18 de setembro de 2018, 12h12

Alberto Carlos de Almeida: “Se o Bolsonaro tem um partido são os militares e não o PSL”

"O que estamos vendo é um candidato ocupando o espaço (deixado pelo PSDB), o Bolsonaro, que não tem um partido. É a figura dele, uma coisa bonapartista, disse o cientista político. Veja a entrevista completa aqui

Alberto Carlos Almeida em entrevista ao Fórum Eleições. Foto: Reprodução

Em entrevista ao Fórum Eleições na noite desta segunda-feira (17), o cientista político Alberto Carlos Almeida afirmou que o desmonte do PSDB abriu espaço para o surgimento da figura “bonapartista” de Jair Bolsonaro (PSL), sem compromisso partidário, que traça um cenário ruim para a democracia.

“O que estamos vendo é um candidato ocupando o espaço (deixado pelo PSDB), o Bolsonaro, que não tem um partido. É a figura dele, uma coisa bonapartista. Por mais que aja críticas ao PSDB, de enraizamento, é um partido que se organiza, treina os políticos, tem um ambiente de relacionamento. E o PSL foi escolhido pelo Bolsonaro esse ano. Se o Bolsonaro tem um partido na prática são os militares e não o PSL”, afirmou, em entrevista ao editor da Fórum, Renato Rovai.

Segundo Alberto Almeida, caso a pesquisa Datafolha que será divulgada na próxima quinta-feira (20) mostrar a tendência de queda ou estagnação do candidato tucano, Geraldo Alckmin, o segundo turno da corrida presidencial deve se dar mesmo entre Fernando Haddad (PT) e Bolsonaro. “Com a TV, imaginava que haveria uma lenta descida do Bolsonaro e uma lenta subida do Alckmin. Se o Datafolha detectar que não houve mudança nisso – que o Bolsonaro continua subindo ou parou, e o ALckmin eventualmente parou – vai ser muito difícil, praticamente impossível, o PSDB levar seu candidato ao segundo turno”.

Leia abaixo os pontos principais da entrevista e assista ao programa completo no canal do Youtube da Revista Fórum.

Populismo de direita

“É um termo que eu não gosto, mas Bolsonaro é um populista. E uma definição de populismo é daquele líder que se relaciona diretamente com as massas, sem passar por intermédio das instituições – mais notadamente partidos políticos e parlamento. Nesse aspecto o Brasil nunca teve um populismo de esquerda. O Brasil já teve populismo, nesse aspecto, Jânio Quadros, Collor e agora o Bolsonaro. E isso é muito ruim para o funcionamento da estrutura pública.”

Crescimento da candidatura Haddad

“Haddad tem ainda muito a crescer. Muitos eleitores não sabem da existência do Haddad, não sabem o nome dele, que ele é apoiado por Lula. No próprio Nordeste, nas simulações de segundo turno, o Haddad ganha de Bolsonaro por 50% a 30%, é possível que chege a 70%.

Efeito pedra no lago é isso que a gente está vendo no caso do Haddad. Esse eleitor mais petista é um eleitor que ganha menos, que tem uma escolaridade mais baixa, que está em cidades menores. É um eleitor que vai entrar no voto do Haddad ainda. (A informação) vai chegar lá, nem que seja no dia 7 de outubro”.

Rejeição de Bolsonaro

“O Bolsonaro tem um discurso de direita popular. É a direita popular. Por outro lado, ele criou símbolos muito fortes que permitem mobilizar rejeição contra ele. Tem esse movimento espontâneo e, diante de um eleitorado, 2 milhões de mulheres não representa muito, mas vai que isso chega a 10 milhões? Isso vai se espalhando por ondas também. Já tem grupos de negros, LGBTs. Ele vai gerando resistências. Os mesmos motivos que levaram ele a ser popular em alguns grupos, geram rejeição a ele”.

Segundo turno

“O segundo turno não é uma nova eleição. É uma continuação do primeiro turno por outros meios. São poucas as viradas de primeiro para segundo turno – para presidente nunca teve. Porém, em razão da maior rejeição do Bolsonaro, o PT tem mais chances de vencer a eleição presidencial, sendo o segundo turno entre Haddad e ele”.

Ciro e Marina

“A Marina e o Ciro não têm representação alguma. A Marina fundou um partido. Foi incapaz na eleição passada de legalizar a tempo de concorrer. Ambos estão numa egotrip. O Ciro está no sétimo partido. E por conta disso estão sendo punidos pelo eleitor. A Marina já está na votação de um dígito e o Ciro caminha para terminar a eleição em um dígito”.

São Paulo

“Em São Paulo está havendo essa grande dificuldade do PSDB. O que é possível detectar? São Paulo tem esse eleitor anti-petista, que vem prejudicando fortemente o Alckmin. Entre 50% a 60% de São Paulo não gosta do PT e está disposto a votar em um candidato que não seja do PT. Ocorre que esse mesmo eleitor não avaliou bem o governo Alckmin e o governo Dória: “então, dessa vez não quero o PSDB”. Aí olha e diz: “vou votar no Skaf, pois o PSDB já governou por muito tempo, teve crise hídrica, teve o caso das merendas”. Então o PSDB se descuidou do seu eleitor na sua principal base eleitoral. E a única coisa que um político não pode se descuidar é perder sua base eleitoral originária. E o PSDB está sofrendo esse problema. A situação do Dória é difícil e complicada também”.

Dificuldades para o próximo presidente

“O próximo presidente, quem quer que seja entre Bolsonaro ou Haddad, vai ter dificuldade de governar. As pessoas não entendem a importância de um partido político grande, que é onde o político aprende a fazer política. Cria e nutre suas relações políticas. O PT e o PSDB têm essa massa crítica. Partidos menores têm um pouco dessa massa crítica. O partido do Bolsonaro não tem nenhuma. Então, em uma eventual vitória do Bolsonaro, o partido político dele, onde ele trafega e tem relações, é o mundo militar. Não existe elaboração de políticas públicas dentro do PSL. O que existe é dentro do mundo militar e ele teria que recorrer a isso. Mas em uma democracia, que você tem Câmara, Senado, raposas políticas, movimentos sociais, representações sociais. Ou seja, é uma baita crise à vista.

E o PT, com as dificuldades de rejeição ao partido, terá de desanuviar o clima. O Haddad é uma figura que talvez seja importante para isso, dado a política conciliadora dele.