, conseguirão enxergar que o problema não está nelas, mas nele.

Eu não tenho medo de que mes filhes não sejam hétero, ou sejam trans. Eu não “preferiria” que não fossem também, porque prefiro que sejam quem são, sem preocupação com o que EU prefiro ou deixo de preferir. E também não tenho medo do que eles vão passar fora de casa por conta das pessoas ignorantes que povoam o mundo, porque, infelizmente, faz parte da vida lidar com elas.

Eu tenho medo de eu mesma não saber dar a eles o acolhimento de que precisam para ser quem são sem medo de perder o meu amor por isso. Eu tenho medo de que sofram sem me procurar.

Eu tenho medo de que a porta no armário (o armário que for) tenha o meu nome, o meu rosto, o meu colo. De que cada afago meu incuta neles a necessidade de continuar “merecendo” meus afagos, como se meu amor estivesse condicionado a qualquer coisa que seja.

Eu tenho medo de eu ser a pessoa cujo desamor ecoe em cada xingamento, olhar feio ou agressão vida afora.

Eu tenho medo não conseguir mostrar a eles que eles são fundamentalmente dignes de respeito, amor, carinho e atenção simplesmente por existirem.

É disso que eu tenho medo.

 


 

Aqui em Campinas, o vereador Campos Filho (que não me surpreende em nada saber que é do DEM) propôs uma alteração na lei orgânica do município para que nela conste a proibição de qualquer medida ou política que inclua na grade curricular ou na rotina des alunes nas escolas discussões sobre “ideologia de gênero, o termo gênero ou orientação sexual”.

Para esse cidadão, “O gênero é natural. Tentar impor outra ideologia causaria um dano terrível à família. É dela a responsabilidade de dizer qual caminho seguir ou não, quando os filhos ainda são crianças”.

Eu tento e tento e não consigo entender por que as pessoas se sentem tão atacadas por algo que não lhes diz respeito em absoluto. De que forma a sexualidade ou identidade de gênero de outra pessoa posa tamanha ameaça a elas.

Não é responsabilidade da família “dizer qual caminho seguir”. Não cabe a NINGUÉM de fora de um indivíduo se meter em algo tão íntimo, tão pessoal e tão delicado. Cabe à própria pessoa descobrir-se por si mesma (e seria lindo e ideal que pudesse contar com o apoio das pessoas que ela ama nesse processo) e, ao restante, se não apoiar, respeitar e aceitar.

Haverá um ato nesta quarta-feira, dia 27/05, às 18h, em frente à Câmara Municipal de Campinas para manifestar repúdio à proposta do vereador. Me encontrem lá!