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20 de abril de 2018, 14h07

“Aniquilação”: Netflix e o algoritmo do Dr. Frankenstein

Texto de Tomaz Amorim aborda “Aniquilação”: Último grande filme de ficção científica é analisado como exemplo da tendência da indústria cultural em produzir monstros estéticos no estilo Frankenstein

Foto: Diculgação

Há uma inegável tendência dos filmes e séries atuais de perder a unidade e autonomia em prol de uma multiplicidade de elementos de gêneros distintos, que apenas habitam a mesma obra sem, no entanto, conviver nela. Não convivem porque a obra não está viva, embora ela se mova, fale e fascine, como o monstro do célebre “Frankenstein”, de Mary Shelley. Os elementos contraditórios que dão vida a toda grande obra, que se tencionam em disputa pela perspectiva mais privilegiada da narrativa, colocando o todo assim de pé, o conflito entre moderno e arcaico que é motor de tantas obras literárias e cinematográficas sobre os Sertões no Brasil, por exemplo, nas obras mais recentes da Netflix e de outros gigantes da indústria cinematográfica atual tendem a conviver em alegre e falsa harmonia.

Elementos distintos que deveriam reagir uns aos outros, movimentando os conflitos da narrativa e complexificando a sua própria especificidade, não reagem entre si. Passam uma falsa impressão de diversidade, de representação democrática de grupos sociais e gêneros artísticos que, no entanto, estanque. As diferentes vozes convivem co-isoladas, surdas, sobrepostas, mas sem produzir efeito umas nas outras, sem, portanto, qualquer tipo de diálogo e possibilidade de contradição ou síntese. Para dar um exemplo recente que não foi produzido pela Netflix, mas está sendo distribuído internacionalmente pela plataforma, o filme “Aniquilação” (2018), dirigido por Alex Garland e estrelado por Natalie Portman, é como esses bolos de biscuit que se vê em festa de criança: colorido, cheio de curvas caprichosas e sem gosto nenhum. A receita de bolo que produz essas obras vem da despensa do Chef Algoritmo: um quilo de “ficção científica”, quatro copos de “protagonistas mulheres fortes”, três colheres de “conspiração governamental”, bater tudo ao modo “filme de monstro”, três pitadas de erotismo do tipo “romântico”, “homossexual” e “traição”, levar ao forno e depois finalizar com cobertura de “efeitos especiais lisérgicos”.

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O resultado a partir destes ingredientes não é, como poderia ser, um “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968) ou um “Solaris” (1972). O elemento feminino não interage com o militar e a biologia extraterrestre criando uma perspectiva nova e instigante, como em “Alien” (1979), mas apenas troca o clássico soldado masculino por um feminino, sem consequências maiores. O contato com inteligência alienígena mediado por relações governamentais tensas não faz refletir sobre os limites da relação entre estado e ciência, como em “Contato” (1997) ou “A chegada” (2016), mas é banalizado, óbvio como em um filme de guerra da Guerra Fria, em que se tem que neutralizar o inimigo exótico. Em “Aniquilação” as cenas no espaço alienígena são intercaladas com lembranças de cenas eróticas da protagonista, sem que isso adicione um pingo de profundidade a ela ou se relacione de alguma maneira com o desenvolvimento do enredo. O mesmo se dá com seu passado militar e suas habilidades de combate. São elementos de gêneros distintos (filme de romance, filme de guerra) que compõem isoladamente o filme, tentando buscar os espectadores aficionados por estes tipos de filme, sem trazer consequências reais para este. Tratam-se, novamente, de membros distintos – disjecta membra – que compõem um corpo animado, mas sem vida, como o cadáver criado pelo Dr. Frankenstein.

Para dar um exemplo de fora da Netflix que mostra que o problema envolve a Indústria da Cultura como um todo, basta pensar em filmes como “Os Vingadores”, da Marvel. Nele, há uma dúzia de heróis e vilões para todos os gostos, há gêneros de filme dos mais variados em um único: cenas de ação, drama, ficção científica, crítica política, romance e comédia se sucedem, sem exatamente se conectarem, em um único filme de três horas. O gênero super-herói vai engolindo os outros e transformando o cinema comercial em uma grande e única massa digestiva – eis o universal possível.

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Mas como se explica então que empresas bilionárias produzam reiteradamente obras com esta fraqueza estética, com esta tendência que, longe de ser exceção, é a regra do audiovisual comercial? A resposta é evidente: não se trata de falta de recursos ou de capacidade técnica dos roteiristas e diretores em criar uma obra complexa, multifacetada, mas ainda coesa. Não se trata de um erro na execução de um projeto porque o que se chama aqui de erro estético, lá é acerto comercial. Interessa mais alcançar um público amplo e, portanto, diverso, com uma obra medíocre, do que um público inicialmente restrito com uma obra consistente (ainda que com o tempo ela se popularize para além do seu público inicial).

Um filme como “Alien”, por exemplo, se fosse pensado mirando públicos-alvo e nichos de mercado como estes preparados a partir de algoritmos, simplesmente não teria acontecido, porque ao invés da soma do público de pessoas interessadas em “filmes de ficção científica” e “filmes com protagonistas mulheres”, ele teria apenas a intersecção, ou seja, pessoas interessadas em filmes de ficção com protagonistas mulheres (subgênero, até então, praticamente inexistente). Mas “Alien” não abriu mão das especificidades específicas destes dois grupos, senão as conservou em um meio termo tenso que tanto iluminou o gênero ficção científica a partir da especificidade feminina quanto alargou o potencial de representação feminina a partir do imaginário da ficção científica. Para seguir na metáfora dos grupos, o que os filmes comerciais algorimitzados fazem é, ao invés de uma intersecção, uma sobreposição dos gêneros. Nesta sobreposição o que se visa é o máximo de público possível, ou seja, tanto os interessados em ficção científica, quanto os interessados em protagonistas femininas. Para alcançar o feito que é alcançar os dois públicos, a única estratégia possível é a diluição dos gêneros: uma pitada de ficção científica aqui, outra de vida feminina aqui, mas nada que vá fundo o bastante e afaste o expectador do polo oposto.

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Se nesse exemplo a coisa já parece difícil pensando apenas nestes dois nichos imaginários de mercado, a coisa na realidade é ainda mais complexa porque se trata às vezes de dezenas de interesses que precisam ser diluídos e sobrepostos em uma única obra: interesses regionais de venda (eis a presença recente de tantos personagens chineses nos filmes comerciais americanos), pressão política por representação e abertura de nichos de mercado até então “esquecidos” (grupos oprimidos e minoritários de raça, gênero etc), tendências do momento (dos piratas, aos vampiros, aos ciborgues etc) etc. Os filmes passam a ser uma sequência de pequenos momentos que se relacionam entre si apenas por estarem sob a mesma rubrica e não pela coerência interna da obra. A descrição do monstro oferecida pelo Dr. Frankenstein é representativa do design perfeito e contrastante de partes que, longe de criar uma quimera, cria uma monstruosidade: “Os seus membros estavam proporcionais e eu tinha procurado torná-lo belo. Belo! Meu Deus!… A pele amarela mal cobria os músculos e as veias. Os cabelos eram, porém, abundantes e de um negro brilhante, os dentes brancos como pérolas, mas estes esplendores contrastavam de um modo ainda mais horrível com os olhos lacrimejantes e sem cor, o rosto enrugado, o traço negro que lhe formava os lábios”.