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17 de dezembro de 2018, 17h21

Aos lunáticos detratores da esquerda, vocês são uma farsa!

Muitos não percebem que agem como meras marionetes de uma farsa, guiados pelos interesses do capital, vítimas de uma violência que não enxergam porque é simbólica

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A história não se repete! Pelo menos é o que diz o acréscimo retórico de Marx à ideia hegeliana, no qual o filósofo comunista diz que um acontecimento vem à luz “pela primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. A questão é que a farsa, para Marx, é uma artimanha das classes dominantes para impedir o movimento progressivo da história. Isso dá a impressão de que a história se repete, mas não é verdade.

Esse ponto pode ser apreendido em seus escritos de quando ainda era jovem. Junto com Engels, Marx, ao falar dos diversos socialismos que existiam em seu tempo, afirmava que nenhum deles era realmente revolucionário. Ou eram “ecos do passado”, ou “uma razão inversa do desenvolvimento histórico”. Somente o comunismo faz girar a engrenagem da história, pois sua teoria é baseada no “movimento histórico que se desenrola sob nossos olhos”.[1] É o único que visa uma mudança radical, que aponta para o futuro.

A farsa é, também, um dos mecanismos utilizados pela burguesia para impedir a suplantação do modo de produção que sustenta a ideologia que justifica sua dominação. Isto é, a mudança histórica ocorre somente quando há uma alteração no modo de produção. O que nos leva a crer que se não houve uma ruptura com o capitalismo, que, por sua vez, já vigorava quando Marx escreveu essas linhas. Não houve uma mudança histórica.

Chega-se a conclusão de que há a possibilidade, sim, de retornos, de rodopios lunáticos em torno de um eixo (modo de produção), de um movimento circular, de idas e vindas, evidentemente, como farsas. O que jamais ocorrerá é uma volta ao feudalismo, ou ao modo de produção escravista. Esses foram sepultados pelo movimento da história. No entanto, elementos que assombraram a história do capitalismo, criados durante a vigência de tal sistema, estão por aí, esperando um momento para se manifestar. Enquanto não houver uma ruptura estaremos condenados a nos repetir.

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A religião e os bons costumes

Embora o mundo tenha sido dessacralizado com a ascensão da burguesia, o cristianismo nunca foi um óbice para o capitalismo. Ao lermos Max Weber percebemos justamente o contrário. A moral do empreendedor fundamenta-se na ética protestante. Sendo assim, não seria nenhum absurdo (para falar de Brasil) o retorno ao culto religioso nas escolas.

O discurso de apologia da moral e dos bons costumes, é de longa data, todos sabem, assim como a associação da esquerda e do comunismo com a degeneração dos valores tradicionais. Nos anos 1930, os integralistas acusavam a Aliança Nacional Libertadora (ANL) de “destruidora da família e apologista da prostituição”. E grupos moralistas que apoiaram a ditadura militar, como a Campanha da Mulher pela Democracia, diziam que o socialismo e o comunismo vieram para “subverter a moral, eliminar a religião e separar os pais dos filhos”.[2]

Outro movimento que nos assombra atualmente, parido, também, pelo sistema capitalista, é o fundamentalismo. Criado nos EUA, no início do século XX, buscava enfatizar uma interpretação literal da Bíblia para a prática da vida. O retorno de ideias tradicionais não quer dizer que a história voltou, mas que a história não se alterou, já que, pela perspectiva marxista, é necessária a transformação do modo de produção capitalista para que a história possa progredir. Isto é, os opositores do socialismo são um entrave para o progresso.

Outra questão é o fato de antigos procedimentos serem resgatados. Procedimentos que se esboçavam muito bem na cartilha da Ação Integralista Brasileira de 1933:

“O Integralismo defende um programa amplamente educativo (…) criação de universidades inspiradas nos princípios de uma filosofia cristã; criação de cursos populares e de alta cultura; estímulo às pesquisas científicas, às belas artes e à literatura (…) respeitando sempre os limites impostos pelos imperativos de ordem moral, social e nacional…”[3]

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E da maneira semelhante (tirando o nacionalismo) age o MBL nas suas polêmicas intervenções nas artes e em sua defesa visceral ao projeto “escola sem partido”. Manifestam-se os ministros da Educação e dos Direitos Humanos de Bolsonaro.

O mais curioso em toda essa história (e atualizando os mecanismos de ódio às esquerdas) é a prisão de Pezão, governador do Rio de Janeiro. O PSOL já havia entrado diversas vezes com o pedido de impeachment contra ele, mas parece que só a Lava Jato tem poder. A esquerda não pode agir contra corruptos, pois é ela que deve estar ligada a corrupção. Essa é a moralidade obscura a qual à esquerda deve estar associada hoje, além das ideias liberais de legalização do aborto, casamento entre o mesmo sexo e das drogas, que segundo os moralistas atuais é o que está destruindo o país.

Marionetes de uma farsa

Muitos não percebem que agem como meras marionetes de uma farsa, guiados pelos interesses do capital, vítimas de uma violência que não enxergam porque é simbólica. Usam da moral para nos desviar do verdadeiro conflito: a luta de classes. Isso é um golpe perfeito para atravancar o progresso, isto é, o socialismo.

Marx escreve esse fenômeno assim: “A tradição de todas as gerações mortas oprimem como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada”.[4]

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Não estou dizendo que estávamos às portas de uma revolução antes da ascensão conservadora atual, e muito menos que os governos anteriores não atravancavam a ascensão do proletariado em sua plenitude, mas sim que a radicalização da direita acaba por radicalizar a farsa, parindo lunáticos que carregam tochas, que proíbem filmes e pinturas, que atacam terreiros de candomblé em nome de valores antigos.

O combate contra as esquerdas na América Latina faz parte de um movimento mundial relacionado às sanções dos EUA ao mercado asiático que, em represália, se fecha cada vez mais para si. O fim do BRICS é uma questão de pouco tempo, fazendo do Brasil um consumidor fiel e dedicado aos produtos americanos. A América Latina vem no embalo.

Demonizar a esquerda é apenas um recurso covarde para dizer que tudo que o governo anterior fez, inclusive o BRICS, é uma besteira feita por corruptos. Quando não há como relacionar a esquerda à corrupção, recorre-se ao assassinato, como fizeram com Marielle e com o deputado do Rio de Janeiro Marcelo Freixo, ameaçado frequentemente. O caminho para a subserviência completa está aberto… já batemos continência e tudo.

 

[1] MARX, K. e ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2006. p. 60.

[2] ROSA, Rita de Cássia Vianna. A “Pira da Fé: mulheres, memórias e ação política em Juiz de Fora, anos 1960. SOIHET, Rachel et. AL. Mitos, projetos e práticas políticas: memória e historiografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 314

[3] SALGADO, Plínio. O que é o Integralismo. In: Obras Completas, V. IX, 1955, p.119. [1ª edição 1933]

[4] MARX, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Martin Claret, 2007. p. 19