ASSISTA
07 de Maio de 2014, 22h37

Abortar não faz de você uma pessoa ruim, diz Emily Letts

A norte-americana de 25 anos postou na internet um vídeo do seu próprio aborto. "Minha esperança é que alguém, em algum lugar, veja isso e encontre um pouco de orientação, força, apoio"

A norte-americana de 25 anos postou na internet um vídeo do seu próprio aborto. “Minha esperança é que alguém, em algum lugar, veja isso e encontre um pouco de orientação, força, apoio”

Por Redação

O vídeo já tem mais de 588 mil visualizações no Youtube. Ao apertar o play, o que se vê é uma sequência de cenas protagonizadas por uma jovem loira, de pele branca e olhos azuis. Olhando para a câmera, ela aparece vezes descontraída, vezes tensa. “Oi, meu nome é Emily Letts. Descobri que estou grávida. Não estou pronta para ter um filho. Abortarei amanhã de manhã”, diz, logo nas primeiras imagens.

Emily, de 25 anos, ficou conhecida nos Estados Unidos depois de postar na internet, em março, um vídeo de seu próprio aborto. Ela mora no estado de Nova Jersey, onde a interrupção da gravidez é legalizada. Trabalha, inclusive, em uma clínica especializada em abortos.

Sua atitude gerou polêmica na rede. Houve mensagens de apoio. “Eu acho que Emily Letts é incrivelmente corajosa por ter compartilhado pela internet sua trajetória para fazer um aborto”, disse uma garota no Twitter. Na mesma rede social, chegaram também manifestações de repúdio. “Estou com nojo dessa mulher” e “Emily Letts festeja seu aborto. Sou a favor do direito de decidir, mas a forma como ela abordou isso foi revoltante” foram apenas algumas delas.

Frente ao debate provocado pelo vídeo, a revista Cosmopolitan deu a Emily um espaço para que explicasse porque resolveu filmar o seu aborto. Em um longo texto, ela fala sobre sua decisão. Mas há uma frase que resume bem a sua intenção: “Eu queria mostrar que [abortar] não foi assustador – e que existem histórias positivas sobre aborto. Existe a minha história.”

A experiência de Emily tem o respaldo de um estudo, divulgado em 2012, pela Universidade de Columbia. Segundo a pesquisa, a probabilidade de morte durante um aborto realizado de forma segura é 14 vezes menor do que as chances de morte durante o parto.

“Trabalhando em uma clínica de abortos, você sempre pensa que está grávida.” Por isso, Emily diz que frequentemente faz testes de gravidez. “Certa vez, fiz um teste, e apareceram duas linhas cor-de-rosa. No momento que uma mulher vê essas duas linhas cor-de-rosa, mas não está esperando vê-las, é como se o tempo implodisse e explodisse simultaneamente. Você é levada por um tornado que suga todo o ar de seus pulmões”, descreve.

“Quando recuperei meu fôlego, soube imediatamente que abortaria. Sabia que não estava pronta para cuidar de uma criança”, continua. A gestação estava no começo, com apenas duas ou três semanas. Ela conta que tinha consciência da má repercussão que as imagens poderiam gerar. Mesmo assim, escolheu ir em frente. “Sei que é estranho, mas, para mim, foi muito parecido com um parto. Sempre será uma memória especial. Ainda tenho meu ultrassom, e se um dia meu apartamento pegasse fogo, seria a primeira coisa que eu salvaria.”

Algumas mulheres a procuraram. Uma delas disse que havia abortado naquela mesma semana e se sentia culpada, mas que, por causa do vídeo, sua recuperação estava sendo mais fácil. Foram casos como esse, presenciados por Emily diariamente em seu trabalho, que a motivaram a registrar seu procedimento. “Até mulheres que vêm à clínica decididas dizem sentir culpa por não sentir culpa. Mesmo sabendo que é a melhor decisão para elas, pressionam a si mesmas a se sentir mal”, revela.

A ideia de levar a público algo que a maioria das pessoas quer esconder foi a maneira que Emily encontrou de mostrar ao mundo que interromper uma gestação não desejada é um direito da mulher sobre seu próprio corpo. Uma decisão que pertence só a ela. “Minha esperança é que alguém, em algum lugar, veja isso e encontre um pouco de orientação, força, apoio, ou qualquer coisa de que precise nesse momento. Quero dizer para essa pessoa que ela não está sozinha. Abortar não faz de você uma pessoa ruim, uma mulher ruim, uma mãe ruim. É simplesmente uma etapa da sua história reprodutiva”, conclui a jovem.

Foto de capa: Reprodução/Youtube