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22 de janeiro de 2019, 14h56

Faltou assunto pra Bolsonaro em Davos

Tudo indica é que ficaremos mesmo na exposição de mostruário que ele adotou como tom de participação no encontro: “aqui está Sérgio Moro”, vejam que Ministro qualificado nós temos para por fim à corrupção, e “aqui está Paulo Guedes”, o homem que vai abrir o Brasil para ser um grande player do comercio internacional e destino de vultosos investimentos.

Bolsonaro no Forum Economico Mundial, em Davos (Divulgação/WEF)
O Fórum Econômico Mundial de Davos, em sua edição de 2019, não está muito concorrido por chefes de Estado e Governo. Faltaram Putin, Trump, Xi Jinping, Macron, Theresa May e outros. Bolsonaro poderia ter sido, portanto, uma grande estrela da festa. Ainda vão mais alguns dias de encontro até 25 de janeiro e ele pode surpreender (será?), mas o que tudo indica é que ficaremos mesmo na exposição de mostruário que ele adotou como tom de participação no encontro: “aqui está Sérgio Moro”, vejam que Ministro qualificado nós temos para por fim à corrupção, e “aqui está Paulo Guedes”, o...

O Fórum Econômico Mundial de Davos, em sua edição de 2019, não está muito concorrido por chefes de Estado e Governo. Faltaram Putin, Trump, Xi Jinping, Macron, Theresa May e outros. Bolsonaro poderia ter sido, portanto, uma grande estrela da festa. Ainda vão mais alguns dias de encontro até 25 de janeiro e ele pode surpreender (será?), mas o que tudo indica é que ficaremos mesmo na exposição de mostruário que ele adotou como tom de participação no encontro: “aqui está Sérgio Moro”, vejam que Ministro qualificado nós temos para por fim à corrupção, e “aqui está Paulo Guedes”, o homem que vai abrir o Brasil para ser um grande player do comercio internacional e destino de vultosos investimentos.

Inicialmente foi oferecido a Bolsonaro um latifúndio de tempo, 45 minutos, para pronunciamento e respostas às questões. Talvez a pedido de sua assessoria, grata pela gentileza, mas não vendo como preencher tantos minutos, diminuíram para 30 minutos. A montanha pariu um rato e JB falou 8 minutos! na principal plenária do encontro. Somados mais uns míseros 7 minutos entre as perguntas feitas por Klaus Schwab, chairman do Fórum, e as lacônicas respostas de Bolsonaro, obteve-se os suados 15 minutos de holofotes dirigidos ao novo presidente do Brasil no maior encontro econômico anual realizado há quase 40 anos na Suíça.

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Algumas coisas ficaram evidentes na fala. “Menos é mais” foi o tom adotado. Já estamos sendo muito apedrejados, devem ter pensado os que ajudaram a preparar o discurso, para continuar nos oferendo facilmente para o sacrifício. Mal a cúpula saiu do Brasil e o Embaixador da Alemanha já foi procurar Mourão para reclamar do que será feito com o Fundo Amazônia, se o Brasil realmente romper com o Tratado de Paris e outras pautas ambientais. Portanto, não se falou em sair do Acordo do Cambio Climático, silêncio absoluto sobre a pauta migratória, nem pra bater na Venezuela! foi usada a temática da migração. Pra que falar de embaixada em Israel, por exemplo? Da desestabilização da Venezuela? Direitos humanos? Saída do pacto global de migração? Armamento civil? O comedimento presidiu. Deixemos os vexames da porta de casa pra dentro, resolveram.

Sabe quando a gente decora uns dados e dá vontade de usar toda hora? Foi assim com Bolsonaro ao dizer que a agricultura ocupa 9% do território do país e a pecuária 20%. Disse no pronunciamento, repetiu na resposta ao questionamento sobre compromissos com o meio ambiente, ao citar que o Brasil tem 30% de seu território ocupado por florestas e só 9%…. Não repetiu mais uma porque não encontrou como. Outra ideia que não saiu da ponta língua foi: vamos tirar a ideologia de tudo. Do comércio internacional, da montagem do governo, da lida com os parlamentares, das relações exteriores, onde puder estamos “deseologizando”, mas não vamos deixar a esquerda ressurgir na América Latina, isso não! Com os bolivarianos não negociamos e não temos relações de integração e regionalização, disse ao ser perguntado sobre papel do Brasil na região. Ideológicos são os outros, “nós não”, quis transmitir. Fico pensando, sinceramente, se a audiência não riu da inutilidade da demarcação bolsonariana.

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As respostas aos questionamentos generosos, sem nenhuma casca de banana, de Schwab, foram tão mal aproveitadas que deu dó. Juro. Tratadas mais como batatas quentes, a impressão que se tinha era que o JB adoraria poder jogar no colo de Guedes ou Moro as explanações. Perguntado sobre “quais os passos concretos” (referindo-se às reformas), passos concretos, presidente! Ficou nas generalidades da reforma tributária e do “tirar peso” de quem investe (tirar direitos trabalhistas). Sobre corrupção, aquele tipo de infração da qual está se escondendo o primogênito, disse que o Moro vai resolver tudo. A resposta à pergunta sobre o meio ambiente surpreendeu. Disse com todas as letras, para todo o mundo ouvir, que “queremos estar sintonizados” com o resto do mundo no que tange à diminuição da emissão de CO2 e à preservação ambiental. Quanto à América Latina, ultima e derradeira pergunta, disse apenas que ele, Macri, Marito e Piñera, o clube do bolinha anti-bolivariano, não vão deixar a esquerda voltar ao poder e que o Mercosul, ah o Mercosul deve ter “algumas mudanças”. Bastante tímido para quem estava querendo desativar o bloco.

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Por fim, o discurso teve ares de propaganda turística mesmo. Venham visitar “nossa Amazônia, nossas praias, nossas cidades, nosso Pantanal”. Vejam como o Brasil é um paraíso, o país que mais preserva o meio ambiente, que agora vai cuidar da segurança (só não mencionou que vai armar a população) e melhorar o ambiente de negócios, com flexibilização das normas (tirando direitos dos trabalhadores) e ajudando na reforma da OMC. Vamos educar nossa juventude para a 4ª Revolução Industrial (só não disse como reativar o setor industrial e aumentar o investimento em educação, ciência e tecnologia). Vamos nos espelhar na OCDE, só não disse exatamente em quê e como (há mesmo um fetiche com a OCDE, visível e risível). Estamos de braços abertos e com “Deus acima de Tudo”, concluiu.

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