Cinegnose

por Wilson Ferreira

02 de abril de 2015, 18h50

Ação e reação na crise da telenovela “Babilônia”

O que há em comum entre a física newtoniana e os estudos sobre psicopatologia do psicanalista Wilhelm Reich? Tudo, pelo menos no caso da atual crise de audiência da novela da TV Globo “Babilônia”. A rejeição de telespectadores e grupos evangélicos pregando o boicote à telenovela nas redes sociais (tudo motivado pelo beijo de um casal de idosas lésbicas) tem uma relação direta com a pesada atmosfera política atual alimentada diariamente pela TV Globo através do telejornalismo e teledramaturgia. Lei newtoniana de ação e reação: clima de intolerância e radicalismo político converte-se em conservadorismo moral, sexual e de caráter que atinge em cheio o principal produto da grade da TV Globo – a novela do horário nobre. Além disso, a crise de “Babilônia” guarda paralelos com outra crise global: a da novela “O Dono do Mundo” de 1991, também de Gilberto Braga, em um contexto pré-impeachment de Fernando Collor de Mello.

Toda ação resulta numa reação oposta e de igual intensidade. Não há como deixar de lembrar desse princípio clássico da física newtoniana na atual crise que envolve a novela do horário nobre da TV Globo chamada Babilônia. Depois dos 46 pontos que a novela anterior Império marcou na sua última semana, Babilônia despencou para 23 pontos. Portanto, abaixo da novela das 19h e do reality Big Brother Brasil. Isso, no horário mais caro da TV brasileira.

A novela de Gilberto Braga surge nas telas num momento onde se acirra a contradição vivida pela TV Globo: de um lado, nos últimos anos vem assumindo o papel de partido de ferrenha oposição política ao Governo Federal; e do outro, a necessidade comercial de reerguer a audiência em queda com a crescente concorrência da Internet e os novos dispositivos móveis de comunicação.

Apesar da queda vertical da audiência, a Globo vem mantendo o crescimento da receita publicitária graças ao conhecido BV – “Bonificação por Volume”, propina legalizada onde a Globo adianta para as agências as verbas que elas planejam gastar no ano. Isso garante a fidelidade das agências em colocar dinheiro na TV Globo. 

Silvio Santos: “eu também vejo Netflix”

Mas a Globo sabe que essa estratégia que aplica há décadas está com seus dias contados, como sinalizam diversos acontecimentos: o crescimento de uma mídia disruptora como é a Internet; a declaração de Sílvio Santos de que ele próprio assiste ao Netflix; o fantasma da regulamentação da Lei dos Meios; a entrada do instituto de pesquisa alemão GfK que vai medir a audiência quebrando o monopólio do Ibope; e a recente vitória do SBT na Justiça de sentença de 2003 que obriga o Ibope a revelar a sua “caixa preta” – dados confidenciais da sua metodologia de aferição da audiência.

Paralelo a essas ameaças à sobrevivência comercial, ao mesmo tempo se vê compelida a criar em seus telejornais e até em minisséries como Felizes para Sempre e Questão de Família (peças ficcionais que fizeram apologia à judicialização e achincalhamento niilista da Política – sobre isso clique aqui)  um clima de guerra e intolerância política contra Governo, PT, bolivarianos, comunistas, Venezuela, o fantasma do Chavismo e contra qualquer um que tente relativizar a atual onda neoconservadora – o golpismo na política com os desejos incontidos pelo Golpe Militar, intervenção de mariners dos EUA no Brasil ou uma espécie de “golpe paraguaio” por meio da possibilidade do Impeachment.

Ação e Reação

Pois essa intervenção política da TV Globo ignora aquele princípio da física clássica newtoniana: tudo volta com igual intensidade – ou num viés mais espírita “aqui se faz, aqui se paga”. 

Depois do jornalista César Tralli incitar estudantes ao ataque no SPTV (“temos que infernizar o MEC”) no caso do FIES e a programação esportiva da emissora no domingo das manifestações Anti-Dima se transformar praticamente numa convocação para os telespectadores saírem às ruas em protesto, vem a volta: o clima de intolerância e acirramento político transforma-se em conservadorismo moral que atinge em cheio o principal produto da grade da TV Globo – a novela do horário nobre.

Redes Sociais: rejeição e fundamentalismo justificados pelo clima de intolerância política

Como apontou em diversas oportunidades o psicanalista Wilhelm Reich em livros como Psicologia de Massas do FascismoEscuta Zé Ninguém! ou Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual, o conservadorismo político tem uma relação direta e proporcional com a rigidez moral, sexual e de caráter.

No atual atmosfera politicamente pesada que a grande mídia diligentemente vem sustentando, o neoconservadorismo político (“conservador” porque golpista) facilmente se converte em conservadorismo psicossexual – o nostálgico assanhamento de muitos pela volta dos militares corresponde ao recrudescimento da moralidade e a intolerância sobre quaisquer formas de prazer sexual.

O beijo de um casal de idosas lésbicas protagonizado por Fernanda Montenegro (Tereza) e Nathália Timberg (Estela)  fez as redes sociais serem tomadas por mensagens de grupos evangélicos organizando um boicote à novela. “Não tenho dúvida que a Rede Globo é a maior patrocinadora da imoralidade e do homossexualismo no Brasil”, bradou o pastor Silas Malafaia com milhares de “likes” e compartilhamentos no Facebook. 

O que mais se vê nas redes sociais são mensagens como “A Globo nos quer fazer engolir esta ditadura gay” – com algumas variantes impublicáveis. Para a cabeça neoconservadora, “ditadura gay” ou “ditadura comunista” são equivalentes, assim como para os norte-americanos na década de 1930, a invasão de marcianos ou de nazistas eram sinônimos: o que levou Nova York ao pânico com a transmissão de rádio do “Guerra dos Mundos” em 1938.

Fernanda Montenegro e Nathália Timberg nas entrevistas apontam para “caça às bruxas” – ironicamente para Timberg que, acompanhado de outros atores de uma novela anterior, apareceu vestida de preto e cara de luto consternada em uma foto nas redes sociais protestando contra o ministro Celso Melo que assegurou a alguns réus no processo do Mensalão a oportunidade de apelação.

Ironicamente, o pequeno gesto da atriz que ajudou a tornar mais densa a atmosfera política, volta-se contra ela mesma na intolerância moral de telespectadores.