Anarca é a mãe

05 de agosto de 2015, 18h56

A amamentação imperfeita

Eu. Amamentando. Tirei dois dias atrás.

Já que estamos na Semana Mundial do Aleitamento Materno, me deu vontade de contar um pouco da minha história com a amamentação.

Eu amamento há mais de quatro anos. Já amamentei de noite, de dia, em público, privado, grávida, uma criança só, duas crianças ao mesmo tempo, criança dormindo, criança fazendo mama-sutra.

Ao amamentar, já recebi de muxoxos e olhares tortos a palavras de apoio e inclusive palmas. Isso ilustra bem a amplitude de sentimentos que o tema amamentação provoca por aí.

Para mulheres que, como eu, têm o privilégio de poder ficar à disposição das crianças – e a vontade de fazê-lo, claro – a maior praticidade do peito é indiscutível. Não tem que limpar, esterilizar, medir, misturar, aquecer. Já vem pronto, só sacar e dar, a qualquer hora, em qualquer lugar.

Claro que para quem trabalha fora são outros tantos quinhentos. E toda a minha solidariedade a essas mães, aliás. Porque, numa sociedade que, coletivamente, se exime de qualquer responsabilidade por facilitar a vida das mães e suas crianças, há que se ter dedicação infinita para trabalhar fora e continuar amamentando (e ordenhando e coletando e acondicionando e relactando e dando em copinho e/ou colherinha e/ou mamadeira e etc. e ainda, por vezes, escutando abobrinhas das mais variadas). Um abraço apertado aí, galera. Não deveria ser assim.

Para quem consegue, claro que vale a pena. O leite materno, como sabemos, é um alimento completo sob medida para as necessidades da criança. Nutre, imuniza, hidrata, além de ajudar no desenvolvimento da arcada dentária e dos músculos da face. Para a saúde da mãe amamentar também faz diferença, e muita. Diminui a incidência de câncer de mama e de ovários, ajuda a controlar diabetes e prevenir síndrome metabólica, osteoporose, etc. Além disso, o ato de amamentar permite um contato e um aconchego profundos, com inúmeros desdobramentos fisiológicos e emocionais – embora eu duvide que esse contato e esse aconchego sejam exclusivos do ato de amamentar.

No entanto, amamentar não é sempre fácil, e é sobre isso que eu quero falar.

Mesmo nos casos em que, como foi comigo, é majoritariamente fácil, tem horas em que amamentar é muito, muito difícil. Eu tive leite, não tive mastites, não tive feridas, não tinha mamilos invertidos, as pegas dos bebês sempre foram boas, eu tive o privilégio de poder estudar muito a teoria antes de lidar com a prática e, quando chegou a hora da prática, tive ao meu redor pessoas fantásticas que puderam me orientar. E, como eu disse, eu não trabalho fora. Ainda assim, houve momentos em que foi… como dizer? Foda. Bem foda.

Por que estou falando isso? Sou contra? Quero desencorajar? Claro que não. Amamento até hoje; estou, aliás, amamentando meu filho mais novo, de um ano e quase dez meses, neste exato momento, enquanto redijo este texto. Estou falando isso porque sinto que existe um precipício entre a amamentação idealizada e a amamentação real. E eu caí nele. E já vi muitas outras caírem também. Daí acho que não custa nada colocar uma plaquinha de “perigo” ali na beirada, né? É o que eu estou tentando fazer.

Existe uma vivaz torcida contra a nossa amamentação o tempo todo. É machismo, é adultismo, é capitalismo. Porque nossos peitos têm que estar à disposição dos homens e não devemos fazer nada que possa afetar-lhes a estética; porque nossos corpos são falhos e não devemos confiar neles; porque amamentação tem que ter prazo e horário e cronometragem, senão a criança, esse ser do mal, domina e escraviza a mãe; porque a mulher tem que voltar a trabalhar (e arcar com todas as complicações na amamentação que decorrem disso, como dito acima). Isso tudo sem falar na pressão da inescrupulosa indústria que não hesita em passar por cima da saúde das crianças para ganhar um trocado.

Mas o que acontece quando uma mulher vence tudo isso, está consciente dos benefícios da amamentação e quer muito amamentar… só que, naquele momento, está foda?

Com quem ela conversa, a quem ela pode procurar? Onde ela encontrará acolhimento?

No colo do médico que já está com a prescrição de complemento pronta na gaveta? Do marido machista que está desde o começo falando que agora ela virou “escrava da criança”, que os peitos dela são dele? Da avó/tia/amiga/vizinha que está sempre dizendo que leite de peito é só água, que, “se continuar assim, seu peito cai e ele arruma outra”?

E dá para chorar no colo das mães perfeitas que parecem sempre ter passado por coisas ainda mais complicadas e situações ainda mais difíceis, mas que persistiram estoicamente e “venceram”? Como falar que está difícil quando todo mundo parece estar tirando de letra? Quando a sensação que se tem é a de que há algo de errado em si mesma? Como se abrir para o julgamento do povo do “basta querer”, da meritocracia do leite, num momento de tanta fragilidade?

É muito solitário não dar conta. É estar perdida numa terra de ninguém no meio da guerra entre o país do “larga logo essa cruz” e o do “aguenta firme aí”.

Quantas depressões, inclusive pós-parto, são geradas ou disparadas por problemas na amamentação e os sentimentos de culpa e inadequação relacionados a isso? Quanto disso não poderia ser evitado se falar das dificuldades na amamentação não fosse tabu?

Minha filha mais velha tinha por volta de um ano e meio quando eu comecei a ter o que hoje eu sei que era perturbação (ou agitação) da amamentação. Eu estava grávida do meu filho mais novo, o que talvez tenha sido um fator que contribuiu para o surgimento disso.

A agitação da amentação é uma espécie de incômodo que começa a surgir durante a amamentação, uma irritação que vai crescendo e tomando conta da gente, aos poucos se tornando avassaladora, a ponto de ficar difícil de pensar, a ponto de ranger os dentes, esmurrar a parede e fantasiar violências enquanto se amamenta.

Para mim, ela se manifestava particularmente através de uma sensação muito próxima da de estímulo sexual indesejado. Era como se eu estivesse sofrendo um abuso, com alguém mexendo em mim contra a minha vontade. Não era uma sensação agradável, não era uma questão de repressão, ou algo assim. Era uma raiva profunda, que borbulhava de dentro de mim, incontrolável, irracional. E eu sentia como se estivesse, ao mesmo tempo, abusando da minha filha, já que ela causava esse estímulo involuntariamente. Eu sentia muita vergonha e muita culpa, além de muita raiva de mim mesma. Vivia à beira das lágrimas.

O que antes era uma dádiva rapidamente se transformou num suplício. Sofri sem saber o que havia de errado comigo por muito tempo, sem coragem de compartilhar essas sensações todas com outras pessoas além do meu marido e pessoas muito próximas, que também não sabiam me dizer o que estava acontecendo.

Supondo que o problema fosse psicológico, eu me analisei e reanalisei, verbalizei, escrevi. Supondo que o problema fosse fisiológico, eu mudei a alimentação, descansei. Aqui e ali a coisa melhorava, mas não passava. E a minha angústia só aumentava.

Foi o tempo e a coincidência que me trouxeram este texto, do blog MamaEDoula. E a ficha caiu. Eu cresci com gatos soltos, gatos de rua, acompanhei incontáveis ninhadas desde o nascimento e já tinha visto gatas passarem por isso com seus filhotes.

Engraçado que era o que me passava pela cabeça, muitas vezes, enquanto eu me sentia mal amamentando – a cena de uma gata tocando de perto dela os filhotes subitamente, no meio da mamada. Mas, antes do texto, eu nunca tinha me permitido entender que era a mesma coisa.

Como eu nunca havia ouvido falar de algo tão natural – e comum! – num meio (o ativismo de parto, amamentação e maternidade) em que tanto falamos sobre a nossa natureza?

Não creio que amamentar tenha que ser sempre prazeroso. A gente não amamenta só por prazer, assim como a criança não mama só por prazer. Existe uma necessidade da criança envolvida e um interesse em que essa necessidade seja suprida dessa forma, já que, apesar de haver outros meios, sabemos ser esse o fisiologicamente melhor.

Mas existe uma diferença entre aceitar que algo não será sempre prazeroso e se submeter a algo que está sendo constantemente excruciante.

Eu sempre tive muito claramente para mim que as crianças são hipossuficientes na relação com ses pais e mães; que elas não são adultas e suas particularidades devem ser levadas em consideração sempre. Que suas necessidades e vontades devem ser lembradas com mais relevo e ênfase para evitar os abusos que nós, pessoas adultas, somos tendentes a praticar com elas por conta da naturalização do adultismo na nossa sociedade.

Mas eu estava tão concentrada em não pisotear adultistamente as necessidades, vontades e particularidades da minha filha, que não me dei conta de que havia começado a esmagar as minhas próprias. E, ainda por cima, no meu desespero para fazer “o melhor para a minha filha” eu estava me tornando uma mãe pior para ela. Uma mãe irritada, cansada, ressentida, neurótica. Infeliz.

Eu me mordia, me batia, puxava meus cabelos, socava coisas duras. Eu não agredia minha filha, mas me violentava o tempo todo. Que bem poderia fazer a ela assistir a tudo isso? Os anticorpos e sais minerais no leite a fariam compreender que o que eu rejeitava era a amamamentação e não ela própria?

Ao contrário do que muitas pessoas parecem pensar e até defender, não temos como contrapor o melhor para a criança e o melhor para a mãe, como se fossem coisas separadas e opostas, ao invés de complementares e necessariamente interligadas. Eu estava tão focada em não falhar na amamentação que não me dei conta de que a amamentação estava falhando comigo. E, por tabela, com a minha filha. Porque nós não somos só os nossos corpos, a nossa biologia.

Daí, no grupo de feminismo de que participo, enquanto eu acolhia outras mulheres mães com sentimentos similares, amigas queridas minhas me mostraram, com muito jeito e carinho, que eu não estava praticando comigo o que eu própria pregava. Que eu não estava me acolhendo, nem me considerando como parte da equação. Registro aqui meus agradecimentos, aliás, a Lívia Marques e Bruna Betoli! <3

Foi muito doloroso para mim aceitar aquele meu momento de distância do que eu havia sonhado e idealizado. Buscar dentro de mim empatia comigo mesma e perceber que não estava me respeitando, não estava me ouvindo.

Reconhecer meus limites foi um processo dilacerante, mas renovador, como crescer tantas vezes é. Saí dele mais livre, mais humana, mais aberta às vivências de outras pessoas, especialmente mulheres, e menos propensa a julgar e idealizar.

E decidi desmamar minha filha. Um longo e gradual processo que eu, na verdade, instintivamente já havia começado. Fiz o que pude para que fosse o menos abrupto possível; no todo, demoramos coisa de um ano e meio para concluir o processo de desmame, aos três anos dela.

Não me arrependo. Sinto, contudo, que, se desde o começo eu tivesse tido consciência de que amamentar não é tudo ou nada, eu teria me respeitado mais e não estaria já tão desgastada quando enfim comecei o desmame. Isso teria permitido uma transição ainda mais suave para a pequena, além de nos economizar muito – muito! – sofrimento e confusão desnecessários.

Eu sei que a minha filha sofreu mais que eu com tudo isso e ainda sinto por não ter conseguido encontrar uma alternativa viável para nós naquele momento. Espero que ela não tenha, em algum nível, ou de alguma forma, a sensação de que ela era o problema, de que a culpa era dela. Imagino que um dia vamos poder conversar sobre isso e talvez ela entenda. Ou talvez ela só vá mesmo entender se um dia passar por algo assim. Eu não sei. E aceito.

Amamentar nem sempre é fácil. E isso precisa ser dito. E repetido. E esperado. Porque se ficar difícil, faz bem a gente saber que o problema não é com a gente. E encontrar acolhimento, especialmente dentro de nós mesmes.