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16 de fevereiro de 2014, 11h15

AMB se inspira nos EUA e quer estimular deserção de cubanos

A nova investida da entidade médica brasileira contra o Mais Médicos se articula com programa dos EUA para asfixiar relações internacionais de Cuba

A nova investida da entidade médica brasileira contra o Mais Médicos se articula com programa dos EUA para asfixiar relações internacionais de Cuba Por Najla Passos, da Carta Maior O Programa de Apoyo a Médicos Extranjeros, criado pela AMB, facilita a ida de médicos cubanos aos EUA (Foto: Flickr Pan American Health Organization) A Associação Médica Brasileira (AMB) acaba de lançar um programa para estimular a fuga dos cubanos que atuam no Mais Médicos para os Estados Unidos. A nova cartada da entidade para enfraquecer uma das mais populares iniciativas do governo Dilma está divulgada em destaque no site da entidade. Batizada...

A nova investida da entidade médica brasileira contra o Mais Médicos se articula com programa dos EUA para asfixiar relações internacionais de Cuba

Por Najla Passos, da Carta Maior

O Programa de Apoyo a Médicos Extranjeros, criado pela AMB, facilita a ida de médicos cubanos aos EUA (Foto: Flickr Pan American Health Organization)

A Associação Médica Brasileira (AMB) acaba de lançar um programa para estimular a fuga dos cubanos que atuam no Mais Médicos para os Estados Unidos. A nova cartada da entidade para enfraquecer uma das mais populares iniciativas do governo Dilma está divulgada em destaque no site da entidade.

Batizada de Programa de Apoyo a Médicos Extranjeros, a iniciativa reivindica preocupações humanitárias, mas seu objetivo claro é assegurar assistência jurídica e logística ao médicos da ilha comunista que almejam acessar o Cuba Medical Professional Parole, programa idealizado governo norte-americano para asfixiar ainda mais as relações internacionais de cooperação da ilha comunista.

Lançado em 2006, o Cuba Medical Professional Parole foi criado em parceria pelos departamentos de Estado e de Segurança Nacional dos Estados Unidos para atrair profissionais de saúde cubanos de formações diversas que atuavam no mundo, fazendo larga propaganda positiva para a ilha. Nos seus primeiros 4,5 anos, conseguiu garantir a deserção de 1.574 médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros que atuavam em 65 países, conforme balanço publicado em janeiro de 2011 no The Wall Street Journal.

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Só no mesmo ano de 2011, porém, havia 37 mil médicos cubanos atuando em 74 países do mundo, a maioria na Venezuela, por meio do acordo firmada por Hugo Chaves com fidel Castro que dava a este último a preferência na aquisição do almejado petróleo da estatal PDVISA. O índice de deserções, portanto, foi considerado pífio, principalmente se considerado o investimento estatal norte-americano no programa, que envolveu toda a sua rede de embaixadas e contou com investimentos financeiros diretos.

Ainda assim os desgastes diplomáticos para os países envolvidos foram inevitáveis. Médicos cubanos que atuaram na Venezuela interpelaram a PDVISA, em escandalosos processos que invadiram as cortes internacionais. Uma matéria da TV Estatal Cubana classifica o Cuba Medical Professional Parole Program como uma das mais mesquinhas iniciativas diplomáticas já criadas pelos Estados Unidos, desde o bloqueio econômico à ilha.

Confira aqui o vídeo

No Brasil, o efeito do programa norte-americano sobre os cubanos que atuam no Mais Médicos é baixo. Pelo menos até o momento. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde nesta semana, apenas quatro cubanos abandonaram o programa brasileiro desde o seu lançamento, em julho do ano passado. Está confirmado que pelo menos um, Ortelio Guerra, desertou e fugiu para os Estados Unidos, com a ajuda de uma suposta ONG internacional.

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Não está computado na lista o caso amplamente divulgado pela mídia da médica Ramona Rodriguez, que pediu “asilo político” ao DEM, principal partido da oposição que questiona o Mais Médicos, enquanto aguarda visto norte-americano para encontrar o marido em Miami. Esta semana, ela foi contratada como assessora da AMB, por um salário de R$ 3 mil.

De qualquer modo, as investidas tanto dos médicos brasileiros quanto do governo dos Estados Unidos contra os cubanos preocupa o Palácio do Planalto. O Mais Médicos é a grande aposta do PT para as eleições presidenciais e do governo de SP, cujo ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, é o candidato do partido. É também um alento para a população brasileira, ao garantir 9,5 mil médicos em 2.779 municípios, o que significa uma cobertura de saúde para 33 milhões de pessoas.

Esta semana, os ministros da Saúde e da Casa Civil se reuniram mais de uma vez para discutir estratégias para enfrentar as ameaças ao Mais Médicos. Nesta quinta (13), o Ministério da Saúde publicou uma portaria definindo as regras para registro do abandono do programa, que garantem rápida substituição dos desistentes. A principal preocupação, porém,  é com o pagamento repassado aos médicos cubanos, inferior ao dos demais profissionais que atuam no programa e, por isso, considerado fator facilitador para a deserção.

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Os médicos inscritos individualmente no Mais Médicos, brasileiros ou estrangeiros, recebem R$ 10,5 mil por mês, enquanto os cubanos, contratados via parceria entre Brasil, Cuba e Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), recebem US$ 400 no Brasil. Outros US$ 600 depositados em suas contas, em Cuba, que podem ser acessados no retorno. Os cubanos também mantém suas carreiras de Estado e todas os direitos trabalhistas decorrentes.

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