03 de dezembro de 2018, 15h31

Alarme do Ciberespaço! Tempo Real destruirá a Democracia

A vitória de Bolsonaro foi um dos laboratórios da corrosão da representação política pelo tempo real. E agora, os protestos dos “coletes amarelos” na França promete que essa engenharia será global

Em postagens anteriores este Cinegnose cravava que não haveria eleições este ano. Afinal, para quê foi dado o golpe em 2016? Para todo o esforço da Guerra Híbrida iniciado em 2013 ser deixado a um arriscado resultado eleitoral?

Como é dito em uma dura linha de diálogo no surpreendente final do filme Terra Prometida (2012 – clique aqui) de Gus Van Sant, “acha mesmo que deixaríamos algo assim cair nas suas mãos depois de deixa-los levar isso para uma eleição?… empresas como a Global não confiam em ninguém, assim que vencem. Vencem controlando qualquer resultado… e fazem isso jogando dos dois lados…”.

Estavam lá urnas eletrônicas, títulos eleitorais, postos de votação, eleitores e observadores internacionais que viram uma eleição acontecer. Pelo menos em sua forma houve uma espécie de processamento digital de votos, mas não uma eleição.

Assim como o Brexit e a vitória eleitoral de Trump, as eleições brasileiras de 2018 foram um ponto de inflexão, talvez sem volta, daquilo que o urbanista e pensador francês Paul Virilio considerava “o acidente de todos os acidentes”: como o tempo real da “bomba informática” iria destruir a Democracia.

O “Grande Evento”

 Em agosto de 1995, Paul Virilio publicava no “Le Monde Diplomatique” o artigo “Vitesse et Information: Alerte Dans le Cyberespace!” – “Velocidade e Informação: Alerta do Ciberespaço”. Nesse pequeno texto, Virilio descrevia o “grande evento que dominará o século XXI” que seria a invenção da perspectiva em tempo real substituindo a velha perspectiva tridimensional renascentista. À qual a Política e a Democracia são tributárias – a Política dependente de um lugar concreto (a cidade), a “democracia das festas políticas”.

A chegada ao poder do “golpista da mídia” Sílvio Berlusconi em 1994 seria apenas o prenúncio de uma tecnologia que reduziria os eleitores a espectadores onde “as pesquisas de opinião apurando votos reinariam”.

Paul Virilio (1932-2018)

Para Virilio, Einstein teria dito sobre a “segunda bomba”: “A bomba eletrônica, depois da atômica. Uma bomba na qual o que o tempo real é para a informação corresponderia ao que a radioatividade é para a energia”.

E essa “radioatividade” seria o tempo real da comunicação pelo computador – a instantaneidade, simultaneidade e ubiquidade que iriam aos poucos minar os fundamentos da democracia representativa. Nas palavras de Virilio:

Quando se levanta a pergunta sobre os riscos de acidentes na informação nas (super) estradas, o problema não está sobre a informação em si mesma, o problema está sobre a velocidade absoluta dos dados eletrônicos. O problema aqui é a interatividade. A ciência do computador não é o problema, mas a comunicação do computador, ou o (não completamente conhecido) potencial de comunicação do computador. Nos Estados Unidos, o Pentágono, o mesmo criador da lnternet, está falando até mesmo em termos de uma “revolução no exército” junto com uma “guerra de conhecimento” como a qual poderia substituir a guerra de campo, da mesma maneira que substituiu a guerra de corpo-a-corpo da qual Sarajevo é uma lembrança trágica e antiquada. (VIRILIO, Paul, “Vitesse et information: Alerte dans le cyberespace !”, In: Le Monde Diplomatique, 08/1995,clique aquiEm inglês clique aqui).

Esboços da Guerra Híbrida

Nos anos 1990, Virilio antevia aquilo que hoje chamamos de Guerra Híbrida, a guerra convencional transposta para ferramentas semióticas. Na qual o poder de agendamento da grande mídia se alia às estratégias de psicometria e manipulação de Big Data nas redes sociais. A representação política na esfera pública substituída pela apresentação em tempo real nas redes digitais.

Ao deixar a Casa Branca em 1961, Eisenhower alertou que o complexo militar-industrial era uma ameaça à Democracia. Um complexo similar ao que se formava em 1995: um novo complexo militar baseado nas tecnologias da informação. Naquele momento, líderes políticos norte-americanos como Ross Perot e Newt Gingrich falavam em “democracia virtual”.

“Como não se sentir alarmado? Como não ver os esboços cibernéticos se transformarem em uma engenharia política?”, indagava Paul Virilio. E completava:

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