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23 de abril de 2017, 12h57

Ansiedade de Doria e falta de recursos para trabalhar provocam queixas dos auxiliares

O resultado do ritmo frenético de Doria é uma equipe que frequentemente exibe olheiras e, de acordo com seus auxiliares, tem pouquíssimo tempo para pensar e refletir sobre o que está fazendo. Da Redação com Informações da Folha Após quase quatro meses de mandato, duas queixas são muito recorrentes entre auxiliares do prefeito de São Paulo João Doria: a falta de recursos para trabalhar e o estilo “ansioso” de gerir do tucano. João Doria (PSDB) quer tudo para ontem. Telefona à 1h30 da manhã, envia mensagens insistentes pelo celular no meio da noite e faz uma reunião atrás da outra,...

O resultado do ritmo frenético de Doria é uma equipe que frequentemente exibe olheiras e, de acordo com seus auxiliares, tem pouquíssimo tempo para pensar e refletir sobre o que está fazendo.

Da Redação com Informações da Folha

Após quase quatro meses de mandato, duas queixas são muito recorrentes entre auxiliares do prefeito de São Paulo João Doria: a falta de recursos para trabalhar e o estilo “ansioso” de gerir do tucano.

João Doria (PSDB) quer tudo para ontem. Telefona à 1h30 da manhã, envia mensagens insistentes pelo celular no meio da noite e faz uma reunião atrás da outra, exigindo agilidade da sua equipe. Tudo é sempre urgente, mesmo quando não precisa ser.

A pressa de Doria reflete sua personalidade, mas também um plano de marketing construído para diferenciá-lo do antecessor (Fernando Haddad, do PT) e tentar preservar sua popularidade enquanto o caixa municipal o impede de fazer grandes coisas.

O problema, dizem secretários ouvidos pela Folha, é que o personagem do “prefeito 24 horas” acaba por retroalimentar a rotina de Doria, gerando um acúmulo de compromissos que, muitas vezes, na opinião deles, chega a ser contraproducente.

Quanto mais faz, mais precisa fazer para manter seu Twitter e seu Facebook devidamente ativos. “Vou atualizando vocês #AceleraSP”, costuma escrever o tucano nas redes sociais.

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A agenda da segunda-feira, 10 de abril, é um bom exemplo dessa grande concentração de afazeres.

Doria começou o dia às 7h no Palácio dos Bandeirantes, em reunião que envolveu os secretariados dele e do governador para mostrar que, a despeito dos rumores de que pretende furar a fila do PSDB e disputar a Presidência no ano que vem, está afinado com Geraldo Alckmin.

Às 10h, estava de volta à sede da prefeitura para apresentar um balanço dos seus primeiros cem dias à frente do governo. Ao meio dia, embarcou para Porto Alegre (RS), onde às 15h fez uma palestra numa universidade.

Na sequência, voltou para São Paulo, participou de uma reunião no gabinete e, às 20h, assistiu a um jogo de futebol no Pacaembu (Santos x Ponte Preta). No fim da noite, voltou para o aeroporto e, às 23h50, embarcou para uma viagem de 22 horas com destino à Coreia do Sul.

Doria, sempre cobrando a presença de secretários e assessores, não folgou nenhum final de semana desde que tomou posse na administração.

No sábado, 4 de março, estava às 7h acompanhando os trabalhos de zeladoria na Vila Clementina (zona sul). Às 8h30 fez uma reunião de cinco horas com seu secretariado e presidentes de empresas públicas. Às 15h, vistoriou obras de tapa buracos no Campo Belo (zona Sul).

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O resultado de tudo isso é uma equipe que frequentemente exibe olheiras e, de acordo com auxiliares de Doria, tem pouquíssimo tempo para pensar e refletir sobre o que está fazendo.

Um episódio mantido em sigilo durante a campanha eleitoral do ano passado é lembrado por pessoas do círculo próximo do então candidato para demonstrar preocupação com o seu ritmo de trabalho e de vida.

Logo no início da disputa, em meio a uma agenda pesada, o tucano teve de ser internado no Hospital Sírio-Libanês, onde ficou por dois dias.

Estava com herpes zoster, uma infecção viral caracterizada por dolorosas erupções na pele. Má alimentação, estresse e sono ruim estão entre os fatores que baixam o sistema imunológico e podem desencadear a doença.

BAIXA NA EQUIPE

Demitida sob a alegação de que o trabalho no governo exige uma “demanda” que não combina com o seu “espírito”, Soninha Francine, ex-secretária de Assistência Social, foi a primeira baixa na equipe de João Doria.

Em entrevista, apresentou sua versão sobre o que ocorreu. “O prefeito cobrava rapidez de resultados. Eu também tenho pressa, mas questões complexas não são resolvidas em algumas semanas”, diz Soninha, que retomou sua cadeira na Câmara Municipal.

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O discurso é semelhante ao de outros integrantes do governo, segundo os quais bons projetos podem ser atrapalhados pela correria.

Um auxiliar considera que falta ao prefeito percepção de como a máquina gira. Outro afirma que o foco no imediatismo produz resultados de perna muito curta. Um terceiro diz estar preocupado e que não sabe se irá aguentar muito tempo no cargo.

VITAMINA

Doria declara que o ritmo da sua gestão tem de ser acelerado mesmo. “É pesado, mas todos foram prevenidos no momento do convite. Ninguém pode alegar surpresa.”

O prefeito afirma que já atuava dessa maneira no setor privado e que seu ritmo não é contraproducente. “Vai ser assim até o final. As tarefas precisam ser cumpridas.”

Doria conta que dorme de três a quatro horas por noite e que nunca tomou remédios para induzir o sono nem para se manter acordado. “Tomo apenas minhas vitaminas, há 36 anos.”

Em reunião do secretariado, ele distribuiu caixas de suplementos vitamínicos de uma farmácia popular para os seus subordinados, situação que pretende repetir a cada dois meses. Os resultados da ação sobre o ânimo da equipe são incertos, mas o marketing funcionou muito bem. O vídeo viralizou na internet.

 

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