12 de novembro de 2018, 19h37

“Anonimato”, um espetáculo necessário

Joselicio Junior: “Diante das incertezas, do uso das tecnologias para disseminar o ódio, a intolerância e o estímulo à violência o espetáculo ‘Anonimato’ é um alento”

Foto: Raul Zito

O ano de 2018 traz marcas profundas. Ano marcado pelos 130 anos da falsa abolição da escravatura, 30 anos da constituição cidadã, longe de ser implantada plenamente, principalmente nas periferias. Ano em que foi eleito o primeiro militar presidente por voto direto, o que abre um cenário de incertezas, com a disseminação de um clima de intolerância, de piora das condições de vida da maioria das pessoas com desemprego e violência. Mas nas artes, este ano, tivemos um alento: a estreia do espetáculo “Anonimato”, da Cia Treme Terra.

A comunidade negra nunca encontrou facilidades ao longo da sua trajetória nas Américas, particularmente no Brasil. Sempre foi uma caminhada de luta, utilizando-se das mais variadas estratégias para resistir. Umas das marcas desta resistência sempre foi a cultura, desde o desafio de construir uma língua comum, dificultada pelo colonizador que espalhou os africanos da mesma etnia para evitar a comunicação, à construção religiosa afro-brasileira, inclusive o sincretismo religioso, que resultou em manifestações tradicionais que persistem até os dias atuais. Para o sociólogo Clóvis Moura, a cultura negra é uma cultura essencialmente de resistência e antissistêmica.

Para o poeta, teatrólogo e folclorista, Solano Trindade, a construção artística e cultural passa por “pesquisar na fonte de origem e devolver para o povo na forma de arte”. A trajetória da Cia Treme Terra é uma expressão dos conceitos de Moura e Trindade, desde o primeiro projeto em 2009 denominado “Cultura de Resistência”, passando pelos espetáculos “Terreiro Urbano”, “Peles Negras Máscaras Brancas”, o documentário “ Danças Negras” e o mais recente projeto “Anonimato Orikis aos Mitos Pessoais Desaparecidos”. A marca registrada da companhia é beber na fonte da ancestralidade afro-brasileira e trazer para o contexto urbano contemporâneo a força dessa cultura.

Assistir ao espetáculo “Anonimato Orikis aos Mitos Pessoais Desaparecidos” é viajar no tempo, sem sair do presente, ver o fundamento e a energia das culturas tradicionais afro-brasileiras bantos e iorubanas, entrelaçadas com um grafite digital e um reconhecimento da cultura hip hop, ver a luta histórica das mulheres negras pela emancipação dos seus corpos e sua força motriz que rege nossa sociedade, como traz o genocídio urbano praticado particularmente contra a juventude negra. Tudo apresentado com muita plasticidade na dança e força percussiva que forma uma atmosfera envolvente e quase hipnótica no público. Outro elemento que chama a atenção é a terra que compõe o cenário, o que remete à ideia de reconexão com as forças naturais.

Diante das incertezas, do uso das tecnologias para disseminar o ódio, a intolerância e o estímulo à violência o espetáculo “Anonimato” é um alento, não apenas por sua beleza e pertinência histórica, mas por demonstrar que nossa caminhada nunca foi fácil. Por outro lado, nunca desistimos, sempre buscamos estratégias de sobrevivência, de resistência e construção de alternativas ao sistema.

Serviço

Espetáculo “Anonimato Orikis aos Mitos Pessoais Desaparecidos”

Data: 20/11/2018

Horário: 18h

Local: Sesc Santana

https://www.sescsp.org.br/programacao/171761_ANONIMATO+ORIKIS+MITOS+PESSOAIS+DESAPARECIDOS

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